“E a cabecinha doutora? Está normal?”, por Mariana Tavares

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(UNFPA, 08/07/2016) Histórias de mulheres afetadas pela tríplice epidemia em Recife.

O sol quase não aparecera naquele sábado. A chuva tomava conta do céu de Recife quando a equipe do UNFPA se dirigiu para a comunidade Rosa Selvagem, na periferia da capital de Pernambuco, para participar de uma roda de conversa com moradores. Organizado com o apoio dos parceiros da ONG Mirim Brasil, foi preparado uma conversa com moradores da comunidade Rosa Selvagem para saber mais sobre o acesso a informações e insumos em meio ao contexto de tríplice epidemia (zika, chikungunya e dengue). Com as pancadas de chuva, bastaram algumas horas para que diversos pontos da cidade ficassem alagados. O caminho até a comunidade era longo e durante todo trajeto alternava-se a visão de alagamentos e lixo na rua.

Ao entrarmos na comunidade, as ruas eram de terra e o motor dos carros pedia a primeira marcha para subir as ladeiras. Era evidente que naquele lugar ônibus nenhum passava, o transporte viável necessitava de rodas ou força nas pernas. No caminho podíamos ver muitas motos, pessoas na porta de suas casas, terrenos com lixo e poças de água, um cenário que explicava a facilidade de proliferação do mosquito transmissor.

O carro parou. Havíamos chegado à casa de Maria das Dores da Silva, moradora do bairro e gestora de saúde da unidade básica local, o chamado “postinho”, há 23 anos. Sua idade e mãos mostravam que muitas histórias estavam guardadas em suas experiências. Aos poucos essa percepção foi se concretizando. Os moradores se aproximavam, espreitando, ainda em dúvida sobre o que iriam fazer ali, mas o conforto em ter Dora (forma como chamavam Maria das Dores) e Sylvia da Miriam Brasil os tranquilizava.

Em uma casa simples e aconchegante, todos foram acomodados em cadeiras e sofás para participar da nossa conversa. O UNFPA tinha um objetivo muito claro com esta missão. Como Fundo de População, estávamos ali para ouvir as pessoas. Queríamos saber sobre suas realidades, demandas, acessos (ou falta deles) com foco na tríplice epidemia; e de que modo as informações estavam chegando àquela comunidade, quais medos e inseguranças rondavam suas vidas.

Éramos 16 pessoas dentro daquela sala, das quais 11 mulheres; 5 delas estavam grávidas. A fim de encorajar o grupo a falar, Dora não perdeu tempo em nos relatar o que há pouco havia ficado evidente: a comunidade não tem acesso a serviços públicos básicos. “São várias as dificuldades daqui, em especial o transporte. É uma comunidade sem estrutura e de difícil acesso. A água é precária e não há saneamento básico. Falta medicamento para as pessoas da comunidade, por exemplo. São mais de 3 mil pessoas atendidas pelo posto de saúde e as dificuldades são grandes, pois sem saneamento básico é difícil”.

Quando perguntamos se na comunidade tinham notificado casos de infecção por um dos três vírus, Dora nos respondeu que a realidade local era de epidemia de chikungunya e dengue; e que era difícil encontrar uma família que não tivesse tido pelo menos uma das infecções. Mas que não havia informações sobre zika, pois o diagnóstico não era feito no posto da comunidade. No mesmo momento uma das grávidas, segurando uma criança entre as pernas, começou a falar. Seu nome era Débora de Andrade, era mãe e estava grávida de 9 meses. Ela estava acompanhada por um de seus filhos, de 6 seis anos. “Eu tive chikungunya no quinto mês de gravidez. Senti muitas dores nas articulações e nos pés. A médica que me atendeu primeiramente me deu o diagnóstico de zika”. Débora relatou que, apesar de ter o encaminhamento dos exames, antes do resultado sair os médicos a informaram que ela estava com zika: “antes do resultado já foi anunciado que era zika. Eu me preocupei com o meu bebê e a possibilidade de nascer com microcefalia. Como estava grávida, fui logo encaminhada para outro hospital. Após o exame de ultrassom, descobri que o bebê estava bem e que não estava com zika e sim chikungunya”.

A simplicidade estava presente nos pequenos gestos. Os pés descalços no chão confortava as mulheres que, aos poucos, foram demonstrando consenso quanto à insegurança em relação às informações sobre o zika. O tom de preocupação e medo era evidente, todas comentavam entre elas os boatos e informações que haviam recebido. Descontente com a situação, Claudeci dos Santos, grávida de 3 meses, questionou a responsabilização das mulheres grávidas sobre os cuidados da casa e do corpo para se proteger das picadas do mosquito: “Eu escuto as pessoas falarem o tempo todo que a mulher precisa se prevenir, precisa se prevenir. Ela não vive! As mulheres que ficam em casa são responsáveis pela prevenção”.

Entre as mulheres estava uma adolescente de 15 anos, grávida de 8 meses do seu primeiro filho. Para ela as informações eram confusas. Exemplificou que havia escutado que uma vacina estava causando microcefalia nos recém-nascidos. Perguntamos a ela sobre acesso aos métodos contraceptivos na comunidade e se na escola havia recebido informações sobre educação sexual. A jovem nos contou que em sua escola os professores “ficavam bravos” em falar sobre educação sexual, o que deixava as e os estudantes desconfortáveis com o assunto. Quanto ao costume de ir ao médico, ela comentou que começou a ir ao consultório depois que descobriu que estava grávida e que nunca foi ao postinho buscar métodos contraceptivos, pois mesmo tendo camisinha o namorado optava por não usar o preservativo.

A falta de informação ou excesso de boatos impactava diretamente na vida daquelas mulheres. Débora comentou que “foram feitas campanhas locais para falar sobre a prevenção do mosquito, mas nada foi feito para falar sobre os cuidados e direitos das mulheres. É um medo tão grande que a minha primeira pergunta é sempre ‘E a cabecinha, doutora? Está tudo bem? Está normal?”.

As consequências de informações desencontradas eram evidentes no medo que as mulheres ali presentes diziam sentir. Grávida de seu primeiro filho, Lucineide Soares, com 5 meses de gravidez, era uma das futuras mães que relatou o medo que sentia: “eu fico com medo. Este é meu primeiro filho. A gente ainda é inexperiente, não sabe como será para cuidar direito do bebê, por exemplo”. A situação familiar era uma de suas preocupações. “Moro com a minha sogra e tenho uma avó que tem bastante idade. Imagina se vem uma criança com microcefalia? Eu vi na TV que os bebês têm vários problemas por causa do zika. Vão ter problema de audição e visão, serão sempre dependentes”.

Para aquelas mulheres, a responsabilidade de cuidar da casa e de seus corpos era uma demanda constante da sociedade. Medo, culpa e responsabilização eram citados ao longo da conversa. Lucineide comentou: “eu fico pensando que me sentiria culpada: ‘Eu poderia ter me cuidado mais, ter procurado mais informações. A culpa seria minha”.
A tríplice epidemia acarretou mudanças na vida e nas decisões de muitas mulheres. As pessoas da comunidade Rosa Selvagem, na periferia de Recife, estão na ponta da população mais afetada pelos vírus causadores das epidemias e demais consequências. O UNFPA queria saber quais mudanças haviam ocorrido em suas rotinas e resposta foi: muitas. Aos poucos as mulheres começaram a relatar que muitas ali eram beneficiárias do Bolsa Família e que os gastos com energia elétrica tinham aumentado por conta do uso constante do ventilador para repelir os mosquitos. Além do aumento do custo da eletricidade da casa das famílias, Débora também observou: “mudou em vários aspectos: o medo, a microcefalia, as idas ao médico. É a preocupação. Mudou muita coisa porque quando tive meus outros filhos não tinha isso. O que mudou são os cuidados, o excesso deles. Ainda mais pensando que tem essa vida dentro de mim”.

Foram horas de conversa, compartilhamento de informações e histórias. A tarde chuvosa ia chegando ao fim e estava na hora de nos despedirmos das pessoas que tinham passado aquele momento conosco. Para o UNFPA, a experiência de ouvir e saber diretamente das pessoas as suas demandas e realidades era fundamental para nortear as ações relacionadas à epidemia do zika. Maria das Dores, gestora de saúde da Comunidade Rosa Selvagem, resumiu o sentimento de quem há anos vive no local: “a preocupação é com a falta de cuidados dos órgãos públicos que não estão perto para ajudar o povo. É necessária uma atenção que chegue mais perto da população pobre”. Com expectativas de futuro para as crianças que nascerão na comunidade, finalizou a conversa afirmando: “hoje aumentou a minha ansiedade. Porque ainda tem muita criança para nascer em minhas mãos”.

Texto Mariana Tavares

Acesse o site de origem: “E a cabecinha doutora? Está normal?” (UNFPA, 08/07/2016)

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