‘Não é o fim da história’, diz filósofa sobre ensino de gênero nas escolas

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(G1, 10/09/2015) Judith Butler, pensadora da teoria queer, deu palestra em SP nesta quarta. Em entrevista, ela falou sobre exclusão do gênero dos planos de educação.

A palestra da filósofa americana Judith Butler em São Paulo, na tarde desta quarta-feira (9), atraiu centenas de pessoas ligadas à pesquisa e à militância das questões de gênero e LGBT, e um pequeno grupo de manifestantes contrários à discussão. Butler, que foi alçada ao status de celebridade na área após elaborar conceitos que levaram à criação da teoria queer, foi a principal palestrante do primeiro dia do Seminário Queer, que termina nesta quinta (10) no Sesc Vila Mariana.

Clique na imagem e assista ao vídeo da matéria:

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Sua teoria critica a associação automática do sexo biológico das pessoas à identidade de gênero e à orientação sexual delas. Ela defende a noção de que a identidade e o gênero das pessoas são mais flexíveis do que isso. Assim, a teoria queer considera, em seus estudos, as especificidades de quem se sente excluído ou excluída da simplificação “macho e fêmea” ou “homem e mulher”, como acontece com as pessoas trans. Por isso, ela provoca controvérsia e atrai críticas de alguns setores da sociedade.

Além de um acalorado debate entre acadêmicos e militantes da área, o nome da americana, professora da Universidade de Berkley, na Califórnia, e ganhadora do Prêmio Adorno em 2012, também provoca a ira de grupos conservadores. Na tarde desta quarta, antes de sua palestra, um pequeno grupo de pessoas protestou contra a vinda de Butler ao Brasil e, por tabela, contra a inclusão da palavra “gênero” no Plano Municipal de Educação de São Paulo. Com uma gaita de fole e um megafone, os manifestantes “alertaram” os participantes sobre a “ideologia homossexual” nas escolas e deixaram cartazes em frente ao local contra a vinda da filósofa ao Brasil.

A filósofa Judith Butler esteve no Brasil para fazer palestras em Salvador e em São Paulo (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Gênero nos planos de educação
Em entrevista coletiva à imprensa, antes de sua palestra sobre “vulnerabilidade e resistência”, Butler comentou a questão educacional no país, e afirmou que a retirada do termo nos documentos que foram aprovados nas câmaras municipais, inclusive na Capital paulista, criou um debate em torno do tema, que ainda não chegou ao fim. “Agora, vai haver uma luta para colocá-lo de volta no plano de educação. Talvez eles vençam. Talvez eles vençam, talvez não vençam. Em outras palavras, vocês são parte de um debate historicamente em evolução nesse assunto. Esse não é o fim da história”, disse ela (veja mais no vídeo acima).

A filósofa acredita que o debate é benéfico, porque leva as pessoas a pensarem em como querem educar as crianças sobre a questão da aceitação da diversidade.

“Nós queremos educar nossas crianças, ou as crianças das outras pessoas, para entender que isso é um problema altamente debatível? E que há diferentes pontos de vista, e que elas precisam considerar a complexidade do mundo, culturalmente e religiosamente, historicamente, para entender essa questão? Não significa que eles precisam aceitar um ponto de vista político”, afirmou Butler.

O debate, segundo ela, gira em torno da esfera onde deve se dar o ensino sobre sexo, sexualidade e, talvez, gênero. “Essa é uma questão: o que pertence à religião, ou a um espaço privado, e o que pertence a uma política educacional pública.”

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Conservadores contra o conceito de gênero
Mas a filósofa americana, que veio ao Brasil pela primeira vez, afirmou que aprendeu também, com as críticas que recebeu no país, que há setores que contestam o próprio conceito de gênero(assista ao vídeo acima). “Tem aqueles que dizem que se você aceitar a categoria de gênero, então você nega a categoria de sexo. E se você negar a categoria de sexo, você nega a Bíblia, que diz que há dois sexos, ou você nega a ciência, que diz, extensivamente, que há dois sexos”, disse ela, afirmando que, dentro da ciência, o assunto é complexo.

Antes de palestra da filósofa Judith Butler em São Paulo, grupo de jovens fez protesto contra a 'ideologia homossexual' nas escolas (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Antes de palestra de Butler em SP, grupo protestou contra a ‘ideologia homossexual’ nas escolas (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

“A ciência tem claro que a designação de sexo é uma prática muito difícil, e que ela nem sempre funciona, e eles brigam entre eles, os cientistas. Enfim… Com o propósito de defender a Bíblia, alguns cristãos vão evocar uma ideia da ciência na qual a diferença entre os sexos é absoluta.”

De acordo com Butler, o gênero não implica a negação do sexo.

“Ele simplesmente abre a questão: como conhecemos o sexo? Que nome damos para ele? Sob qual enquadramos o entendemos? Entendemos o sexo por meio da religião? Entendemos o sexo por meio da ciência? De qual ciência?”, questiona ela.

“Então existe um conjunto de contextos sobre como interpretar o que podemos chamar de corpo sexuado. O nome para esse conjunto de contextos é chamado de estudos de gênero. Estudos de gênero. É onde você pode fazer essas perguntas, onde você aprende a pensar criticamente sobre o problema.”

Grupo de manifestantes deixou em frente ao Sesc Vila Mariana cartazes ofensivos à filósofa da teoria queer Judith Butler (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Grupo de manifestantes deixou em frente ao Sesc Vila Mariana cartazes ofensivos à filosófa da teoria queer Judith Butler (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Ana Carolina Moreno

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