20/10/2013 – Bolsa Família só dá autonomia a parcela das beneficiárias

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(Folha de S.Paulo) Interessado em estudar o impacto do Bolsa Família nas relações de poder entre homens e mulheres, o antropólogo norte-americano Gregory Duff Morton morou dois anos numa das regiões mais pobres do sertão da Bahia.

O objeto de pesquisa de seu doutorado na Universidade de Chicago (EUA) são as quase cem famílias com as quais conviveu num assentamento e num povoado na zona rural de Vitória da Conquista.

Leia também: Bolsa Família completa dez anos beneficiando 50 milhões de pessoas (Agência Brasil)

As fazer o recenseamento de cada residência, ele notou uma “surpreendente desigualdade” entre os inscritos no Bolsa Família. Essa diferença, descobriu, influencia as relações de poder. Fazendo entrevistas semanais, ele percebeu que a tão propagandeada autonomia das mulheres do Bolsa Família só ocorre nas famílias tidas como “mais prósperas” das comunidades.

Folha – Sua pesquisa fala em grande desigualdade entre os beneficiários. Ficou surpreso?
Gregory Duff Morton – Bastante. Principalmente com a diferença entre as desigualdades no assentamento e no povoado. No povoado, a desigualdade é mais aliviada, pois a maioria tem algum vínculo de parentesco. No assentamento, uma comunidade mais nova, ainda não há esse processo redistributivo. Mas quero destacar esse ponto: muitos acreditam que todos que recebem o Bolsa Família são iguais. Isso não é verdade, de jeito nenhum.

Como é a desigualdade?
As famílias mais pobres acabam gastando todo o dinheiro do Bolsa Família com as necessidades mais básicas da vida: alimentação, cadernos, roupa básica e, às vezes, calçado para as crianças. O dinheiro só dá para isso. Nas famílias que têm uma outra fonte de renda e uma certa prosperidade, o dinheiro cria formas de permanência.

O que é isso?
Uma mesa, um guarda-roupa, um tanque, um fogão. Agora, existe um instrumento que permite a criação dessa permanência: a prestação. Mesmo com o Bolsa Família, essas famílias prósperas não teriam como comprar nada de permanente sem o crédito.

E qual é o impacto no gênero?
É só nas famílias mais prósperas que o Bolsa Família fortalece a mulher. Nas mais pobres, não acontece.

Como assim?
Nas famílias mais prósperas, acontece uma divisão da renda. O dinheiro do Bolsa Família vai para a mulher; as plantações na roça ou o trabalho de diarista geram uma renda que vai para o homem. Nas famílias mais pobres, não importa a origem da renda, tudo é gasto com o básico.

A mulher só tem autonomia quando o dinheiro é dividido?
O que importa de fato não é a divisão do orçamento, mas a capacidade de gerar formas de permanência. É a mulher poder dizer “essa geladeira é minha”, “eu comprei essa geladeira”, “essas três cabeças de gado são minhas”. Isso vai impactar a sua capacidade de influenciar nas decisões do domicílio.

Numa família pobre, o que significa autonomia da mulher?
Autonomia, nesse contexto, nunca é independência. Não significa que ela vai viver só, tomar decisões sem consultar os demais. Autonomia é um discurso no qual a mulher pode se entender como origem de uma decisão. Quando você pergunta “como isso aconteceu?”, a mulher autônoma pode dizer: “Fui eu que decidi”, “eu que participei dessa decisão”, “eu que queria doar a vaca para o meu filho”, “eu que queria comprar a casa nova”. É um discurso de responsabilidade para decisões.

Acesse o PDF: Programa só dá autonomia a parcela das beneficiárias (Folha de S.Paulo – 20/10/2013)    

 

 

 

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