Por trás dos bebês microcéfalos, reina a miséria absoluta, por Cláudia Collucci

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(Folha de S. Paulo, 01/03/2016) Uma das faces mais cruéis da microcefalia, além das más-formações em si, são as histórias de abandono. Primeiro, foram alguns pais que abandonaram suas parceiras tão logo os bebês com microcefalia nasceram. Agora, são mães que estão deixando seus filhos deficientes para a adoção, conforme revelou reportagem do jornal “O Estado de S.Paulo” nesta segunda (29).

É triste, mas dá para entender. Muitas dessas mulheres vivem em condições precárias, já têm outros filhos, alguns deles deficientes. Em Pernambuco, Estado que concentra a maioria dos casos de microcefalia do Nordeste, 77% das 209 mães de bebês com a má-formação estão abaixo da linha extrema de pobreza, segundo levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude.

Leia mais:
Microcefalia é a consequência mais óbvia; zika pode levar a doenças mentais (UOL, 01/03/2016)

Na falta de médicos, fisioterapeutas e fonos atendem bebês com microcefalia (UOL, 01/03/2016)
Ministério passa a ligar a famílias para monitorar assistência à microcefalia (Bem Estar, 29/02/2016)

Apenas quatro delas estão recebendo o benefício dado pelo governo (Benefício de Prestação Continuada, BPC). para ajudar na criação dos bebês que nasceram com a doença. Como a linha de corte do benefício é de R$ 220 per capita, muitas famílias que ganham um pouco mais do que isso estão fora. Para corrigir a distorção, o governo estuda criar uma pensão especial para contemplar as famílias.

É justo, ainda mais se for realmente comprovada a “culpa” do zika nos casos de microcefalia. Só relembrando: nenhum estudo até agora mostrou essa relação de causa e efeito.

Se essa relação for de fato estabelecida, no campo judicial, será fácil responsabilizar o Estado pelas falhas em controlar o mosquito transmissor da doença, o Aedes aegypti.

Aliás, esse também é o principal argumento da ação que chegará em breve ao STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo, entre outras coisas, a liberação do aborto nos casos de microcefalia. As mulheres não poderiam ser “penalizadas” pelas consequências de políticas públicas falhas. Assim, deveriam ter direito tanto ao aborto legal (se assim o desejarem) quanto a cuidados integrais, caso decidam manter as gravidezes.

Essas questões, porém, representam só a ponta do iceberg. A maioria das mulheres que tiveram bebês com microcefalia vivem em locais muito precários, sem saneamento básico e sem fornecimento regular de água.

No bairro dos Coelhos, na região central do Recife, por exemplo, o esgoto corre a céu aberto. Moradores cavam buracos e quebram canos para ter acesso a água. Ali e em tantos outros lugares parecidos neste país, o aedes têm moradia fixa. Nessa história toda, há apenas uma certeza: atrás dos bebês com microcefalia, reina a miséria absoluta.

Acesse o PDF: Por trás dos bebês microcéfalos, reina a miséria absoluta, por Cláudia Collucci (Folha de S. Paulo, 01/03/2016)

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