Pesquisa evidencia importância de dar voz às mulheres para promover políticas eficazes contra a zika

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(Luciana Araújo/Agência Patrícia Galvão, 05/08/2016) Desde outubro de 2015, quando foram notificados os primeiros casos do tipo de microcefalia posteriormente associada à síndrome congênita do zika vírus, as brasileiras pouco foram ouvidas, embora sejam as principais afetadas pela epidemia. Diante do temor de que, se contraírem o vírus durante a gestação, seus bebês podem apresentar sequelas da síndrome, as mulheres têm muitas dúvidas e preocupações. Aquelas que tiveram filhos com a síndrome têm a vida totalmente transformada pelos cuidados intensivos que a condição exige, sem que o Estado assegure condições e serviços adequados para atender suas demandas e direitos. Muitas já têm outros filhos, vivem em situação de pobreza extrema e, com a nova realidade, por vezes são obrigadas a deixar o único meio de sustento da família para cuidar de mais uma criança cujo grau de comprometimento do desenvolvimento cognitivo ainda é desconhecido até mesmo pela ciência. A gravidez – culturalmente associada à felicidade, embora nem sempre se observem as condições nas quais uma mulher gera um filho ou se levem em conta as incertezas inerentes à responsabilidade que a sociedade imputa à mulher quando ‘vira mãe’ – passou a ser um período de ainda mais medo e ansiedade.

Da esq. para a dir: Jacira Melo (diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão), Valcler Rangel (vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz), Nadine Gasman (representante da ONU Mulheres no Brasil) e Carlos Eduardo Figueiredo (vice-diretor de Atenção à Saúde do Instituto Fernandes Figueira). Crédito: Luciana Araújo

Da esq. para a dir: Jacira Melo (diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão), Valcler Rangel (vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz), Nadine Gasman (representante da ONU Mulheres no Brasil) e Carlos Eduardo Figueiredo (vice-diretor de Atenção à Saúde do Instituto Fernandes Figueira). (Crédito: Luciana Araújo)

No entanto, como destacou a médica, doutora em gestão de políticas de saúde e representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, “fala-se do mosquito, do vírus, da epidemia, da emergência. E cadê as mulheres, a razão de ser da emergência? Por isso criamos a Sala de Situação, Ação e Mobilização pelos Direitos das Mulheres nos Tempos do Zika”.

Durante o lançamento das pesquisas quantitativa e qualitativa realizadas pelo Instituto Patrícia Galvão sobre a percepção das mulheres em relação à epidemia, Nadine relatou que “ficamos incomodados porque não estávamos achando nem nas matérias, nas pesquisas ou na correria cotidiana as vozes das mulheres”.

Acesse as pesquisas “Mulheres Grávidas em Face da Síndrome Congênita do Zika”:
Quantitativa – Instituto Patrícia Galvão/Locomotiva
Qualitativa – Instituto Patrícia Galvão/Data Popular

Mulheres demandam ação do Estado frente à doença da desigualdade

As pesquisas, desenvolvidas em parceria com os institutos Data Popular e Locomotiva, mostram que as mulheres têm clareza de que “esta é uma epidemia que tem a ver com os determinantes sociais da saúde e sobre a qual os governos municipais têm uma responsabilidade”, destaca Nadine. Das entrevistadas, 89% sabem que a ausência de saneamento básico pode contribuir para a disseminação da zika, assim como a maioria entende que a falta de água potável, tratamento de esgoto e coleta de lixo podem causar doenças graves. E 90% têm conhecimento de que as prefeituras são as responsáveis pela garantia desses serviços.

Dados divulgados pelo Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas nesta semana apontam que apenas 48,6% da população brasileira é atendida por serviços de esgotamento, só 39% das residências têm acesso a tratamento dos rejeitos e menos de 20% dos domicílios mais pobres no Brasil têm vaso sanitário ligado à rede de esgoto. “É preciso debater as questões estruturais e estruturantes socioambientais e de saúde pública, de atenção. E é preciso que ganhe evidência neste processo eleitoral nos municípios a garantia dos direitos das mulheres, que estão no centro da epidemia”, ressalta Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão.

Além disso, duas em cada três mulheres avaliam que o governo prioriza o investimento em propagandas ao invés de enfrentar seriamente a epidemia. E 76% veem que o poder público culpabiliza a população frente a situações de emergência de saúde pública como é o caso do atual surto de zika vírus.

“As mulheres têm informação suficiente – como mostrou a pesquisa quali – para saber que as ações do SUS de prevenção à epidemia são inadequadas. Isso é uma informação de boa qualidade. O ministro da Saúde ainda não descobriu que fazer campanha de botar areia no pratinho não resolve, mas as mulheres já sabem. E sabem também que estão gastando recursos para isso quando deveriam estar colocando em outro lugar. Esta é uma análise da realidade bastante sofisticada”, aponta Jurema Werneck.

Médica e coordenadora da ONG Criola, Jurema destacou ainda a demanda das mulheres entrevistadas sobre qual devem ser os conteúdos das ações de organismos de gestão e da mídia na garantia de seus direitos.

“Com relação às ações, as mulheres também pautaram o que precisa constar: a vida, a dimensão da gravidez com um escopo maior, a vida depois da microcefalia – e não estão erradas em falar desta forma porque só se fala em microcefalia e só se mostram bebês com a cabeça pequena. Ninguém estava falando da síndrome congênita. Para quem é de mídia também já tem pauta para sair do rame-rame e olhar para a mulher de outro jeito”, frisou Jurema.

Nadine Gasman concordou: “A pesquisa traz dados que confirmam o que pensávamos: as mulheres têm muito a dizer. As mulheres e as pessoas em geral que estão vivendo a situação. E elas estão dizendo claramente o que tem que mudar e como deve ser uma resposta que considere as suas necessidades e os seus direitos”.

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A diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê Machado, apresenta os dados das pesquisas a especialistas e representantes de organizações de mulheres. (Crédito: Luciana Araújo)

A importância da informação de qualidade para assegurar autonomia à mulher

Jurema Werneck também destacou que embora a pesquisa tenha captado a angústia e sofrimento em razão do momento da crise, também evidencia que as mulheres buscam se informar e precisam ser respeitadas em sua autonomia – o que implica assegurar a difusão de informações qualificadas tanto nos serviços quanto na mídia. “A pesquisa parte do enunciado da desinformação, angústia e sofrimento, mas traz uma segunda camada em relação a isso. As mulheres não têm todas as informações que precisam, de qualidade, mas têm informação. Aquele vídeo da tal médica da USP sobre a vacina de rubéola vencida é uma informação péssima, mas é uma informação, e chegou a todos os lugares. Isso mostra que há um caminho pavimentado para a boa informação chegar também”.

E completou, “assim como é possível apreender que a mulher busca informação na internet porque não consegue “arrancá-la” dos médicos. A pesquisa, de certa forma, nos induz a quebrar esse monopólio que a medicina tem de fazer do jeito que quer, coloca para nós o desafio de desnaturalizar essa desautonomia. Porque o médico não olha [para a mulher], não dá a informação, então ela diz: ‘eu vou buscar na internet porque o médico que eu vejo todo mês não me dá’”.

Apenas 27% das grávidas declararam saber muito sobre a zika. Embora a quase totalidade delas saibam que ter zika durante a gravidez pode levar o feto a desenvolver microcefalia, existem ainda muitas dúvidas sobre até que fase da gravidez o bebê pode ser afetado. Metade delas não soube responder se existe algum risco em uma mulher com zika amamentar seu bebê e quase um terço delas acredita que sim. De acordo com Organização Mundial da Saúde, que emitiu novo relatório sobre o tema nesta semana, “não existem evidências de que o vírus seja transmitido durante o aleitamento. Por isso, mães com infecção suspeita, provável ou confirmada devem continuar amamentando seus bebês normalmente”.

Investir na promoção de direitos passa por investir no SUS

O vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel Fernandes, destacou ainda a demanda por investimento na manutenção do Sistema Único de Saúde como o caminho para assegurar o enfrentamento à epidemia e os direitos das mulheres. “Estamos lidando com a questão da síndrome congênita e da tríplice epidemia [dengue, chikungunya e zika] como um todo ainda de um modo parcial, até porque ela é muito recente. Mas o Brasil demonstra uma capacidade de enfrentamento muito grande, se houver apoio para a pesquisa e a manutenção e estruturação definitiva do Sistema Único de Saúde. Se houver interesse das autoridades para enfrentar o problema na sua integralidade”, afirmou.

A mesma defesa havia sido feita por Carlos Eduardo Figueiredo, vice-diretor de Atenção à Saúde do Instituto Fernandes Figueira. “É muito importante falar em direitos da mulher e equidade de gênero em um momento em que se vislumbra um horizonte de perdas de direitos, planos de saúde ‘populares’, com o SUS sob tensão e a perspectiva de acabar esse direito que foi conquistado a duras penas pela sociedade brasileira.”

Jurema Werneck também apontou a necessidade de desdobrar os dados das entrevistas por raça, faixa etária e classe social para explorar as diferenças no atendimento no SUS e na garantia de direitos por parte do Estado. “Já temos evidências de que a qualidade do atendimento é mediada pelo racismo, a questão geracional – a maioria das grávidas são jovens – e a questão de classe. O médico que atende mal no SUS atende no outro serviço de outro jeito. Vale a pena mostrar isso porque a mulheres não têm uma experiência igual de assistência e desassistência, de empoderamento e desempoderamento, de autonomia e vitimização.”

Os resultados da pesquisa qualitativa evidenciam esta realidade. A maioria das gestantes afirma não ter orientações sobre como se proteger do vírus, ou no máximo foram orientadas a usar repelente e vestir roupas compridas e reclamam da demora dos exames e do acolhimento prestado pelas equipes de saúde.

Direitos sexuais e reprodutivos

Valcler, Jacira, Nadine, Jurema Werneck, José Paulo Pereira Júnior e Maíra Machado. (Crédito: Luciana Araújo)

Valcler Rangel, Jacira Melo, Nadine Gasman, Jurema Werneck, José Paulo Pereira Júnior e Maíra Machado. (Crédito: Luciana Araújo)

A questão dos direitos sexuais também foi destaque no debate. Isso inclui desde a autonomia para a mulher decidir adiar ou não uma gravidez, passando pelo acesso a informações completas sobre os riscos que a epidemia traz para a gestação e a métodos contraceptivos e serviços que permitam adiar o plano de maternidade sem outras complicações à saúde da mulher.

“Os dados de que a gravidez é um susto são muito impressionantes, assustadores. Um recado muito importante para o SUS. Cadê a informação, os métodos e os serviços de direitos sexuais e reprodutivos? Incluindo o tema tabu do aborto”, criticou Nadine. Apenas 32% das entrevistadas declararam que a gravidez havia sido totalmente planejada e três em cada 10 afirmaram que não tinham recebido nenhuma orientação no pré-natal sobre como prevenir o contágio pelo zika vírus.

“No caso da zika, um problema fica escancarado, que é o dos direitos sexuais e reprodutivos. O Fundo de População, a ONU Mulheres, a OPAS e as organizações de mulheres têm tirado esse tema da invisibilidade. E isso cria novos desafios para a pesquisa, o ensino, o desenvolvimento tecnológico e a atenção à saúde. E a pesquisa traz muitos elementos para pensar essas questões”, lembrou Valcler Rangel.

Para a OMS, adiar a gravidez é um direito e uma decisão pessoal da mulher, seja aquela que vive nas áreas onde o vírus foi identificado ou as que foram expostas ao zika em períodos de viagem. A Organização afirma estar instando os países a assegurar que as mulheres tenham informações completas sobre os riscos e os serviços de apoio de que possam vir a necessitar caso decidam levar a gravidez a termo, além de acesso a serviços de saúde reprodutiva, incluindo contraceptivos.

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A pesquisa – O Instituto Patrícia Galvão realizou as duas pesquisas com apoio da Fundação Ford e da ONU Mulheres. A pesquisa quantitativa foi desenvolvida pelo instituto Locomotiva Pesquisa e Estratégia e o campo aconteceu entre 29 de junho e 5 de julho, por meio da plataforma digital BabyCenter. Foram colhidos 3.155 questionários respondidos por grávidas.

Já a pesquisa qualitativa foi desenvolvida em parceria pelos institutos Locomotiva e Data Popular, com a participação de seis grupos de grávidas de classe CD nas cidades de São Paulo, Recife e João Pessoa, no mê de abril.

Para o representante da Fiocruz, “a pesquisa ajuda a qualificar muito a dimensão da percepção porque, de algum modo, no cotidiano dos serviços e na organização deles essa discussão sobre percepção dos usuários não tem sido qualificada”, diz Valcler.

O médico José Paulo Pereira Júnior, coordenador do Departamento de Obstetrícia do Instituto Fernandes Figueira, concorda. “Agora terei uma referência para orientar os residentes, pós-graduandos e equipes multidisciplinares que trabalham na assistência a essas mulheres”, afirmou. José Paulo é especialista em Medicina Fetal, obstetra e co-autor do estudo “Infecção por Zika Vírus em Mulheres Grávidas no Rio de Janeiro”.

“A emergência mundial colocada pela Organização Mundial da Saúde se deu em função da questão do zika em relação aos direitos reprodutivos das mulheres, das consequências da epidemia para as mulheres grávidas. Por isso entendemos que, até no campo científico, das pesquisas, é muito importante ter o conhecimento da percepção e das necessidades das mulheres, que estão no centro dessa epidemia”, destacou Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão.

Acesse as pesquisas “Mulheres Grávidas em Face da Síndrome Congênita do Zika”:
Quantitativa – Instituto Patrícia Galvão/Locomotiva
Qualitativa – Instituto Patrícia Galvão/Data Popular

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