Na era zika, sífilis avança

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(Folha de Pernambuco, 01/05/2016) Previsão do Governo é que novos casos da transmissão de mãe para o filho em 2016 superem 22 mil.

A sífilis congênita, doença centenária largamente conhecida e que provoca graves problemas em bebês, anda esquecida nesta era da Síndrome Congênita do Zika. A previsão do Governo Federal é que os novos casos da transmissão vertical de mãe para o filho em 2016 devem superar 22 mil.

Faltam dados fechados de 2015, quando a prioridade do País passou a ser o novo vírus. No entanto, profissionais de saúde asseguram um “boom” da enfermidade. A doença vem seguindo uma progressão de casos novos.

Entre 2004 e 2013 a taxa de incidência quase triplicou, passando de 1,7 caso por mil nascidos vivos para 4,7. Pernambuco amarga o 5º lugar no cenário nacional, com 7,1 casos por mil bebês e o Recife amarga o título de 2ª no ran­king das capitais, com 18,2 casos.

A sífilis, que também provoca mal­formações fetais, inclusive a microcefalia, é ainda causa de óbitos fetais e neona­tais, além de abortamentos. Desprezada pelas autoridades na atual epidemia de crianças nascidas com anomalias pelo zika, a sífilis congênita encontrou ainda mais espaço para crescer apoiada na falta da medicação para o tratamento.

A penicilina teve um desabastecimento nacional entre 2013 e 2015. “Tivemos dois anos complicados e tensos”, afirmou a coordenadora estadual da Vigilância Epidemiológica de Infecção Sexualmente Transmissível, Camila Dantas. O colapso aconteceu pela falta da matéria-prima utilizada para a fabricação da medicação.

Pernambuco vem numa disparada de casos desde 2008, quando, ano a ano, o número de crianças infectadas na gestação não apresentou queda. O ápice veio em 2014, ano em que a soma dos bebês nascidos com sífilis chegou a 1.258. Destes, 13 morreram.

No Recife, em 2014, foram 444 casos, dos quais cinco resultaram em mor­tes de crianças menores de 1 ano de idade. Foi a maior incidência na Cidade desde 2004.

Quando não mata, a infecção bacteriana pode deixar sequelas diversas. “Os riscos à saúde do bebê são vários. Ele pode ter microcefalia, doenças cardíacas ou neurosífilis (quando a bactéria invade o sistema nervoso central causando danos como perda motora, visual e cognitiva)”, exemplificou Camila.

A falta da penicilina, que praticamente sumiu dos estoques, exigiu uma contenção dos municípios. No início de março deste ano, o departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde informou que, em janeiro, 60% dos estados relataram desabastecimento da droga. Depois de negociações com a Opas, dois milhões de frascos foram viabilizados.

Camila Dantas afirmou que Pernambuco recebeu uma par­cela dessa ajuda emergen­cial, mas não informou quanto. Só o remédio garante o tra­tamento da mãe e feto. E quanto mais cedo ele se inicia na gestação, menor o risco para o bebê. Para que não ocorra a transmissão vertical, é necessário que o tratamento ocorra até 30 dias antes do parto.

Outro gargalo está em diagnosticar rapidamente a doença e garantir a terapia adequada. Contudo, no Brasil, 56,6% das mães tiveram o diagnóstico de sífilis no pré-natal e apenas 8,8% das que positivaram receberam tratamento adequado.

Drama

A dona de casa Tatiana da Si­lva, 22 anos, e o bebê dela, Alan, com pouco mais de um mês de vida, vivem na pele a desassistência. A jovem descobriu a doença em 2015, aos 5 meses de gestação, que nela teve transmissão sexual.

O diagnóstico veio tardiamente no pré-natal, que já deveria ter sido solicitado e realizado assim que se descobre a gestação. “Disseram que eu precisava me tratar para que meu filho não nascesse cego ou com outros problema”, disse.

Moradora do Cabo de Santo Agostinho, ela achou penicilina no posto perto de casa, mas o tratamento teve uma interrupção na metade porque o remédio acabou. Com uma semana de atraso, retomou a medicação e pensou que estava tudo bem.

Crítica

Para o médico e diretor do Cen­tro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), Olímpio Moraes, a explosão da microcefalia causada pelo zika não pode tornar a sífilis congênita coadjuvante da saúde. “Ela mata muito mais que a microcefalia e tem mui­to mais casos nas nossas maternidades. E o pior é que é totalmente evitável.”

Renata Coutinho

Acesse o site de origem:  Na era zika, sífilis avança (Folha de Pernambuco, 01/05/2016)

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