“Precarização afeta mais as mulheres”, afirma pesquisadora

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(Valor Econômico, 08/07/2016) Com mais de 40 anos dedicados aos estudos das diferenças de gênero no mercado de trabalho, Helena Hirata é uma autoridade internacional no tema, pesquisadora emérita do Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris. Coorganizadora (com Alice Rangel de Paiva Abreu e Maria Rosa Lombardi) do recém­lançado “Gênero e Trabalho no Brasil e na França ­ Perspectivas Interseccionais” (Boitempo), ela alerta para o risco de a flexibilização das leis trabalhistas, em discussão no Brasil e na França, piorar ainda mais a situação das mulheres. “Elas são mais penalizadas com a precarização, pois, além do gap salarial, são mais vulneráveis à informalidade”, diz.

O livro é uma compilação de estudos comparativos entre os dois países, no entanto, uma viscosidade global das questões sociais abordadas permite avançá­las além dos limites da França e do Brasil. Nesta entrevista ao Valor, Helena Hirata aborda outros temas do livro como a suposta “vocação” da mulher ao trabalho de cuidadora de idosos, acentuado com o envelhecimento populacional, e a robotização fabril e doméstica suscitada pela chamada “Quarta Revolução Industrial”.

Valor: França e Brasil têm debatido mudanças nas leis trabalhistas. Como essa discussão afeta as mulheres?

Helena Hirata: O Projeto de Lei El Khomri, também chamado “Lei do Trabalho”, altera a legislação no sentido de maior flexibilidade na contratação e demissão. As mulheres e os jovens são os mais afetados. Mas as mulheres serão mais ainda. Elas são majoritárias nesse segmento precário e informal, representado, no Brasil, sobretudo pelo trabalho informal e, na França, pelo trabalho em tempo parcial e pelo contrato por tempo determinado. Apenas em alguns segmentos de emprego na França, como o dos “aprendizes” ou dos “temporários”, as mulheres não são majoritárias. Claro que as mudanças na legislação em relação à aposentadoria também tendem a afetar mais as mulheres cujas rendas de aposentadoria são muito menores do que as dos homens nos dois países, em virtude da descontinuidade na sua vida profissional.

Valor: Os temas do livro são globais, apesar de compararem dois países?

Helena: Os temas são certamente globais e as mudanças atuais no mundo do trabalho afetam a divisão sexual do trabalho e do emprego em todo o mundo, dada a interdependência crescente dos mercados e dos Estados-nação. De fato, a comparação entre países deixa de ser o ângulo exclusivo de pesquisas internacionais, para dar lugar às pesquisas sobre a globalização e suas consequências em termos de gênero, raça e classe. O artigo da socióloga Jules Falquet, por exemplo, analisa a repercussão sobre as mulheres da globalização neoliberal e o processo de gestação denominado “barriga de aluguel”.

Valor: A senhora tem se voltado à questão do cuidado de longa duração (de idosos). Esse tema entrou na agenda internacional dos estudos da situação da mulher no mercado de trabalho?

Helena: A inserção cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho em todos os países capitalistas industrializados e o envelhecimento acelerado da população idosa em todo o mundo, particularmente intenso em países como o Japão, tem colocado o cuidado de longa duração na agenda dos estudos de sua situação no mercado. Em países como o Uruguai, há uma legislação que inclui a questão dos cuidados aos idosos como parte integrante das políticas públicas nacionais. As cuidadoras domiciliares são mais de 90% mulheres em países tão diversos como o Brasil, o Japão e a França.

Valor: Como analisa a questão da imigração e dos cuidados de longa duração?

Helena: Hoje não podemos estudar a questão do cuidado sem analisar as migrações internacionais nem estudar as migrações sem recorrer à análise dos fluxos de cuidadoras e empregadas domésticas que têm se avolumado, tanto no sentido Sul­-Norte, quanto no sentido Leste-­Oeste ou Sul-­Sul, como mostra a chegada das babás filipinas nos condomínios fechados da cidade de São Paulo. Na França, como indico no meu artigo, elas vêm da África do Norte, das Antilhas e da África Sub-­sahariana. São desvalorizadas, sem reconhecimento de seus diplomas. No Brasil, assim como na China, a migração para o trabalho de cuidado é sobretudo interna. As pesquisas têm mostrado o quanto elas são humilhadas, exploradas e frequentemente estupradas por todos os intermediários do fluxo migratório.

Valor: O que precisa ser feito para melhorar a situação das mulheres no mercado de trabalho?

Helena: Creio que há duas vias para a transformação das dinâmicas de discriminação: políticas públicas e movimentos sociais. Tanto na França quanto no Brasil, as ações em termos de políticas públicas, sobretudo do Ministério dos Direitos das Mulheres, na França, e na Secretaria de Política para as Mulheres no Brasil, têm procurado propor leis e decretos para a diminuição das discriminações em relação às mulheres. Os movimentos sociais na França têm se mobilizado contra a Lei El Khomri, pois sabem que as mulheres serão prejudicadas.

Valor: Muito se discute a “Quarta Revolução Industrial” e o futuro do trabalho humano. Como essas transformações afetam a mulher trabalhadora?

Helena: Acreditou-­se que as novas tecnologias da informação e da comunicação iriam acabar com o trabalho humano e que os robôs o substituiriam. Não é bem assim. Essa visão não considerava o conceito ampliado de trabalho, no qual o trabalho doméstico é parte do trabalho. A repartição do trabalho doméstico entre os homens e as mulheres certamente ajudaria mais a mulher trabalhadora do que robôs e todas as revoluções industriais.

Jorge Feliz 

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