Pesquisa revela disparidade entre falas de homens e mulheres em Hollywood

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(O Globo, 08/04/2016) Estudo analisou mais de dois mil roteiros e produziu estatísticas surpreendentes

Um site decidiu transformar a discussão sobre sexismo em Hollywood em dados concretos. Matt Daniels e Hanah Anderson, do Polygraph.com, debruçaram-se sobre mais de dois mil roteiros e analisaram a quantidade de diálogos atribuídos a atores e atrizes. O resultado ilustra com clareza a presença superior de vozes masculinas no cinema.

Ao todo, 1195 filmes têm entre 60% e 90% dos diálogos pronunciados por homens. Por mulheres, 166. Acima da faixa de 90%, a disparidade fica ainda mais dramática — são 306 filmes em que a maioria das falas é dita por atores, contra apenas oito títulos em que as atrizes se destacam.

— As pessoas andavam falando sobre gênero no cinema sem nenhuma estatística em mãos, então nós simplesmente fomos atrás disso — explica Daniels, em entrevista ao GLOBO, por e-mail. — Foi surpreendente descobrir que ninguém havia feito algo semelhante. Todo mundo fala sobre representatividade em filmes, mas sempre se apoiando mais em anedotas do que em dados concretos.

Os autores reconhecem, no entanto, que o estudo não é perfeito. A maioria dos diálogos de “Mulan” (1998), por exemplo, é dublada por homens — o que não significa que a trama não gire em torno de uma personagem feminina. O único critério usado foi a presença de diálogos escritos nos textos.

Em 306 filmes, a maioria das falas é dita por atores, contra apenas oito títulos em que atrizes predominam (Foto: Reprodução)

E, mesmo assim, muitas vezes o que está no roteiro não é o que aparece nas telas. É comum os cineastas modificarem a trama e cenas serem cortadas ou acrescentadas. Dito isto, Daniels e Hanah acreditam que, mesmo que casos específicos apresentem erros, os resultados continuam sendo relevantes. Na seção que se aprofunda nos desenhos da Pixar e Disney, a informação de que mais da metade dos diálogos de “Frozen: Uma aventura congelante” (2013) é dublada por homens pode soar surpreendente, já que a produção se concentra em duas princesas.

— Honestamente, passei mais tempo visualizando os dados do que analisando-os. O objetivo do projeto foi coletar e disponibilizar informações para que as pessoas possam tirar suas próprias conclusões — ressalta Daniels, acrescentando que a seleção dos roteiros não seguiu um critério específico. — Usamos o que achamos (na internet). Infelizmente, a amostra pode ser um pouco distorcida.

De qualquer forma, os longas-metragens encontrados têm estilos diversos e foram separados por gêneros como ação, drama, comédia e terror. “Em 22% dos filmes analisados, as atrizes tiveram a maior quantidade de diálogos”, afirma o texto do Polygraph.com. “Normalmente, as mulheres vêm em segundo lugar (34% dos filmes). A estatística mais abismal é quando as mulheres ocupam pelo menos dois três papéis principais, o que ocorre em 18% dos filmes. Para os homens, o mesmo cenário corresponde a 82%.”

Segundo o gráfico apresentado pela pesquisa (em inglês), 70 filmes têm 100% dos diálogos pronunciados por homens. Entre eles, estão “Mestre dos mares: O lado mais distante do mundo” (2003), “Guerra ao terror” (2008) — dirigido por Kathryn Bigelow —, “A lista de Schindler” (1993) e “O regresso” (2014). No outro lado da moeda, apenas dois longas tiveram falas totalmente ditas por mulheres: o terror “Abismo do medo” (2005) e a comédia “Agora e sempre” (1995). É preciso ressaltar que, para serem considerado pelos pesquisadores, os personagens, independentemente do sexo, deveriam pronunciar pelo menos 100 palavras.

A pesquisa também colocou a idade dos atores na equação. Nesse caso, “o número de diálogos entre homens e mulheres é completamente oposto”, escrevem os autores. “Diálogos disponíveis para mulheres com mais de 40 anos caem substancialmente. Para os homens, é exatamente o contrário: há mais papéis disponíveis para atores mais velhos.”

Acesse o PDF: Pesquisa revela disparidade entre falas de homens e mulheres em Hollywood (O Globo, 08/04/2016)

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