Em dezembro encontrei Vera, Maeve e Anna, por Yasmin Thayná

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O que todas nós tínhamos em comum: nos construímos socialmente como mulheres e trabalhamos num campo majoritariamente masculino e machista

(Nexo, 09/01/2017 – acesse no site de origem)

No mês passado, dezembro, teve a 5ª edição do Festival Curta Brasília, que rola todo ano na capital do país reunindo cineastas, produtores, produtoras, atrizes, atores e apaixonados por cinema de várias partes do Brasil. A possibilidade do encontro, de se apaixonar, de rir junto com gente que você nunca viu na vida, de ter os papos mais densos e cabeçudos da vida, de poder balançar o corpo até de manhã, de pensar num novo filme, de fechar parcerias, conhecer gente, ter contato com outras realidades, conhecer histórias novas, se emocionar, isso é um pouco das muitas possibilidades que um festival de cinema pode proporcionar para nós: um encontro e dois mergulhos.

O Curta Brasília não foi diferente: realizado e produzido por uma equipe de mulheres, elas destoavam de todo o imaginário coletivo asqueroso que conhecemos quando tocamos na pauta “mulher”, o conceito tradicional de “sexo frágil” tomou uma bela de uma voadora com essa mulherada que não deixou a desejar em momento algum, que mostrou uma curadoria de filmes fortes e debates provocantes.

Além de todas as pessoas maravilhosas que tive a oportunidade de conhecer, da produção do festival e a galera que levou filmes para as mostras, fiz parte de uma conversa sobre mulher, política e a sétima arte, com as gigantes Anna Muylaert, Ana Arruda, Maeve Jinkings e Vera Egito. Uma é a cineasta que teve maior destaque nos últimos anos com o seu “Que horas ela volta?”, Arruda é diretora do Curta Brasília e fez uma mediação com uma costura brilhante, Maeve, menina doce e apresentadora do Curta Brasília, das últimas que aprontou foi o aclamado filme “Aquarius”. Já Vera, além de ter esse nome majestosamente genial que eu também queria ter, “Egito”, chegou em 2016 com o seu longa-metragem “Amores Urbanos.

O que todas nós tínhamos em comum: nos construímos socialmente como mulheres e trabalhamos num campo majoritariamente masculino e machista. (Há controvérsias sobre masculino e machista serem sinônimos, mas vamos deixar essa discussão para outro dia).

Muylaert, que deu início à conversa, relatou sobre as tantas dificuldades de ser mulher nesse campo, inclusive de entender que certos desafios aparecem unicamente por você ser uma mulher. E ter que adquirir força “Yin-yang“ durante a vida, como ela mesma ressaltou, porque nem sempre se quer entender as coisas como “será que isso que está acontecendo é machismo?” Muitas das vezes procuramos refletir por outros caminhos fora das questões de gênero, mas nos deparamos, na maioria das vezes, com sim, é machismo.

FICA NÍTIDO O QUANTO, NO BRASIL, AINDA PRODUZIMOS NARRATIVAS DENTRO DE UM OLHAR MASCULINO E BRANCO, O QUE É O OPOSTO DA NOSSA REALIDADE POPULACIONAL

Inclusive quando estamos num espaço misto de debate sobre cinema e surge a questão de gênero ou qualquer outra que vá no sentido de discutir diferenças e os seus respectivos encontros (sim, as diferenças podem se encontrar, eba!), gerando, quase sempre, aquele incômodo: ué, vocês não iam falar de cinema?

E por que falar de gênero não é falar de cinema?

O cinema é um lugar para se discutir desde o pensar até finalizar um filme, uma série, ou qualquer outro material audiovisual. Não é um teatro de marionetes, como nos contou Maeve sobre seus questionamentos dentro dos sets de filmagem de que participou. “A atriz ou o ator não são marionetes, somos pessoas, seres pensantes e críticos. E é claro que nós temos de interferir quando a coisa não vai bem.” Nem sempre é tudo ou nada e é preciso ter a noção que questionar não é ser chata, feminista demais, radical ou qualquer coisa dessas. E sim construir junto, como deve ser todo e qualquer espaço de fazer cinema.

Para mim, a experiência do fazer cinema sempre foi coisa séria. Minha escola principal, além da vida, foi a Escola Livre de Cinema, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. E foi lá que entendi as nuances de criar imagem e seus efeitos. Quando estamos do outro lado do muro estudando tudo que narram sobre nós e os enquadramentos dados a certos personagens e situações, entendemos o que é estética e a importância de interferimos nessa história criando novas possibilidades. Então, para mim, cinema sempre foi coisa séria. Principalmente porque me trouxe uma dimensão cidadã importantíssima que é o pertencimento de se perceber enquanto um ser que pode, inclusive, narrar a si mesmo.

Se a gente for olhar alguns dados, vamos ver que a coisa fica ainda mais séria: o Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa), vinculado a Iesp-Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), fez uma pesquisa analisando o perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros de 2002 a 2012. De diretoras e roteiristas, não teve nenhuma mulher negra nessas funções. Tornando, assim, como a pesquisa mesmo afirma, “a cara do cinema nacional mostra que o Brasil das telas do cinema é um país predominantemente branco, apesar de negros serem mais de metade da população (50,7%)”.

Aqui, fica nítido o quanto, no Brasil, ainda produzimos narrativas dentro de um olhar masculino e branco, o que é o oposto da nossa realidade populacional.

Não acredito que existe apenas um “olhar feminino” no cinema. Entendo que há vários. A Vera Egito coloca no mundo histórias que podem ser diferentes das de Anna Muylaert, que aborda temas em seus filmes que eu posso fazer de outra maneira, assim como a Maeve percebe de outra forma. Somos todas mulheres, mas com lugares de fala e olhares diferentes sobre as coisas, que tem a ver com trajetória, crença de mundo etc.

Mesmo assim, o que Anna contou para nós pode ser um caminho de desconstrução que nos liga e nos coloca para pensar. Anna disse: “o que, talvez, diferencie no meu modo de fazer é que eu vou para o set fazer parcerias. E não para dar ordens.”

Acredito ser tarefa nossa lançar novas narrativas e estimular produções feitas pela nossa gente: negros, mulheres, indígenas, ciganos, gays, lésbicas, pessoas trans etc. Mora nessa diversidade de narrativas, olhares, vivência e novas histórias para contar, exatamente o que eu acredito ser a tão adorada e citada democracia. Um país maneiro precisa ter pluralidade em suas narrativas e seus narradores. Representatividade, palavra desses últimos anos, é isso: diversidade em quem está na frente e em quem está por trás.

Ainda que esse encontro tenha sido muito esclarecedor e imenso, ficou uma dimensão do cuidado que temos de ter ao pensar das feridas e o que deixamos passar por não sabermos agir em determinadas situações. Ficou dentro de mim o quanto nós nos sentimos culpadas por não ter todas as respostas e não saber agir em todos os momentos misóginos que enfrentamos no nosso dia a dia. É nessas horas que temos que parar e pensar no que os mais velhos deixaram de conforto sobre o tempo, esse orixá que passa, que voa, que é outro, que se transforma o tempo todo, como a terra. E aqui, não dá para deixar de lembrar da grande escritora brasileira Conceição Evaristo.

A dona Conceição uma vez contou que era uma aluna rebelde, dessas que os professores dizem: você não tem mais jeito e não chegará a lugar algum. Em um dia teve que enfrentar uma situação racista: uma professora a humilhou na frente de toda a classe dizendo que ela havia roubado um material escolar. No dia em que isso aconteceu, apesar de toda a sua rebeldia e língua afiada, Conceição não conseguiu reagir. Levou esse trauma durante muitos anos da sua vida, até virar uma doutora em literatura e uma das escritoras mais renomadas do país.

Disse que, dia desses, encontrou essa mesma professora em um espaço de debate acadêmico importante. A professora ficou espantada quando se deu conta de que aquela menina rebelde, acusada injustamente de um roubo e exposta publicamente na escola, era, hoje, uma mulher, negra e uma das principais referências literárias do país hoje.

Sem desmerecer a ninguém, de maneira doce, como sabe quem conhece pessoalmente Conceição Evaristo, ela disse: “às vezes a vida é como uma roda de capoeira. A ação da dança só começa quando você está forte o suficiente, gingando de um lado, gingando de outro. Assim, você adquire o impulso certo para dançar. E esse é o tempo que às vezes precisamos para as coisas acontecer”.

Gingar faz parte da dança e viver esse tempo dilatado é precioso. Pode ser que, neste momento, nós, mulheres, que acreditamos num mundo menos machista e racista, estejamos em estado de ginga. E logo mais esse chão vai tremer porque, assim como nossa mestra Conceição Evaristo, nós vamos dançar bonito!

Yasmin Thayná  é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter:@yasmin_thayna

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