Laura Cardoso: ‘Sou feminista desde menina’

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Uma das maiores atrizes brasileiras critica a qualidade da televisão atual, fala de machismo e do caso José Mayer, acusado de assédio: ‘Foi infeliz’

(Veja, 06/06/2017 – acesse no site de origem)

Laura Cardoso, 89 anos, foi a primeira homenageada em 2017 pelo projeto Ocupação, do Itaú Cultural, em São Paulo, entre fevereiro e abril. Ao longo deste ano, o centro cultural vai apresentar uma sequência de mostras sobre importantes mulheres do cenário artístico do país. Em entrevista a VEJA, a atriz, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, se define como feminista “desde menina” e diz que, apesar dos avanços, a mulher ainda tem motivos para brigar. “O feminismo é uma luta que vale a pena e deve prosseguir. Já se conquistou muita coisa, mas acho que ainda falta dar mais crédito, respeito de verdade à mulher”, diz.

Laura também comenta o caso José Mayer, seu colega de TV Globo que foi acusado de assédio sexual pela figurinista Susllem Meneguzi Tonani. “Foi infeliz e estou do lado das colegas, ‘mexeu com uma, mexeu com todas’”, diz, citando o lema de uma campanha que funcionárias da emissora criaram para conscientizar sobre o assédio sexual após o episódio. “Apoio a iniciativa. Como não vou apoiar? Se eu estivesse no Rio de Janeiro (quando a campanha começou), estaria ao lado delas, com a camiseta, apesar de já estar velha e cansada para essas coisas.”

Com mais de setenta anos de carreira, a atriz tem no currículo mais de oitenta produções na TV, uma dezena de peças de teatro e mais de trinta filmes, além de programas no rádio, onde começou sua trajetória no mundo da arte, em 1942. Mesmo com tanta experiência, ela afirma que encontra erros em seu trabalho. “Sou muito autocrítica. Ainda erro muito, a gente nunca acaba de aprender.”

Desde 4 de maio, a homenageada pelo Itaú Cultural é a escritora mineira Conceição Evaristo. Ainda em 2017, haverá mostras de Aracy Amaral, Nise da Silveira e Inezita Barroso.

Confira a entrevista com Laura Cardoso:

Como vê o feminismo? É a luta da mulher pela sua liberdade, pela sua vida, pelo que ela quer, sonha. O feminismo é uma luta que tem que ser apoiada, registrada. Já foi muito ruim para a mulher, ela era posta de lado em todos os sentidos. O feminismo é uma luta que vale a pena e deve prosseguir. Já se conquistou muita coisa, mas acho que ainda falta dar mais crédito, respeito de verdade à mulher.

A senhora acompanhou a segunda onda feminista, nos anos 1960? Como via o movimento naquela época? Sempre acompanhei a luta da mulher, desde menina. De modo geral, as mulheres da classe artística sempre viveram essa luta, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. A gente lutou e brigou porque queria esses direitos que a mulher deveria ter e que lhes foram negados durante muito tempo. O feminismo é necessário. O que está acontecendo no Brasil, essa sujeira, esse massacre sobre o povo, quantas mulheres tem nesse movimento, fazendo mal a esse país? A maioria é homem. Acho que isso é um resultado da premissa de que homem sabe mais e fala mais. Não é isso. Acho que eles erram mais do que as mulheres.

A senhora se considera feminista? Eu me considero desde menina. Antigamente, a mulher era aquela que cuidava da casa e dos filhos, mesmo que trabalhasse fora. Hoje em dia, ela tem um companheiro que vai passar uma roupa, trocar uma criança, dar a mamadeira para o filho. Que é justamente como deve ser. Antigamente, imagina se o homem ia varrer a casa, arrumar o quarto. Não, porque senão ele não era considerado macho, homem. Hoje ele ajuda a companheira, que trabalha dentro de casa e fora dela.

Acha que o meio artístico é mais machista do que outros? Não que eu esteja defendendo o meu meio, mas ele não é mais machista. Estou nessa carreira desde os 15, 16 anos e nunca senti esse machismo. Talvez tenha havido no passado, mas hoje há muito menos. Sempre teve essa coisa de o homem ganhar mais do que a mulher no trabalho. Hoje não há tanto isso. Também, isso não tinha cabimento, às vezes as atrizes eram muito melhores do que os homens. Mas isso não é só no meio artístico, em todo lugar acontece. Sempre o homem sentado na mesa de chefe e a mulher tinha que ficar de lado. No meio artístico, as pessoas são mais abertas, elas leem mais, há um respeito. Mas não é uma santidade, tem seus altos e baixos, seus tropeços.

A senhora já contou que a profissão de atriz era mal vista quando começou a trabalhar. Como era isso? Exatamente. A mulher sofria mais preconceito do que o homem por causa da profissão. Ela era considerada uma pessoa que não era do bem. As pessoas te viam como uma prostituta. Na verdade, não gosto de falar de prostituta assim, como se eu estivesse falando mal delas – todas são mulheres maravilhosas que trabalham. Se alguma vira prostituta, é porque teve suas razões. Nas festas, as pessoas não se juntavam aos artistas. A gente ficava separado, num canto. De uns anos para cá, isso foi botado de lado, esse preconceito de que ator é vagabundo e atriz é vadia. Agora está muito diferente, você é recebida com todas as honras.

Como sua família viu sua escolha de virar atriz? As famílias, naquela época, eram meio repressivas com essa história de arte, diziam que não iam deixar suas filhas seguirem essa carreira porque senão elas iriam virar prostitutas. Meu pai era a favor e a minha contra. Eu era a favor de mim mesma, do que eu queria (risos). Minha mãe não gostava, dizia para eu fazer outras coisas. É interessante que quando você quer de verdade, você vai. Mas você precisa enfrentar o preconceito, o afastamento, as caras feias, as bobagens que dizem para você. Hoje em dia as coisas estão diferentes. No meu tempo, a gente queria representar. Hoje, se você tem um olho azul, um sorriso bonito, uma pele e o corpo, está feito. Antes precisava ter o talento, a vocação. Tem muitos atores que não precisavam estar aí, muitos. Estão porque a carreira tem glamour, eles pensam no carro, na piscina, no tapete branco, na moto. Nunca pensei em piscina. Quando era menina eu nem sabia o que era piscina, era pobre. Já vi ator que não sabe ler direito, uma condição sine qua non para a profissão.

A senhora já sofreu assédio? Toda mulher já sofreu, é bobagem dizer que não. É horrível, não devia acontecer. Não me lembro de nenhuma situação, mas claro que fui. A mulher é assediada em todo lugar, pelo médico, pelo professor. Você passa na rua e vão mexer com você, vão falar do seu cabelo, das suas pernas. Com a luta da mulher, talvez tenha diminuído, mas ela continua sofrendo assédio. Vai ter sempre um homem burro querendo assediar uma mulher grosseiramente. A mulher gosta de ser elogiada, mas sem grosseria. Não sei como fazer para acabar com isso. Leva muito tempo, esse assunto precisa ser tratado nas escolas e a família, principalmente, tem que falar.

Já viu alguma colega sofrer assédio? Não me lembro. É difícil, porque, de verdade, dentro de um estúdio de TV, há muito trabalho para ser feito, cada um está no seu pedaço pensando no texto, no gestual, ouvindo o que o diretor diz. Mas lógico que acontece. Também é importante dizer que tem que se denunciar. A denúncia tem que ser feita, senão você estará encobrindo um lixo. Assédio é sujo. Gosto quando uma mulher luta por um homem, um homem luta por uma mulher, é bonito sentir atração por alguém e essa pessoa sentir atração por você. Assédio sexual, porém, não está com nada.

E o teste do sofá, acontece com frequência? (Risos) Não, isso é um pouco lenda. Talvez tenha acontecido, mas nunca vi. Também nunca fui convidada e nunca precisei fazer isso.

O que achou do caso José Mayer? É amiga dele? A gente é colega. Foi infeliz. Eu nunca vi nada e ele nunca me faltou com o respeito. Mas achei que foi infeliz e estou do lado das colegas, “mexeu com uma, mexeu com todas”. E ponto final.

Participou de alguma das discussões com as outras atrizes sobre o assunto? Não acompanhei as discussões porque estou em São Paulo e elas estavam no Rio de Janeiro, então vi pelos jornais. Apoio a iniciativa. Como não vou apoiar? Se eu estivesse lá, estaria ao lado delas, com a camiseta, apesar de já estar velha e cansada para essas coisas.

Na carta aberta em que ele pediu desculpas à figurinista que assediou, apontou a questão geracional como a causa para seu comportamento. Concorda que pessoas mais velhas têm uma percepção diferente sobre o que seria assédio ou não? Não, foi uma desculpa ingênua. Achei uma desculpa meio esfarrapada, sem consistência.

Em fevereiro, alguns boatos que se espalharam pela internet afirmavam que a senhora tinha morrido. Ficou irritada com isso? Não, porque acho isso bobo, burro. É comentário de quem não tem o que fazer. Vi essas notícias, mas não dou a mínima. As pessoas da minha família se preocuparam, eu estava no Rio e eles em São Paulo, mas logo nós nos falamos por telefone e todo mundo se acalmou.

Como é sua relação com as redes sociais e a internet? Não entendo nada. Como chama isso? Isso aqui. (Celular). Sei falar “alô” e “tchau”. Tenho celular, mas às vezes até esqueço o número. Admiro a tecnologia, o avanço da ciência em todos os sentidos, principalmente na medicina. Mas de eletrônica não sei nada. E também não quero aprender. Estou muito velha para isso.

A senhora continua trabalhando bastante, mas pode ser considerada uma exceção na TV – poucos são os atores mais velhos que continuam ativos. Por que isso acontece? Há preconceito de idade no meio? É ruim e triste, porque tem muita gente que já está aposentada e tem muito valor. Tenho sorte nesse sentido, junto com Fernanda (Montenegro), Nicette (Bruno), Nathalia (Timberg). Queria que tivesse mais oportunidade para todos – se a pessoa está produzindo, bem de saúde, merece trabalhar. Não acho que seja preconceito, mas talvez um esquecimento.

A senhora assiste à televisão? Não estou vendo muito. Estou achando que a televisão não está em um bom momento no quesito qualidade. Isso em todas as emissoras. A TV merecia uma reviravolta de qualidade. Vejo mais documentários, filmes, jornais.

A senhora assiste às novelas que faz? Eu gosto para ver os meus erros, sou muito autocrítica. Ainda erro muito, a gente nunca acaba de aprender.

Que atores da nova geração a senhora acha que têm futuro na dramaturgia brasileira? Cleo Pires, Paolla Oliveira, Ingrid Guimarães.

Pensa em parar de trabalhar? Só morrendo. Eu amo trabalhar.

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