Gravidez na velhice gera intolerância e preconceito, por Cláudia Collucci

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(Folha de S. Paulo, 05/08/2014) O que pode ser mais polêmico do que uma mulher de 61 anos decidir engravidar por fertilização in vitro? A mesma mulher seguir amamentando a filha até os dois anos.

Pelo menos é o que ficou claro nas mensagens de leitores que li após a publicação da reportagem no domingo sobre uma decisão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que considera inconstitucional limitar a idade para a gravidez, e da história que exemplifica caso.

Aos 61 anos, a pesquisadora Márcia Gamboa, mãe de um casal de filhos, decidiu engravidar novamente. Hoje, com quase dois anos, a menina ainda mama no peito. A foto ilustra bem esse momento. No colo da mãe, observada pelo pai, Silvio Gamboa, 65 anos, Marcita mama.

A entrevista e a foto foram feitas numa quinta-feira, no horário do almoço. Márcia e Silvio, pesquisadores da Unicamp, participavam de um congresso em Rio Branco (AC). A menina acompanhava os pais. Eles não têm babá e sempre levam a filha em suas viagens de trabalho.

Marcita reclamava de fome. Enquanto Márcia falava comigo pelo telefone, a menina não teve dúvida. Aproximou-se da mãe e mamou. “É o primeiro lugar que ela procura quando tem fome”, disse Márcia.

Achei isso o máximo e jamais imaginei que uma cena tão singela fosse provocar tanta polêmica e destilar tanto preconceito, intolerância e ignorância.

“Essa aí tá tão velha que o leite já vai sair em pó”, comentou um internauta. “Essa menina já tem idade para ir até o mercadinho e comprar o leite”, emendou o outro. “Mamar no peito aos dois anos de idade? Quem é seu pediatra, minha senhora?, disse outro, mais “educadinho”.

Fora os comentários maldosos sobre a idade dos pais e aquele bla bla bla de que são uns irresponsáveis em colocar uma criança no mundo nessa altura da vida.

Irresponsável é o pai que deixou o filho brincar perto da jaula do tigre e teve o braço amputado. Ou aquele que dirigiu sem habilitação, provocou um acidente e fugiu deixando para trás o filho preso nas ferragens. Irresponsáveis e criminosas são atitudes de pais e de mães que maltratam seus filhos, muitas vezes levando-os à morte.

Que mal tem uma mulher sexagenária gerar um filho se possui condições físicas, mentais e financeiras para isso? Por que essa mesma indignação não aparece quando um homem mais velho torna-se pai?

Morrer todos nós morreremos um dia e não necessariamente morreremos velhos. Mães jovens também morrem, sabem?

Mas parece que pouca gente se lembra disso. É mais fácil seguir fazendo a conta rasa de que a expectativa de vida do brasileiro é de 74 anos e que, aos 60 e poucos anos, as pessoas têm mais é que se preparar para a morte. Gerar uma vida? Que absurdo, que aberração!

A Márcia tem razões de sobra para acreditar que terá muitos anos ao lado da sua Marcita. Seus pais, com 90 e 94 anos, estão cheios de vitalidade e curtindo muito a netinha caçula. Os seus filhos, de 35 e 39 anos, adoraram a ideia de uma irmã mais nova. Os netos, entre 7 e 17 anos, também vibraram com a novidade.

Márcia e o marido são educadores, capacitam outros professores e têm muitos projetos em andamento. Também adoram passear e se divertir com a filha. Nem sonham com aposentadoria. Existe lar melhor para essa criança crescer e se desenvolver?

Acesse o PDF: Gravidez na velhice gera intolerância e preconceito, por Cláudia Collucci (Folha de S. Paulo, 05/08/2014)

 

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