Número de partos por cesárea cresce 40% e consolida domínio da prática

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(Folha de S.Paulo, 25/06/2016) Ao mesmo tempo em que há uma leve queda no número de nascimentos, a quantidade de partos por cesariana no Brasil aumentou mais de 40% em uma década e meia. Nesse período, a predominância do parto normal foi desfeita: se no ano 2000 as cesáreas representavam 38% dos nascimentos, os dados recentes mais completos indicavam uma taxa de 57%.

As estatísticas, que fazem parte do Sistema Nacional de Informações sobre Nascidos Vivos, do Ministério da Saúde, mostram como esse procedimento cirúrgico, indicado para partos de alto risco, ganhou espaço mesmo em casos sem indicação médica e se consolidou como líder no país nos últimos seis anos.

Leia mais: Novas regras inibem cesárea antecipada, mas não impedem dribles (Folha de S.Paulo, 26/06/2016)

O alto crescimento de cesáreas tem levado governo e entidades profissionais do setor a tomarem medidas para diminuir os riscos aos bebês.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) lançou nesta semana uma resolução que define que gestantes têm direito de optar pela cirurgia, mas veta que ela ocorra com menos de 39 semanas de gestação –antes desse período, avalia que os bebês ainda não estão totalmente maduros. As cesáreas foram responsáveis em 2014 pela chegada de 1,7 milhão de bebês –contra 1,2 milhão em 2000.

Dados preliminares do ano passado, obtidos pela Folha, já mostram ao menos 1,6 milhão de cesarianas. Apesar de mais baixo que no ano anterior, a quantidade ainda pode crescer assim que todos os dados forem contabilizados.

MÚLTIPLOS FATORES

“Há mais de 30 anos que os números [de cesáreas] vêm aumentando”, diz Eduardo Cordioli, da Sogesp (associação de obstetras de SP). “É um problema crônico que está chegando a um limite insuportável para o sistema.”

Ele e outros especialistas ouvidos pela Folha apontam alguns dos motivos para o crescimento: medo de sentir dor no parto normal, falta de leitos nas maternidades e de profissionais, baixa remuneração dos médicos e falta de informação às gestantes.

A lista vai além. “Os médicos passaram a organizar a agenda em função de fazer partos cesáreas, os hospitais deixaram de ter lugar para parto normal e ampliaram a UTI neonatal, e as mulheres passaram a entender o parto cirúrgico como uma tecnologia. Vários mitos foram criados”, diz Martha Oliveira, diretora da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Ela lembra que a situação “é mais grave” nos planos de saúde -chega a 84,6%. Em 2015, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou a adoção de um sistema universal de classificação da taxa de cesáreas. Com base nessa classificação, o ministério estima que a taxa de referência para o Brasil seria entre 25% e 30%.

No ano passado, a ANS lançou medidas que vetavam a cesárea agendada. Após críticas, voltou a liberar a possibilidade, desde que a gestante assine um termo de consentimento. Agora, a ideia é investir em parcerias com hospitais para reorganização do modelo de atendimento.

A mudança no modelo é defendida por Ana Cristina Duarte, do Grupo Maternidade Ativa. “Se não houver medidas, a tendência sempre vai ser fazer o que dá mais dinheiro e gasta menos tempo”, diz ela, que prega a maior participação de enfermeiros obstétricos em partos de baixo risco.

Apesar de também defender uma reorganização do modelo de assistência, Olímpio Moraes Filho, membro da câmara técnica de ginecologia e obstetrícia do CFM, diz que é preciso valorizar o direito da mulher de escolher. “A melhor via de parto é a vaginal. Mas não podemos obrigá-la a fazer. Se forçar um parto normal em uma mulher que não deseja, há grandes chances de ele complicar.”

Natália Cancian

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