A origem do conceito de empoderamento, a palavra da vez

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Neologismo criado pelo educador Paulo Freire é uma adaptação de um termo em inglês e está no centro do discurso de movimentos da sociedade civil

(Nexo, 06/10/2016 – acesse no site de origem)

É impossível falar em feminismo e movimento negro em 2016 sem falar de empoderamento. A palavra, um neologismo do educador Paulo Freire que tem origem no termo inglês “empowerment”, define um conceito fundamental para entender as aspirações desses movimentos sociais.

E tem sido cada vez mais usada. De 2011 para cá, o uso do termo tem crescido na internet. O pico em 2013 coincide com os protestos de junho daquele ano:

A palavra “empoderamento” é descrita em dicionários da língua portuguesa como Aurélio e Houaiss. De acordo com eles, o termo conceitua o ato ou efeito de promover conscientização e tomada de poder de influência de uma pessoa ou grupo social, geralmente para realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhe afeta.

A ideia é dar a alguém ou a um grupo o poder de decisão em vez de tutelá-lo. O movimento feminista negro, por exemplo, trabalha para empoderar mulheres negras, promovendo conscientização, por meio de educação comunitária, palestras e produção de conteúdo. O objetivo é dar instrumentos necessários para que esse grupo reivindique políticas públicas que beneficiem ou diminuam suas dificuldades específicas.

‘Empowerment’, em inglês, deu origem ao termo aportuguesado ‘empoderamento’ (Foto: Tara/Flickr/Alguns Direitos Reservados)

É, portanto, um conceito fundamental para explicar as principais faces de movimentos sociais que defendem mais participação social e oportunidades para minorias.

Mesmo assim, dentro e fora desses grupos sociais, há debates sobre o uso do termo. Há quem defenda que a banalização da palavra dilui o seu sentido real. Outros dizem que o aportuguesamento do termo em inglês foi feito de maneira descuidada, confusa ou que empoderar sequer seja um termo necessário.

Como surge uma palavra nova

O surgimento de uma palavra nova é um processo motivado e influenciado por uma série de fatores sociais e contextuais.

Qualquer um pode inventar uma palavra e atribuir a ela um significado. No entanto, a única coisa que vai garantir que essa palavra adquira, de fato, o significado desejado é um acordo não-verbalizado entre os falantes da língua, que começam então a usá-la para identificar um sentido ou ideia específica.

É assim que surge uma palavra nova, e posteriormente os dicionários a identificam, a catalogam e a definem – sempre com base no contexto de uso e no significado semântico que o termo adquiriu de maneira orgânica.

Em tempos de comunicação globalizada, é muito mais comum que novas palavras sejam “emprestadas” de outros idiomas e adaptadas, fonética e gramaticalmente, em outros idiomas. Em outros tempos, esse processo já acontecia por meio de imigração, por exemplo. Agora, isso sequer é preciso.

“Empoderamento” é um desses casos. Em 1977, o psicólogo norte-americano Julian Rappaport cunhou o termo “empowerment” a partir da palavra “power” (“poder”) para defender que era preciso dar ferramentas a certos grupos oprimidos para que eles tivessem condições e autonomia de se desenvolver.

O educador brasileiro Paulo Freire criou sua versão do termo para debater a proposta de Rappaport: para ele, eram os próprios grupos desfavorecidos que deveriam empoderar-se a si próprios, uma noção que se tornou popular entre educadores e sociólogos.

A palavra foi adotada por movimentos sociais e hoje é largamente utilizada, inclusive por entidades como a Organização das Nações Unidas.

‘Palavra feia’

Entre linguistas, não há grandes questões sobre a adoção, a definição e o uso do termo “empoderamento”.

“A palavra ‘empowerment’ foi empregada pelo presidente Barack Obama recentemente, por ocasião do massacre ocorrido na boate Pulse […]: ‘O lugar em que foram atacados é mais que uma boate – é um lugar de solidariedade e empoderamento’. O emprego feito pelo presidente reforça o significado do termo como conquista coletiva de autonomia, emancipação das chamadas minorias. Não se trata, portanto, de termo restrito à bandeira feminista, muito menos de ‘jargão feminista’, como já se chegou a dizer.”
Thaís Nicoletti

Consultora de língua portuguesa, em coluna no jornal Folha de São Paulo

As análises acadêmicas que estudam a origem da palavra e seus contextos versam, principalmente, sobre o significado semântico “empoderar” e como a palavra ganhou o significado que tem hoje, definido no início deste texto.

Ana Freitas

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