A estratégia de Malala para colocar 130 milhões de meninas na escola

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Em entrevista ao G1, CEO do Fundo Malala revela que a estratégia para educar meninas vai além de doações em dinheiro; nesta segunda, ativistas de sete países, incluindo duas brasileiras, se reúnem em Dubai para o primeiro encontro de treinamento da Rede Gulmakai.

(G1, 16/07/2018 – acesse no site de origem)

Nesta segunda-feira (16), dezenas de ativistas de sete países diferentes começam, em Dubai, um curso intensivo de cinco dias sobre negociações, advocacy e tecnologia. Eles vivem em sete países diferentes – duas delas, por exemplo, são brasileiras – e foram escolhidos porque batalham por uma única causa: a educação de meninas. Todos foram levados aos Emirados Árabes Unidos com tudo pago pelo Fundo Malala – é a primeira vez que todos eles, membros da Rede Gulmakai, se reunirão.

A organização foi criada pela jovem paquistanesa Malala Yousafzai para gerenciar os milhões de dólares arrecadados em doações de todo o mundo depois que, em 9 de outubro 2012, o Talibã tentou assassinar a menina a tiros porque ela insistia em ir à escola. O orçamento anual do fundo chega perto dos R$ 40 milhões.

Em suas entrevistas e discursos em público, Malala costuma falar baixo, usar frases curtas e levar as mãos à boca quando dá risada. Mas essa timidez convive lado a lado com a causa à qual ela decidiu dedicar sua vida após o atentado, que ela aceita como uma vocação: aproveitar sua influência internacional para angariar o máximo de apoio possível para ver, ainda em viva, todas as 130 milhões de meninas que ainda não têm acesso à educação.

“Malala quer dividir seu palco”, disse Farah Mohamed, CEO do Fundo Malala. “Ela acredita que pode abrir a porta para um ativista Gulmakai entrar e, quando ela sair, ele pode ficar lá.”

Em entrevista exclusiva ao G1 em Salvador, na semana passada, Farah explicou o plano de ação do fundo, que envolve:

  • Lutar pelo acesso das crianças aos 12 anos de educação básica e de qualidade
  • A arrecadação de recursos junto a pessoas físicas e grandes empresas
  • A busca de ativistas de educação que já tenham um histórico de trabalho, mas que ainda não receberam apoio adequado para avançar na causa
  • A oferta de apoio financeiro, treinamentos e contatos a esses ativistas
  • Ampliar a voz de meninas e mulheres mais vulneráveis, principalmente nas comunidades mais vulneráveis

A voz de Malala ressoou internacionalmente quando tinha apenas 15 anos e sobreviveu ao atentado. A ousadia dos jihadistas foi enfrentada pelo resto do mundo com uma mobilização em prol da recuperação da saúde da adolescente, e ofertas de dinheiro para ajudá-la em sua causa.

Por isso, em abril de 2013, já recuperada, vivendo no Reino Unido e de volta às salas de aula, ela e seu pai, o educador Ziauddin Yousafzai, anunciaram a criação de um fundo para ajudar “outras Malalas”. O que mudou, a partir dali, foi que Malala deixou de pensar em colocar todas as meninas paquistanesas na escola, e decidiu que lutaria pela educação de todas as meninas do mundo que ainda estão fora da sala de aula – segundo dados da Unesco, isso atualmente inclui 130 milhões de garotas.

Doações de várias fontes

O dinheiro é arrecadado tanto de pessoas físicas quanto de corporações e organizações sem fins lucrativos – o fundo recusa doações de governos. O fundo também faz campanhas pontuais, como a iniciada em 9 de julho em homenagem ao aniversário de 21 anos de Malala.

Em pouco mais de cinco anos, a paquistanesa já angariou o apoio de grandes empresas, se encontrou com presidentes, ajudou a negociar acordos de cooperação com agências da ONU e criou a rede de ativistas Gulmakai, batizada com o pseudônimo usado por Malala quando ela ainda era uma ativista anônima, e escrevia em um blog da BBC Urdu.

“Esse nome significa centáurea-azul (uma espécie de flor) na nossa língua, mas ele tem um significado maior para mim, que é levantar a voz, que é o ativismo”, explicou Malala, em entrevista exclusiva ao G1.

Já presente em seis países (Afeganistão, Líbano, Índia, Nigéria, Paquistão e Turquia), na semana passada a rede chegou oficialmente à América Latina, começando pelo Brasil, com o anúncio de que três mulheres da Bahia, de Pernambuco e de São Paulo receberão, nos próximos três anos, um total de quase 700 mil dólares (cerca de R$ 2,6 milhões).

“Para nós não é só sobre o dinheiro, e não é só sobre a Malala. É a rede”, afirma Farah. “Nós oferecemos a rede, oferecemos financiamento e oferecemos a plataforma. Eles vão aprender sobre negociações, advocacy, tecnologia… Essas são coisas que não estão incluídas naquele orçamento.”

Durante cinco dias, em Dubai, as mulheres e homens que integram a rede terão doze horas diárias de encontros, reuniões e oficinas onde apresentação seus países de origem e aprenderão estratégias para a evolução de seus trabalhos localmente, e como atuar em conjunto.

'Malala quer dividir seu palco', disse Farah Mohamed, CEO do Fundo Malala (Foto: Egi Santana/G1)

‘Malala quer dividir seu palco’, disse Farah Mohamed, CEO do Fundo Malala (Foto: Egi Santana/G1)

A marca da diversidade

De acordo com a CEO do fundo, a Rede Gulmakai é formada de indivíduos diversos. Farah diz que, em comum, eles compartilham a causa da educação.

“Mas fora isso cada um encontra o seu jeito, no seu país, de fazer a diferença. Alguns vão focar nos professores, outros vão focar na tecnologia, outros vão focar em mudar as leis. Essa é a beleza da Rede Gulmakai.”

Em alguns países, principalmente na África e no Oriente Médio, a luta pela educação de meninas anda lado a lado com o combate ao casamento infantil, um dos principais motivos que tiram garotas das salas de aula.

Já no Brasil, Malala aponta a desigualdade racial por trás da exclusão de meninas da escola. Por isso duas das três brasileiras selecionadas atuam na defesa da inclusão de mais meninas indígenas na escola, na demarcação de terras indígenas e no empoderamento de meninas afrobrasileiras – a terceira atua na área de pesquisa sobre políticas públicas de educação, com foco na igualdade de gênero e racial.

Requisitos para entrar na rede

Farah diz que a ideia de expandir a rede para a América Latina foi lançada pela própria Malala entre agosto e setembro do ano passado, quando os nove membros do conselho do Fundo Malala, incluindo seus fundadores, Malala e Ziauddin, se reuniu para traçar a estratégia para o ano seguinte.

“Ela começou a falar sobre a América Latina, então começamos a procurar com quem trabalhar aqui, tendo certeza de que havíamos encontrado as pessoas certas que tinham o plano certo, mas que só precisavam daquele investimento para fazer muito mais coisas”, explicou a CEO.

O passo seguinte foi entrar em contato com ativistas locais buscando pessoas que preenchessem os seguintes requisitos:

  • Acreditar que é possível melhorar a educação em seu país
  • Estar associado ou associada a uma organização
  • Ser indivíduos nos quais o fundo poderá investir para poderem investir em outras pessoas
  • Já ter um histórico de trabalho estabelecido
  • Não ter recebido necessariamente o apoio suficiente para alavancar esse trabalho

“Queríamos garantir que estávamos alcançando as meninas que são mais difíceis de alcançar, por isso temos essa ênfase nas meninas indígenas e afrobrasileiras.” – Farah Mohamed

A seleção durou vários meses e incluiu visitas e entrevistas in loco. As três mulheres selecionadas afirmaram ao G1 que, inicialmente, estavam sendo procuradas também para indicar outros nomes de organizações que atuam na área de educação.

Farah afirmou, ainda, que Malala havia decidido escolher pelo menos duas mulheres, mas que o número ideal seria três. Em maio, o conselho se reuniu novamente para votar nas candidatas finalistas do processo de seleção. “A escolha dessas três foi unânime.”

Ana Carolina Moreno

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