Como a representatividade no Oscar avançou em 2017. E como ela ainda precisa melhorar

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Mais mulheres negras do que nunca foram indicadas a melhor atriz coadjuvante. Mas nem tudo é perfeito nesse #OscarsSoBlack

(Nexo, 24/01/2017 – acesse no site de origem)

Em 2017, pela primeira vez, uma única categoria do Oscar dedicada ao trabalho de atores, a de Melhor Atriz Coadjuvante, conta com três pessoas negras entre cinco indicações. É a 89ª edição da premiação. As atrizes Viola Davis, por sua performance em “Cercas”, Naomie Harris por “Moonlight: Sob a Luz do Luar” e Octavia Spencer por “Estrelas Além do Tempo”.

A lista completa de indicações, divulgada nessa terça, pode ser vista aqui.

Nos últimos dois anos, nenhum negro foi indicado a nenhum dos prêmios nas categorias de atuação (Melhor atriz/ator; Melhor atriz/ator coadjuvante). A “brancura” dessas últimas edições foi criticada e originou, em 2016, a hashtag #OscarsSoWhite, um questionamento sobre a ausência de negros na premiação.

Um esforço consciente de mudança

Uma análise publicada no “The New York Times” em 2016 mostrou que a falta de diversidade está relacionada à composição majoritariamente branca da Academia americana de cinema – são eles quem escolhem as indicações e os vencedores. Entre mais de 5 mil membros, representantes dos vários segmentos da atividade cinematográfica, apenas 2% eram negros.

Em uma amostra menor da (falta de) diversidade dentro da Academia, o comitê executivo – o mesmo em 2016 e 2017 – tem apenas três pessoas negras entre 19 membros.

Neste ano, depois de muitas manchetes negativas sobre a falta de representatividade, fica evidente  um esforço de mudança. Antes do anúncio dos indicados, já se falava que, em 2017, os Academy Awards buscariam não repetir a ausência  de artistas negros de anos anteriores.

Durante 2016, segundo a “NBC”, foram feitas mudanças tanto cosméticas quanto sistemáticas para que as indicações fossem mais diversas racialmente. Além disso, projetos como “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, com um elenco predominantemente negro e vencedor do Globo de Ouro de melhor filme na categoria drama, ajudaram a compor esse cenário. Em 2016, ano que “Moonlight” terminou de ser produzido, a associação de críticos de cinema afro-americanos (AAFCA) chegou a declarar que era o melhor ano da história para os negros do cinema.

“Estrelas Além do Tempo”, “Loving” e “Cercas”, todos contemplados com indicações em alguma categoria, também lidam diretamente com a temática racial.

Mas questão de se indústria cinematográfica realmente está mais sensível e coerente em relação à diversidade continua aberta.

Onde falta avançar

A ‘brancura’ do favorito

O grande favorito da premiação, a julgar pelo número de categorias a que foi indicado, é “La La Land: Cantando Estações”, de Damien Chazelle.  Já vencedor de 7 Globos de Ouro, o filme foi nomeado em 14 categorias do prêmio. Esse recorde de indicações só havia sido atingido há 20 anos, por “Titanic” (1997).

Apesar da aclamação da crítica e da Academia americana, “La La Land” tem sofrido críticas relativas ao protagonismo branco de uma história que tem o jazz, gênero musical  cuja origem se deu como uma manifestação cultural da população negra, como elemento definidor da trajetória do protagonista Sebastian, interpretado por Ryan Gosling.

Sebastian ama o jazz e sente que o estilo musical está morrendo. Para preservá-lo, quer abrir um clube de jazz à moda antiga. Ira Madison, que escreve sobre cultura para o site “MTV News” aponta que o problema com essa narrativa é o destino da herança cultural de uma minoria depender unicamente da boa vontade de um salvador branco. Para ele, por uma questão histórica, faria mais sentido se esse artista tão comprometido em preservar as raízes do jazz fosse negro.

Há pessoas negras em “La La Land”. Mas o lugar que elas ocupam no roteiro, para muitos, ainda não é satisfatório. Vários  são papéis menores, sem falas – o mais importante é interpretado pelo músico John Legend. Ainda assim, os protagonistas são brancos.

Mulheres na direção

As mulheres negras que atuam na frente das câmeras foram destaque das indicações. Mas a representatividade feminina atrás delas permanece sem o reconhecimento do Oscar: nenhuma mulher concorre na categoria de melhor diretor nesta 89ª edição. É o sétimo ano consecutivo que isso acontece.

Segundo o site especializado “The Hollywood Reporter”, desde a primeira premiação, em 1929, somente quatro diretoras foram indicadas nesta categoria. Kathryn Bigelow é a única mulher no mundo com um Oscar por melhor direção no currículo, pelo filme “Guerra ao Terror”, em 2010.

Há, no entanto uma diretora indicada ao Oscar deste ano: Ava DuVernay, pela produção Original Netflix “A 13ª Emenda“, concorre na categoria de Melhor Documentário.

“O problema de representatividade em Hollywood é imenso e interseccional — precisamos de mais mulheres, mais imigrantes, mais pessoas de todas as cores, capacidades físicas, identidades sexuais, classes e experiências contando suas histórias. Para chegar um pouco mais perto de refletir a diversidade da audiência a que serve, a indústria do entretenimento precisa incluir mais artistas de todas as origens, além dos talentos negros que concorrem na competição deste ano”
Naveen Kumar, crítico e editor
Em um artigo para o site “Refinery 29”

Juliana Domingos de Lima 

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