A primeira presidente e o voto das mulheres, por Fernando Exman

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(Valor Econômico, 30/07/2014) Primeira presidente da República mulher, Dilma Rousseff enfrenta dificuldades entre o eleitorado feminino. A intenção de votos de Dilma junto a essa parcela da população caiu desde o início do ano. Sua rejeição é maior que a de seus adversários, mas a candidata à reeleição pelo PT já tem pronto um discurso para apresentar às mulheres. E aposta no início do programa eleitoral gratuito em rádio e televisão para evitar que as eleitoras brasileiras decidam votar na oposição.

A presidente iniciou 2014 com uma potencial votação de 44% entre as mulheres, segundo pesquisa feita pelo Datafolha em fevereiro. Cinco meses depois, de acordo com a sondagem mais recente feita pelo mesmo instituto, a intenção de votos de Dilma entre o eleitorado feminino caiu dez pontos percentuais, para 34%. Nesse mesmo período, o candidato do PSDB a presidente, Aécio Neves, subiu de 13% para 17%. Já Eduardo Campos (PSB) começou o ano com 8%, chegou a alcançar 10% e agora recuou para 7%. O mais curioso, porém, foi o aumento de eleitoras indecisas – um avanço de 9% para 17%.

O comportamento desse segmento da população é acompanhado de perto pelos comitês eleitorais. Afinal, hoje as mulheres são 52,13% dos 142.822.046 votantes. Além disso, são capazes de reproduzir um efeito multiplicador de votos entre seus familiares. Não à toa, Aécio e Campos buscam reforçar a imagem de que são “pais de família”.

O crescimento do percentual de eleitoras que dizem não saber em quem votarão converge com a teoria de que as mulheres tendem a decidir seus candidatos mais tarde que os homens. A argumentação é fundamentada na hipótese de que a maior parte do eleitorado feminino costuma acessar o noticiário político cotidiano numa frequência menor. Suas decisões são em grande medida pautadas pelo potencial de os candidatos resolverem os problemas mais tangíveis de seu dia a dia e o de sua família, o que abarcaria temas como segurança, saúde, educação e o risco de desemprego.

O desempenho do governo em algumas dessas áreas é questionável. Segundo o mais recente balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), por exemplo, o governo contratou a construção de 8.294 creches e pré-escolas, das quais apenas 2.056 foram entregues. A ideia do Executivo é atender 1,6 milhão de crianças quando todas as creches forem concluídas.

Contudo, nos últimos meses Dilma demonstrou que já preparou o cardápio de realizações de sua administração a ser apresentado ao eleitorado feminino no período em que a campanha se intensificar. A presidente faz questão de destacar em discursos e programas oficiais de informação: 93% dos cartões para sacar os benefícios do Bolsa Família estão nas mãos de mulheres, a grande maioria das unidades do Minha Casa, Minha Vida está
no nome da população feminina, 60% das matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) foram feitas por mulheres, assim como há números expressivos de beneficiárias de desapropriações da reforma agrária, geração de empregos, ProUni, linhas de financiamentos estudantis, operações de crédito do programa Crescer para pequenos empreendedores e da aquisição de alimentos da agricultura familiar. Além de exigir ser chamada de “presidenta” como um símbolo de seu esforço para avançar nas questões de gênero, Dilma elevou o número de ministras no Executivo.

Tamanho esforço justifica-se pela avaliação de que as mulheres não votam automaticamente em candidatas do sexo feminino no sistema representativo brasileiro, como poderiam desejar integrantes do movimento feminista. A minguada presença de mulheres no Parlamento é prova disso. Na Câmara, a bancada feminina tem 46 integrantes no exercício do mandato, ou 8,9% do total. Entre os 81 senadores, esse percentual sobe para 12,3%, pois há dez senadoras na Casa. Tais índices de presença feminina no Congresso estão abaixo da média mundial (21,9%), do continente americano (25,9%) e são inferiores até que os níveis observados em países árabes (15,9%), segundo levantamento da União Interparlamentar (UIP), organização internacional que reúne legislativos de Estados do mundo todo.

No início da campanha presidencial de 2010, a então ex-chefe da Casa Civil do governo Lula e candidata do PT à Presidência gostava de contar uma história. Certa vez, narrava ela, um casal lhe abordou num aeroporto e a interlocutora pediu que dissesse à filha que “mulher pode” ser presidente. Era garantido: a militância petista sempre a ovacionava quando Dilma revelava que o nome da criança era Vitória, como se fosse uma profecia do que estava para ocorrer naquele pleito.

À época, as pesquisas de intenção de voto apontavam que a maior parte do voto feminino iria para José Serra (PSDB). Dilma era menos conhecida, mas conseguiu virar o jogo quando começou o horário eleitoral gratuito. Acabou se consolidando como favorita entre o eleitorado feminino às vésperas do primeiro e segundo turnos.

A aposta agora da coligação liderada pela presidente é a implementação do programa Casa da Mulher Brasileira, espaço que reunirá delegacias especializadas de atendimento à mulher, juizados, defensorias, promotorias, equipes de saúde e orientação profissional. Três unidades estão em construção em Brasília, Campo Grande e Vitória, as quais serão concluídas neste mandato. Outras 23 serão instaladas em capitais país afora. No total, o investimento previsto é de R$ 112 milhões neste ano e R$ 82,5 milhões em 2015.

Quando tomou posse, a presidente afirmou em discurso inaugural que assumia um “compromisso supremo” de “honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos”. Se quiser voltar a discursar no Congresso Nacional no dia 1º de janeiro de 2015 – desta vez como presidente reeleita -, terá de convencer o eleitorado feminino de que é capaz de fazer mais nos próximos quatro anos.

Acesse o PDF: A primeira presidente e o voto das mulheres, por Fernando Exman (Valor Econômico, 30/07/2014)

 

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