Na vitrine, um pedaço de carne

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(Observatório da Imprensa, 22/04/2014) “Ele não aceita o não”, diz o título. Fora de si, Laerte (Gabriel Braga Nunes) vai até o galpão, onde encontra Luíza (Bruna Marquezine). Não se segura e a beija a força, ela diz que ele está louco e tenta ir embora, mas o galã não desiste e a puxa pelo braço. Na sequência, rasga sua roupa e a obriga a fazer sexo à força. Luiza tenta fugir, mas acaba cedendo e aproveitando o momento.

A cena descrita, antecipada por um desses periódicos de novela, não foi ao ar. Entretanto, há quase 50 anos presente nas salas da família brasileira, não faltam no portfólio das novelas globais cenas que, como esta, romantizam expressões machistas de territorialismo e/ou estupro. São beijos e/ou amassos forçados seguidos da trilha sonora romântica do casal e a expressão, agora serena, da moça que cedeu aos encantos.

Diminuem a mulher a um objeto. Um objeto dependente e submisso ao homem, consumível por natureza, sexual e à disposição para qualquer tipo de assédio. Seres sem expressão significante que podem ser agarradas a força contanto que ao fundo toque uma música romântica. Elas gostam. Nesta mesma trama, Em Família, o sexo forçado não é uma novidade. A romantização do ato também não. Logo no inicio, a personagem Neidinha (Jéssica Barbosa) sofre um estupro coletivo e engravida. Cena forte, porém surreal. Na ocasião, a personagem decide ter a criança, que é criada feliz tendo aulas de violino em um lar equilibrado, e segue a vida. Desfecho irresponsável, que não reporta às mulheres com honestidade nem seus direitos, tampouco a realidade das consequências.

Globeleza

A legitimação de atos invasivos à figura feminina pela emissora que alcança a maior parte dos telespectadores brasileiros é algo, de fato, preocupante. Isto porque as novelas exercem um poder imensurável e muitas pessoas pautam seu comportamento pelo que assistem na TV.

Contudo, não é de hoje, nem apenas nas novelas, que as telas do plim-plim têm vendido o Brasil como um paraíso sexual. Desde o carnaval de 1992 é exibida pela emissora a mulata seminua e sorridente que, com a câmera explorando todas as suas curvas, não se cansa de sambar, quase que numa bandeja, convidativamente. A globeleza, símbolo nacional que a Globo lançou, se tornou um belo cartão de convite do país que já é conhecido mundialmente pelo alto índice de prostituição. Afinal, nunca é demais fomentar estereótipos.

Na vitrine da telinha mais assistida do país, a mulher ainda é equiparada a um pedacinho de carne. Suculento e sem expressão, faz salivar a boca de quem quer degustar, consumir, esbanjar e, depois de satisfeito, seguir a vida. Nada mais natural. Afinal, tá ali pra ser comido mesmo. Romântico, né?

Giselly Abdala é jornalista, Engenheiro Coelho, SP

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