Fake news sobre gênero e sexualidade refletem disputa moral no País

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Artigo publicado na revista MATRIZes traz uma análise de 65 notícias falsas sobre o tema compartilhadas em 2019 no Brasil

(Jornal da USP | 04/10/2021 | Por Redação)

Artigo publicado na última edição da revista MATRIZes se dedica a investigar as fakes news sobre as questões de gênero e sexualidade. Os pesquisadores analisaram 65 peças desinformativas sobre o tema compartilhadas em 2019 no Brasil. Dentre os resultados do estudo, verificou-se uma predominância de narrativas envolvendo políticos, celebridades e autoridades públicas, na maioria contestando a obtenção de direitos civis por pessoas LGBTQIA+, criminalizando arranjos familiares que fogem de padrões heteronormativos e recriminando mulheres por condutas consideradas inadequadas.

O material foi coletado na base de dados de agências de checagem de fatos e recebeu uma análise qualitativa, que abrange seus temas principais e meios de divulgação. Os dados estão no artigo Desinformação sobre gênero e sexualidade e as disputas pelos limites da moralidade.

Segundo os autores do trabalho, os pesquisadores Thales Vilela Lelo, pós-doutorando do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Lorena Caminhas, pós-doutoranda do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a desinformação em relação a questões de gênero e sexualidade é amplamente difundida e busca reforçar valores morais conservadores de uma parcela da população brasileira.

Os pesquisadores também estudaram o contexto das disputas morais que viabilizam a crença nas notícias infundadas. “O potencial público visado por estas notícias falsas coaduna com uma cosmovisão conservantista, uma vez que tais textos visam acionar sensibilidades morais para um fim ideológico, isto é, a promoção de ideais reacionários, mobilizados discursivamente nas narrativas”, afirmam.

O artigo também aponta como funciona a disseminação desse conteúdo, frequentemente reproduzido em páginas da internet que se autointitulam “informativas” e “imparciais”, além de analisar as histórias mais comentadas. É o caso de uma notícia falsa sobre um suposto projeto de lei do Congresso Nacional que legalizaria o casamento entre pais e filhos, denominado pejorativamente de “Lei do Poliamor”.

Lista de páginas de desinformação analisadas – Crédito: Revista MATRIZes

Os autores salientam a importância deste tipo de estudo, que analisa a produção e a circulação da desinformação levando em conta o contexto sociocultural e as disputas morais que a impulsionam. Trata-se de uma abordagem que busca ir além da investigação das fake news como fenômeno comunicacional e midiático, e que pode ser utilizada para compreender os efeitos da desinformação sobre diversos setores da sociedade. “Visando a impulsionar investigações afins, apontam-se como possíveis desdobramentos deste trabalho estudos focados em identificar falsas narrativas baseadas em outros marcadores sociais da diferença – como classe, raça e etnia, por exemplo.”

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