Participação da mulher em cargos de poder vai além da bandeira do feminismo

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O eleitor sorocabano escolheu duas mulheres para ocuparem uma cadeira ao lado de outros 18 homens na Câmara Municipal, a partir do próximo ano. Muito se fala da importância da participação da mulher na política. Mas, na prática, o que isso realmente significa? De acordo com a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da UFSCar, essa reflexão passa muito mais pelo campo da busca por uma ampla representatividade nas instâncias de decisão, com um olhar feminino sobre os temas discutidos, do que, necessariamente, da necessidade de que mulheres ocupem cargos de poder para levantar bandeiras exclusivas de feminismo. “As mulheres defendem políticas universais, gerais. Essa visão de que as mulheres defendem só questões ligadas às mulheres é errônea. O que se espera é que numa democracia, os diferentes setores que compõem a sociedade tenham participação política. O mais importante é a diversidade.”

(Cruzeiro do Sul, 14/10/2016 – acesse no site de origem)

Tanto Maria do Socorro como as vereadoras eleitas Fernanda Garcia (Psol) e Iara Bernardi (PT) são unânimes em apontar que não cabe a uma mulher vereadora atuar, no legislativo, somente em defesa das causas femininas. Porém, é consenso de que algumas demandas dessa população — como necessidade de mais vagas em creches, por exemplo — são muito mais vividas e conhecidas pelo universo feminino. “Você acha que existiria a lei Maria da Penha sem a bancada feminina no Congresso Nacional? Os homens votaram, mas não construíram a lei, até porque não têm ideia do que seja essa violência”, argumenta Iara Bernardi. “São elas que levam os filhos na creche, no sistema de saúde, sofrem violência doméstica, lutam pelo filho envolvido com drogas, e não têm a atenção que deveriam ter. As mulheres estão envolvidas em todos os espaços, fazendo política, e têm um olhar de cobrança e questionador”, emenda Fernanda Garcia.

Leia mais:
Eleição em Guarulhos mantém baixa representação feminina na cidade (Folha de S.Paulo, 17/10/2016)
Bahia elegeu pequeno número de mulheres para prefeituras (Tribuna da Bahia, 13/10/2016)
Apenas 7% dos prefeitos eleitos no Paraná são mulheres (Bonde, 13/10/2016)

Visão de mundo

Ainda que não estejam ocupando vagas de legisladoras apenas para defender as mulheres, a avaliação da cientista política Maria do Socorro é de que as representantes do sexo feminino levam, para o plenário, uma visão feminina de mundo que acaba fazendo a diferença. “É um ambiente muito machista, de tradição de machismo, onde o que predomina é a visão masculina. Elas precisam se sobrepor a esse ambiente com uma boa argumentação.”

Para Iara, é “evidente” que o olhar feminino e masculino são diferentes diante dos mesmos assuntos. “Como legisladoras, temos que votar sobre todos os temas, mas alguns, voltados às mulheres, se não houver nenhuma mulher lá, ninguém vai defender.”

Já Fernanda pondera que a simples presença feminina no plenário é capaz, inclusive, de minimizar o impacto de um ambiente machista historicamente. “A mulher é mais persistente e tem um olhar mais social, mais humano de se aprofundar nas suas propostas.”

Em Sorocaba, a Câmara Municipal começou a funcionar, no formato que existe hoje, em 1948. Foram necessários 35 anos — ou oito legislaturas — para que as mulheres passassem a ocupar um espaço no plenário que aprova as leis do município. Em 1983, duas representantes do sexo feminino foram escolhidas exercer esse papel: Diva Maria Prestes de Barros Araújo, que, à época, concorreu pelo PMDB, e Iara Bernardi, pelo PT — que acabou permanecendo na Câmara por três legislaturas e agora retorna à função.

Duas mulheres representam exatamente 10% das vagas do legislativo sorocabano. A única vez, na história, que este número foi maior — 15% — foi entre os anos de 1993 e 1996 — com Iara Bernardi, Ana Paula Eleutério (PSDB) e Maria Aparecida de Queiróz de Almeida (PL). Antes de toda essa história, entretanto, Salvadora Lopes foi eleita vereadora, ainda em 1947, pelo PST, mas impedida de tomar posse por ter ligação com o partido comunista.

Lei de cotas está longe defuncionar como deveria

A legislação brasileira determina que os partidos políticos devem ter, no seu rol de candidatos, 30% das vagas ocupadas por mulheres. Porém, o que nasceu como incentivo à participação feminina, se tornou um problema ao longo dos anos. Logo após o resultado das últimas eleições, a candidata Karina Pereira da Silva, cujo nome foi lançado pelo PEN, admitiu à reportagem que só concorreu porque o partido precisava preencher seu quadro com um número mínimo de mulheres. Com sete votos computados na urna, com os quais ela mesma se surpreendeu, Karina deixou claro que não pretende seguir na carreira política, pois a atividade “não é muito a minha área”, disse.

A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga afirma que casos como esse, de “laranjas” usadas pelos partidos para atingir a cota feminina, existem por todo o País. “Os partidos deveriam preparar grupos políticos de mulheres e criar condições para que elas pudessem participar”, comentou, citando como exemplo a criação de espaços onde elas possam deixar seus filhos para debater política. “As mulheres têm dupla, tripla jornada de trabalho, e com isso a dificuldade de participar das reuniões dos partidos”, confirma Fernanda Garcia. “A maioria dos partidos não existe no dia-a-dia, não realiza atividades fora do processo eleitoral. Com isso, não forma um quadro. Quando surgiram as cotas, muitas mulheres se entusiasmaram, mas depois, na hora de concorrer, levaram um susto com a falta de apoio, de dinheiro”, conta Iara Bernardi.

Maria do Socorro concorda que muitas mulheres continuam fugindo da política não porque não gostam, mas simplesmente pelo fato de não conseguirem incluir, em sua rotina já atribulada — de dona de casa, mãe e profissional — mais uma responsabilidade. “As mulheres lutaram muito para alcançar uma posição no mundo profissional e acabam tendo que abrir mão de muita coisa se resolvem entrar para a política. Abandonar tudo o que já conquistou tem um preço alto.” Até por isso, pondera a cientista política, boa parte das que se candidatam — e conseguem se eleger — já têm um histórico de lutas em movimentos sociais, sindicatos, causas femininas, etc.

A cientista política considera que, atualmente, só uma situação seria capaz de fazer as mulheres se encorajarem na busca por um cargo eletivo: a mudança da situação política brasileira como um todo. “Ter uma presidente mulher mostrou que nós temos capacidade de estar em qualquer posição de poder. Mas é preciso que tenhamos novos padrões de valorização e credibilidade da classe política.”

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