Grupo pró aborto legal monta tenda após vítima de estupro ser agredida em frente a hospital público

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Em frente ao Hospital Pérola Byington, referência no atendimento de mulheres vítimas de violência sexual, grupos montaram tendas para colocar seus pontos de vista.

(G1, 29/10/2019 – acesse no site de origem)

Um grupo de manifestantes legalistas está convivendo pacificamente com o grupo contra o aborto na praça em frente do Hospital Pérola Byington, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo. Na tarde desta segunda-feira (28), nove voluntários estavam na primeira tenda enquanto cinco rezavam pelo fim do aborto na segunda.

O hospital é referência em atendimento a mulheres vítimas de violência sexual e realiza abortos nos três casos previstos por lei: estupro, gestação de fetos anencéfalos ou gravidez com risco de morte.

Cada grupo tem sua tenda armada em frente ao Pérola Byington. Desde o dia 25 de setembro o movimento “40 dias pela vida” monta diariamente sua tenda para realizar “orações e vigília contra o aborto” em frente ao hospital. Eles pretendem ficar lá até o dia 3 de novembro.

Procurado, o grupo “40 dias pelo fim do aborto” disse que não tem interesse em falar com o G1.

A tenda de manifestantes contrários a este primeiro movimento foi montada no sábado depois de uma mobilização feita pelas redes sociais pela escritora Daniela Neves, 47.

A ideia, segundo ela, surgiu depois que uma mulher vítima de estupro coletivo foi agredida pelo grupo “pró-vida” e a contra o aborto na última segunda-feira (21) (leia mais abaixo).

“Eu iniciei esse movimento de vigília para proteger as pacientes e o corpo profissional do hospital, que estava sendo super assediado. A ideia surgiu porque sou vizinha, moro no bairro e soube da violência e não dá para não agir. Acho que não podemos normalizar essas coisas que acontecem, a gente não pode deixar passar algumas coisas”.

As duas tendas montadas em frente ao Hospital Pérola Byington: á direita o grupo contra o aborto e á esquerda, os manifestantes legalistas — Foto: Bárbara Muniz Vieira/G1

De acordo com Daniela, a convivência entre os dois grupos tem sido “completamente pacífico” e salienta que os voluntários de sua tenda estão surgindo de forma orgânica com a mobilização feita pela internet.

“Estamos dando como resposta um movimento pacífico, bonito. Estamos do lado deles sendo felizes mostrando que ali é um espaço de convivência e de diálogo. Conversamos com os moradores de ruas, com médicos e pacientes. Os moradores têm passado, se juntado a nós e nos abraçado. Quando a gente tem uma resposta dessas é uma vitória, ainda há esperança, tem muita gente boa no mundo e a gente consegue fazer uma coisa.”

Daniela conta que o outro grupo tem horários determinados para rezar. “Fora desses horários eles se fecham na tenda deles para não olhar para nós e para o que está acontecendo”, afirma. O grupo de legalistas se organizou e tem uma planilha com horários de revezamento. Eles pretendem ocupar a praça também até o próximo domingo (3).

A Prefeitura de São Paulo informou que manifestantes não precisam de autorização para montar tendas na cidade porque a manifestação política é livre.

Cartazes do grupo legalista defendem direito ao aborto previsto na Constituição — Foto: Bárbara Muniz Vieira/G1

Uma das voluntárias dentre os legalistas é a jornalista Andéa Werner, 43 anos. De acordo com ela, apesar da convivência pacífica, há um clima de tensão no ar.

“Cheguei ontem e fiquei boa parte da tarde aqui. Fica uma tensão no ar por mais que não tenha um conflito direto. Mais de lá do que aqui. Eles ficam em posição de alerta, enquanto nós estamos rindo e conversando”, diz ela.

Um grupo de moradores de rua também divide o espaço da praça com as tendas. Na tarde de segunda-feira (28), um morador de rua conhecido como Espeto disse à reportagem do G1 que precisa de uma barraca para dormir à noite, quando a temperatura cai bastante.

“Ser pró-vida para mim é isso, é ver quem está mais próximo de você e ajudar. Fomos conversar com os moradores de rua e disseram que precisam de desodorante, absorventes. As pessoas não moram na rua porque querem, não é uma escolha. Acho que falta empatia”, diz Andréa.

Moradores de rua que ocupam quarteirão rua próxima ao Hospital Pérola Byington — Foto: Bárbara Muniz Vieira/G1
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