Pesquisa revela que, apesar das diferenças ideológicas, há consensos em temas como igualdade salarial, segurança e representatividade política
Uma pesquisa inédita do Instituto Update revelou um cenário multifacetado entre as mulheres brasileiras: embora existam divisões ideológicas e sociais profundas, há também pontos de consenso que podem servir como base para políticas públicas eficazes e o fortalecimento dos direitos femininos.
O estudo, intitulado “Mulheres em Diálogo”, foi realizado entre 6 e 16 de dezembro de 2024, em parceria com o Instituto de Pesquisa IDEIA. A pesquisa ouviu 668 mulheres de todas as regiões do Brasil, contemplando diferentes faixas etárias, classes sociais e orientações políticas.
O levantamento evidencia que, apesar da polarização, alguns temas são amplamente compartilhados pelas mulheres, enquanto outros geram rupturas significativas.
Salário Igual e Segurança: Um Consenso Nacional
Entre os temas que superam diferenças políticas e sociais, a igualdade salarial se destaca como o maior consenso: 94% das mulheres defendem que homens e mulheres devem receber o mesmo salário para cargos equivalentes. Esse dado demonstra que a equidade no mercado de trabalho é uma preocupação universal entre brasileiras de diferentes perfis.
Outro ponto amplamente compartilhado é a segurança pública, apontada como o problema mais grave do país por 77% das entrevistadas. O temor diante do aumento da violência urbana e da presença do crime organizado reflete uma preocupação transversal entre todas as classes sociais e regiões. Além disso, 47% das mulheres também mencionaram a saúde como uma das três principais preocupações nacionais.
A pesquisa também revelou um forte apoio à maior representatividade feminina na política: 72% das entrevistadas concordam que deveria haver mais mulheres ocupando cargos políticos. O dado reforça um desejo crescente de transformação na composição do poder, ainda amplamente dominado por homens.
A pesquisa mostra que, apesar das diferenças ideológicas, há um desejo real de melhorias concretas, como equidade salarial e segurança. Isso pode criar pontes para políticas que, de fato, atendam aos interesses das mulheres, independentemente de suas crenças políticas.
Os pontos de ruptura: aborto, feminismo e religião na política
Se, por um lado, há convergências em temas estruturais, por outro, questões morais e religiosas revelam fortes divisões.
O feminismo, por exemplo, ainda divide opiniões: 48% das entrevistadas se identificam como feministas, enquanto 43% rejeitam o rótulo. A adesão ao feminismo é maior entre mulheres jovens, de classes mais altas e escolarizadas, enquanto a rejeição é predominante entre evangélicas, católicas praticantes e mulheres acima de 45 anos.
A descriminalização do aborto enfrenta forte resistência, sendo aprovada por apenas 16% das entrevistadas. Mesmo entre as mulheres que se identificam como progressistas, 61% são contrárias à legalização do procedimento, percentual que chega a 82% entre as conservadoras. Entre mães, a rejeição atinge 85%.
Apesar disso, a pesquisa aponta que a maioria das entrevistadas não apoia a prisão de mulheres que realizam abortos fora das situações previstas na lei, sugerindo um viés mais voltado para a descriminalização do que para a legalização.
O tema do aborto no Brasil ainda é tratado de forma muito moralizante, e a rejeição à sua legalização transcende espectros políticos. Mas é interessante notar que há um senso de empatia quando se trata da criminalização das mulheres que abortam. Isso mostra que, embora exista resistência, há espaço para debates mais humanizados.
Outro tema sensível é a influência religiosa na política: 53% das mulheres acreditam que valores religiosos devem orientar decisões políticas, enquanto 43% discordam dessa ideia. Esse embate é particularmente acirrado entre evangélicas e católicas praticantes, que defendem a participação da religião no cenário político, e mulheres sem religião, que tendem a rejeitar essa influência.
Para Carolina Althaller, diretora do Instituto Update, esses dados revelam como o perfil religioso e a trajetória de vida moldam a visão das mulheres.
“As divergências em temas morais mostram o quanto as experiências individuais e os contextos religiosos pesam na formação da opinião das mulheres brasileiras. Mas, ao mesmo tempo, também indicam que há caminhos para a construção de um diálogo mais amplo e respeitoso entre diferentes grupos”, destaca Althaller.