Por que política e misoginia combinam tanto?, por Juliana Guarany

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(HuffPost Brasil, 18/03/2016) Não tem jeito: o assunto do momento não é feminismo, não é o papel feminino. É política e corrupção, mas parece que todos os personagens arranjam um jeito de ser misóginos. Queria eu estar errada, mas não dá pra ignorar.

O última que vi partiu das escutas de Lula: conversando com Paulo Vannucchi, referiu-se às feministas do partidos como aquelas de “grelo duro”. Minha certeza é de que, se perguntarem a ele, dirá que estava fazendo um elogio. Vergonhoso.

Leia mais: #MulheresPelaDemocracia (Folha de S. Paulo, 18/03/2016)

Em outra escuta, ele tira sarro de Clara Ant, diretora de seu instituto: “entraram cinco homens na casa dela, ela achou que era presente de Deus, era a Polícia Federal”.

Lula é o típico esquerdo macho, aquele amiguinho, companheiro de luta, defendendo as pautas feministas sem se dar ao trabalho de olhar pra si, para o próprio comportamento misógino.

O machismo aparece naturalmente nas conversas políticas. Jair Bolsonaro, numa recente conversa com a atriz Ellen Page sobre a causa gay, conseguiu inserir comentários misóginos até onde não cabia: “Você é bonita. Se passasse na rua, eu assobiaria pra você”. Chegou a tentar justificar o aumento de gays na sociedade com a chegada da mulher ao mercado de trabalho.

Eu nem vou entrar na discussão sobre o quão absurdas são as suas colocações. O feminismo é uma pauta horizontal, não responde para a direita ou para a esquerda. O que me interessa aqui é mostrar que a mulher é atacada de graça, quando o assunto nada tem a ver com ela. E isso independe de partido ou ideologia.

Jogo cansativo

Nos Estados Unidos, ao comentar sobre o debate republicano em que foi constantemente questionado pela mediadora, Donald Trump me saiu com essa: “você podia ver sangue saindo dos olhos dela. Saindo da sua… sei lá de onde”.

No jornalismo a coisa também não é fácil. Frequentemente vemos comentários sobre a aparência de mulheres na política, o que não se vê em relação aos homens. As pernas de Helle Thorning-Smith, os olhos de Marine Le Pen, a aparência cansada deHillary Clinton, os ternos iguais – de todas as cores – de Angela Merkel, o cabelo/vestido/sorriso de Dilma Rousseff.

É muito cansativo esse jogo. A política por si só já é desgastante. Adicione aí os ataques a uma condição natural e totalmente indiferente ao contexto, como o fato de ser mulher, e temos o argumento misógino tentando ganhar debates diminuindo as figuras femininas que fazem parte dele.

Em maio de 2015, acompanhamos o papelão do deputado Alberto Fraga no plenário, ao discutir com Jandira Feghali. A deputada foi puxada pelo braço por Roberto Freire e reclamou ao presidente Eduardo Cunha. Eis a fala de Jandira Feghali:

“Não é aceitável que, na divergência, se toque nas pessoas. Deputado Rolando tava falando, o deputado Roberto Freire tocou, bateu nas costas dele duas vezes. Eu fui pedir que não fizesse isso, ele pegou o meu braço. Isso não é aceitável. Se fizer isso, eu vou denunciá-lo ao conselho de ética da casa”

Diante desse argumento, Alberto Fraga soltou o infame comentário:

“Se bate como homem, tem que apanhar como homem”.

É muito importante notar que Jandira Feghali não se colocou “como mulher” ao exigir respeito entre deputados. Ela afirmou que levaria ao conselho de ética. Foi Fraga quem a colocou na posição de mulher como uma “intrusa” em um universo masculino.

E é isso que veem: a política é um jogo entre homens. Assim veem os que pensam que as mulheres “batem como homem”. Assim viu Bolsonaro ao tentar empurrá-las de volta à vida de donas de casa. Assim viu Lula ao chamar de “grelo duro” aquelas que não se intimidam com o jogo político.

O pior de tudo isso é ver que as ações misóginas são desconsideradas. Levou 55 anos para alguém perceber que não havia banheiro feminino no plenário do Senado. As 12 senadoras usavam o banheiro do restaurante ao lado. Realmente, não parece grande coisa, visto que nem 15% dos parlamentares são do sexo feminino. Sim, temos aqui o real problema disso tudo: a falta de representatividade.

Pequenos avanços

Quando Marta Suplicy foi eleita prefeita de São Paulo, um homem entrevistado pela Veja São Paulo disse que “tudo bem, seu marido cuidaria pra que ela fizesse tudo certo”. Ela se separou de Eduardo Suplicy logo em seguida. Me pergunto quantos eleitores se incomodaram com isso.

Elegemos uma presidente mulher. Para a pauta feminina, independente do que se pensa de Dilma, sua eleição conta muito. Uma pena que não houve grandes avanços de representatividade no Senado e na Câmara. Outras duas mulheres, Marina Silvae Luciana Genro, tiveram destaque nas eleições presidenciais. A passos lentos, avançamos na corrida presidencial.

O Partido da Mulher Brasileira ganhou representatividade no congresso. Sua pauta, dita centro-esquerda, conta com homens e mulheres trabalhando lado a lado para promover uma maior representatividade feminina na política. É sabido que o partido não tem intenção de apoiar causas feministas históricas, como o direito ao aborto, por exemplo, mas mesmo assim vejo como positiva a existência do partido. No momento, ainda contam com mais homens do que mulheres entre seus quadros. Espero que isso mude logo. Toda representatividade é bem-vinda e conservadoras também precisam de seu espaço.

O que precisamos? Igualdade

Parece meio irreal, mas isso pode acontecer: o gênero não deve interferir no jogo político. Igualdade também significa representatividade, ou seja, quanto mais mulheres participarem da política, menos importância daremos à distinção de gênero.

Acesse no site de origem: Por que política e misoginia combinam tanto?, por Juliana Guarany (HuffPost Brasil, 18/03/2016)

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