Por que mulheres que não querem ter filhos ainda sofrem preconceito?

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Com frequência ouvimos falar que um tal “reloginho” soa no corpo das mulheres quando a vontade de ter filhos enfim bate à porta. Na contramão dessa crença, entretanto, diversas mulheres não têm planos de engravidar: 14% das brasileiras, segundo o Censo 2010. E apesar de todas as conquistas femininas no campo da independência, não desejar a maternidade permanece como um tabu.

(Finanças Femininas, 31/08/2016 – acesse no site de origem)

Quem escolhe não ter filhos precisa lidar com a sociedade: com as acusações de estar negando a própria natureza, ser egoísta, não ter maturidade para assumir essa responsabilidade, só pensar em trabalho ou não se importar com a família.

“Ao optar por não ser mãe, você é desqualificada como pessoa e tratada como um ser humano incompleto”, afirma Mariana Meriqui Rodrigues, pesquisadora do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Sexualidade, Corporalidades e Direitos da UFT e membro do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil.

Em um mundo de mulheres cada dia mais independentes financeira, social e sexualmente, o universo feminino se torna mais complexo e diversificado. Muitos fatores, portanto, deveriam ser considerados antes de partir para a máxima “toda mulher quer ser mãe”. Para explicar a opção de dizer não à maternidade, entretanto, quase sempre são usados argumentos do senso comum, sem considerar as experiências pessoais e a autonomia sobre o próprio corpo.

Desconstrução social

Nas últimas décadas, a mulher conquistou o direito de trabalhar fora, morar sozinha e conhecer a vida de solteira. Mas ainda carrega consigo a obrigação de ser mãe. “Desde que nascem, as dinâmicas sociais alocam as mulheres para um script de vida que inclui a maternidade. O papel determinado de gênero ainda é muito forte”, explica Mariana.

Nesses moldes impostos socialmente, é permitido que a mulher assuma diversas funções, desde que não deixe de cumprir outras, como cuidar dos afazeres domésticos ou ser mãe. Ao escolher não engravidar, ela quebra os estereótipos e o comportamento esperado. E isso incomoda. Apesar de todas as conquistas, ainda há um longo caminho de desconstrução do seu papel na sociedade.

Repensando conceitos

Desmistificar alguns conceitos é fundamental para tirar essa enorme pressão que a obrigação de ser mãe exerce sobre as mulheres. A começar pela visão de maternidade como um fenômeno simplesmente biológico.

Para Mariana, a medicina é utilizada como o principal argumento de naturalização da maternidade e a pessoa acaba sendo culpabilizada por suas escolhas pessoais. “Para justificar a necessidade de a mulher ser mãe, são citadas pesquisas que afirmam que o corpo foi feito para gerar filhos e que relacionam a não amamentação ao câncer de mama, por exemplo. Essas relações chegam a ser cruéis”, defende.

Da mesma forma, a pesquisadora acredita que é preciso rever a ideia do instinto materno como algo natural, já que toda relação, inclusive a de mãe e filho, é também construída socialmente.

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