Mulher e Mídia 6 – Convergência digital: uma nova arma na luta pela igualdade de gênero

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Convergência digital: uma nova arma na luta pela igualdade de gênero
por Bia Barbosa


Mulheres afirmam importância da apropriação tecnológica para combater o machismo e as opressões. Olhar feminista sobre a regulação da internet é um dos maiores desafios.

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9h45 – Mesa 1 – Mulher, mídia e convergência das comunicações
Marília Maciel – pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS/FGV)
Carla Rodrigues – jornalista
Oona de Castro – jornalista e coordenadora do Instituto Over Mundo
Debatedor: João Brandt – radialista, pesquisador e integrante do Intervozes
Coordenação: Isabel Clavelin – jornalista, assessora de comunicação Unifem

Antigamente, cada aparelho de comunicação tinha uma função separada. Rádio, televisão, telefone eram veículos que funcionavam via transmissão de informações por ondas. Com o avanço tecnológico, chega a tão falada convergência digital. É possível agora ouvir rádio pelo telefone, assistir à televisão ou fazer ligações “telefônicas” pelo computador e até acessar a internet pela TV e pelo celular.

Essa convergência de aparelhos representa uma verdadeira quebra de paradigmas na comunicação. Hoje, por exemplo, a rádio comunitária – que tanto luta para ter ampliado o alcance de seu sinal – pode transmitir sem limites para todo o mundo pela internet.

E os benefícios da convergência chegam de forma rápida a um número cada vez maior de pessoas. No final de 2008, serão 4 bilhões de aparelhos celulares em todo o mundo, sendo que 700 milhões de pessoas terão mais de um celular. Em 2020, segundo pesquisa do Internet Pew & American Life Project sobre o futuro da internet, os dispositivos móveis (os celulares) serão o principal meio de acesso à rede.

O Brasil, no entanto, ainda enfrenta desafios para garantir o acesso da sua população às novas tecnologias. Apenas 25% dos brasileiros e brasileiras têm acesso freqüente à internet, sendo que muitos ainda não acessam via banda larga. O principal problema é o preço do serviço.

“Os custos de interconexão nos países em desenvolvimento são caríssimos. E nesses países a desigualdade entre homens e mulheres é ainda maior. Se as mulheres recebem menos pelo trabalho que realizam, este custo está inviabilizando o acesso das mulheres à internet”, explica Marília Maciel, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas.

“Por outro lado, na maior parte das redes sociais na internet, a maioria dos cadastrados é de mulheres. Este é um dado relevante, mas o que significa ser maioria? Significa que podemos avançar na organização das mulheres neste ambiente de internet e usar essas redes para o ativismo e mobilização do nosso segmento”, completa a jornalista Oona de Castro, coordenadora do Instituto Overmundo.

“Hoje, o discurso único é muito mais difícil de se impor do que 15 anos atrás. Milton Santos já dizia que a revanche virá no momento em que todos e todas nós nos apropriarmos da tecnologia. E essa apropriação não pode ser moldada pela maneira que o mercado impõe”, acredita.

Para a jornalista Carla Rodrigues, a tecnologia cria uma série de exigências, como a perspectiva de que o estar conectado é uma condição permanente, de existência. “Não existe mais distinção entre vida online e vida offline. Por outro lado, pretender estar do lado de fora deste mundo, como se existisse lado de fora, é perder as possibilidades de intervenção e de fazer política neste espaço”, diz.

Apropriação da tecnologia
Garantir a apropriação das mulheres das novas tecnologias de comunicação e informação é um dos desafios do movimento. Hoje, o debate sobre a convergência ainda é dominado pelos engenheiros de telecomunicações – homens, em sua grande maioria. Mas, na avaliação das participantes do seminário A Mulher e a Mídia 6, se apropriar da tecnologia significa ir além do acesso à internet.

“Mais importante é se apropriar do fazer comunicacional neste ambiente de convergência. Ainda que seja importante monitorar a representação da mulher na mídia, mais importante ainda é garantir a participação da mulher na mídia. Nós não estamos sendo só representadas, mas estamos nos representando. Neste cenário, a postura do telespectador passivo é outra. Então vamos fazer mídia e vamos para o ativismo na mídia”, convida Oona de Castro.

Para um dos coordenadores do Intervozes, João Brant, é preciso tratar a questão do acesso e participação das mulheres no cenário da convergência digital a partir da perspectiva do direito à comunicação. “Não estamos olhando para a convergência nos termos tecnológicos ou mercadológicos, mas para fortalecer a liberdade de expressão, um conceito que precisa ser reapropriado por nós. Falamos da convergência como espaço de potencialidades, mas às vezes esse potencial não se realiza. Há muita gente querendo que essa semente não se transforme em árvore”, avalia.

Afinal, o cenário da convergência está colocado num contexto social e político de relações de poder e opressão. Essas relações tendem a se reproduzir no ambiente convergente. “Hoje temos uma diferença gritante entre centro e periferia mundial, entre centro e periferia no Brasil, entre homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros. Esses binômios seguem sendo refletidos e reproduzidos no ambiente convergente, que pode talvez criar um abismo ainda maior entre os que têm e os que não têm”, acrescenta João Brant.

Daí a importância de lutar por políticas públicas de acesso e apropriação das novas tecnologias de informação e comunicação pelas mulheres. “Durante muito tempo, política de inclusão digital era oferecer computador e internet. Hoje as pessoas precisam receber formação para viver e navegar neste mundo”, afirma Marília Maciel.
Desenvolvimento e regulação da internet
Outro desafio para as mulheres é também participar dos processos de desenvolvimento tecnológico e também de definição da regulação do funcionamento da internet. Quem constrói softwares que fazem a internet funcionar, controla a internet.

“A tecnologia não é desenvolvida por pessoas isoladas da sociedade. Ela é resultado do desenvolvimento da nossa cultura e da nossa sociedade. Tecnologia, política, sociedade e cultura andam muito juntos”, explica Marília. “A questão de gênero é muito debatida no aspecto do conteúdo. Mas ainda não está presente no debate sobre o desenvolvimento da internet, da infra-estrutura física e lógica da rede. Se formos nos preocupar com isso lá na frente, vamos encontrar tudo pronto e regulado. Por isso, ou entramos agora neste debate ou vão decidir tudo por nós”, alerta a pesquisadora.
Isso pressupõe fazer escolhas e participar dos processos de decisão das políticas de regulação da internet, para fazer com que elas atendam aos interesses das mulheres.

O futuro
Olhando para o futuro, a conclusão do debate é a de que os desafios são muitos e parecem prioritários de serem assumidos pelo movimento na luta pela igualdade de gênero em nosso país. O apoio das mulheres à aprovação do Plano Nacional da Banda Larga, em debate no governo federal, se mostra central, para viabilizar o acesso da população brasileira à internet. “O marco regulatório do Brasil é muito dependente das relações de mercado, que vai onde o dinheiro interessa. É preciso uma ação do Estado para garantir que a banda larga chegue aos usuários”, diz João Brant.

“Também temos que produzir websites que sejam acessíveis pelo celular, usar o SMS para manifestações políticas, produzir conteúdo convergente que possa ser ´viralizado´, para contaminar a sociedade com as nossas idéias, e estarmos preparadas para trabalhar com a lógica da instantaneidade”, acrescenta Carla Rodrigues.

Por fim, é preciso um olhar feminista sobre a regulação da internet, os direitos e deveres dos cidadãos e cidadãs. “São temas que dizem respeito à nossa vida cotidiana: privacidade, liberdade de expressão, direito de acesso, etc. Tudo isso cabe um olhar de gênero e é preciso que a gente contribua”, reforça Marília. A discussão sobre o marco civil da internet está aberta até meados de dezembro e as contribuições serão sistematizadas para a redação de um Projeto de Lei. Para saber mais, visite a página: www.cultura digital.br/marcocivil

“A internet surge baseada na horizontalidade, no desenvolvimento colaborativo de conhecimento e na cultura do compartilhamento. Temos a idéia de que a mulher é mais ligada a relações horizontais entre si, as mulheres são vistas como pólo doador de qualquer relação e são mais compartilhadoras de informação. Ou seja, há um paralelo interessante a ser feito aqui”, concluiu Marília. Ou seja, este é um debate que tem tudo a ver conosco.

Seminário Nacional A Mulher e a Mídia 6
Rio de Janeiro, 6 a 8 de novembro de 2009
Realização:

Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM)
Instituto Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia
Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher (Unifem)
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)

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