Mulheres de diferentes idades coprotagonizam evolução nos costumes dos Yawanawá

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(O Globo, 19/10/2014) “Foi uma nova era para as mulheres, como se elas tivessem finalmente levantado a cabeça depois de séculos. Saíram de debaixo do fogão a lenha”. A frase de Julia Yawanawá, de 33 anos, casada e mãe de oito filhos, descreve o resultado provocado pela vontade individual de Rucharlo Yawanawá de se tornar uma pajé. Ao obter um título e um reconhecimento que antes eram restritos aos homens, Rucharlo foi capaz de equiparar a posição feminina à masculina. E abriu caminho para que Mariazinha se tornasse a primeira cacique de uma das oito tribos Yawanawá, antes de começar seu processo para também virar pajé. Sem jamais ter lido nenhuma das obras das feministas europeias da década de 1960, que tanto influenciaram as sociedades ocidentais, Rucharlo iniciou uma revolução de gênero.

Leia mais: Índia Yawanawá vence preconceito e faz revolução feminina na floresta (O Globo, 19/10/2014)

Historicamente, às mulheres sempre couberam os cuidados com as crianças, a casa e o trabalho pesado na roça. Aos homens, a organização política, a caça, a pesca, as artes da guerra, da medicina tradicional e da religião e a defesa da tribo. Das mulheres também sempre se esperou obediência aos homens.

— Quando éramos crianças, na época do meu avô, os maridos podiam até mesmo matar suas mulheres sem nenhuma punição. Elas eram como animais para eles. Quando iniciei reclusão para ser pajé, fui querendo quebrar esse tabu. Via o quanto as mulheres apanhavam. Quando saísse de lá, prometi a mim mesma que nunca mais ia querer ver um homem bater numa mulher — afirma a pajé, ela mesma vítima de violência doméstica em várias ocasiões.

CACIQUE AINDA COME PRIMEIRO

As índias contam entre risos alguns episódios em que Rucharlo interveio em brigas de casais.

— Uma vez meu marido estava me puxando pelos cabelos, e ela apareceu com um pedaço de pau e o ameaçou. Ele teve que me soltar. Nos últimos anos, os homens entenderam que não poderiam mais bater nas mulheres — conta Júlia, que, mesmo tendo uma caçula de apenas 2 anos entre seus filhos, quer cursar o mestrado na Universidade Federal do Acre, com o apoio do marido.

Apesar dessa emancipação feminina recente, vários aspectos do modo de vida antigo seguem intocados. Enquanto descreve com orgulho o empenho de uma de suas filhas para se formar em medicina em uma universidade de Cuba, o cacique Biracy Yawanawá toma café da manhã. À mesa, há apenas uma mulher entre dez presentes: a repórter. As mulheres se apressam em servi-lo com esmero e fartura. Comerão depois que os homens terminarem, junto das crianças. Otra das filhas do cacique, de apenas 14 anos, embala a filha de dois meses nos braços, próxima à mesa. O assunto é delicado. O cacique preferia que a filha tivesse se dedicado a estudar em vez de formar família prematuramente. Mas, diante da gravidez inesperada, aceitou que ela casasse com um primo, 16 anos mais velho. Apesar da diferença de idade, esse tipo de união costuma ser aceita pelos indígenas. Outra particularidade dos Yawanawá é que o cacique pode ter quantas mulheres quiser. Biracy chegou a ter cinco, habitando a mesma casa. Com elas, teve 32 filhos.

Um aspecto tradicional da vida das mulheres está prestes a desaparecer. Há dois anos nasceu a última criança na aldeia, de parto natural. Desde então, todas as crianças foram paridas em hospitais, muitas por meio de cesarianas. As parteiras da tribo estão ficando velhas e dizem que nenhuma mulher jovem quis aprender como realizar um de acordo com a medicina tradicional.

— Elas todas dizem ter medo de fazer o parto, não aguentam nem olhar. E também não querem ter os filhos aqui. Temem sofrer demais, como eu, que passei nove dias em trabalho de parto até que minha filha nascesse — conta Juliana Yawanawá, de 60 anos, que diz ter auxiliado no nascimento de mais de 50 bebês na tribo.

Alguns homens indígenas que hoje trabalham como agentes de saúde na aldeia até mostraram interesse em aprender as técnicas tradicionais, mas o esforço foi em vão: as indígenas só aceitam ser tocadas por parteiras. Se as mulheres conseguiram quebrar o tabu e descobrir os segredos dos pajés, os homens não conseguiram fazer o caminho inverso e conhecer os segredos delas.

Mariana Sanches

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