Assédio sexual no trabalho: um caso por hora é levado à Justiça no Brasil

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Nos últimos três anos, varas e tribunais regionais trabalhistas receberam 20 mil ações

(O Globo, 25/03/2018 – acesse no site de origem)

Eva ouvia de seu chefe, em uma indústria de alimentos, que só seria promovida se lhe enviasse fotos em poses eróticas. Não cedeu e foi demitida. Após a morte do marido, Dolores passou a ser chamada de “viúva alegre” e insistentemente era convidada a ir ao motel por um superior da companhia de saneamento onde trabalhava. O gerente de Simone, em um posto de gasolina, se dirigia a ela ora como “gostosa” ora como “safada”. Quando ela ia passar um café, ele colocava o pênis para fora e pedia que o tocasse. Tudo na frente dos colegas. Maria denunciou à fabricante de embalagens em que trabalhava as investidas indesejadas de um colega. A dona da empresa não só ignorou como a obrigou a “perdoar” o assediador, colocando-os frente a frente. O supervisor de Célia, na empresa de TI onde trabalhava, achava que tinha o direito de passar a mão nela, sem consentimento. E deixava bem claro: se reclamasse com alguém, seria mandada embora.

As cenas descritas acima estão em depoimentos retirados de cerca de 20 mil novos processos de assédio sexual que foram recebidos pela Justiça do Trabalho de todo o país no últimos três anos. Isso corresponde a praticamente uma nova ação por hora. Entre 2015 e 2017, o volume anual de ações que chega às varas e tribunais regionais trabalhistas cresceu 12%. Em todas elas, as vítimas, maciçamente mulheres, buscam indenização por danos morais. Os dados são do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Só no Estado do Rio, as novas ações sobre o tema somaram 950 nos últimos três anos, segundo levantamento da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho. O número de vítimas assusta tanto quanto seus relatos, mas tudo indica que é ainda maior no cotidiano do mercado de trabalho. Juízes e promotores públicos que atuam em causas trabalhistas observam que a maioria das pessoas que sofrem esse tipo de assédio não formaliza denúncia por medo: da exposição, de prejudicar o relacionamento com a família e, principalmente, de perder o emprego.

— O que chega à Justiça é apenas a ponta de um iceberg. É preciso se munir de muita coragem e ter muita personalidade para reviver aquele fato e falar publicamente sobre ele na audiência — complementa a juíza do trabalho Claudia Pisco, titular da 45ª Vara do RJ.

Eva, Dolores, Simone, Maria e Célia — que tiveram seus nomes verdadeiros omitidos para preservar suas identidades, a exemplo do sigilo que envolve a maior parte dos processos judiciais relacionados a essa questão — tiveram de ser indenizadas pelas empresas onde foram assediadas. Os valores variaram entre R$ 15 mil e R$ 50 mil. Num processo trabalhista, o réu é sempre a empregadora, nunca a pessoa física do assediador. No entendimento da Justiça, é responsabilidade das empresas manter o ambiente de trabalho saudável, seguro e livre de violação à intimidade. É comum, nas sentenças indenizatórias, o juiz ressaltar que a companhia empregadora “acobertou” o assédio ou “nada fez para impedi-lo”. Dessa forma, o assédio sexual no ambiente de trabalho é um risco crescente para as contas das empresas.

Em grande parte dos casos, o assédio é cometido por um chefe, direto ou não, da vítima, que pede favores sexuais em troca de uma promoção ou condiciona à permanência dela na empresa. Segundo Claudia, na Justiça do Trabalho do Rio, em média 90% das ações de assédio sexual são protocoladas após a vítima deixar aquele emprego. De acordo com a magistrada, as mulheres são maioria entre as vítimas, e o assediador é sempre do sexo masculino, mesmo quando o abusado é um homem.

A reforma da legislação trabalhista, discutida ao longo do ano passado e em vigor desde novembro, é um fator a mais a desencorajar a denúncia à Justiça, avalia a juíza. Principalmente porque o autor da ação passou a ter de arcar com os custos do processo se perder a causa.

Para a magistrada, isso justifica a queda de 18% no número de novos processos nas varas e tribunais trabalhistas do Estado, nos últimos três anos. Passaram de 351, em 2015, para 288 ano passado — média de um a cada 30 horas. Este ano, foram apenas 18, ou 1 a cada semana. Juliana Bracks, advogada trabalhista que atende casos de assédio, reforça a observação da juíza. Ela explica que a Justiça só reconhece o assédio sexual quando há provas e testemunhas.

— Reuni-las não é tarefa fácil. É comum o assediador não deixar rastros, como e-mails e mensagens de WhatsApp, e abordar a vítima quando estão sozinhos — pondera a advogada.

Com a reforma, em caso de perda da ação, o juiz pode determinar que a autora pague ao réu 2% sobre o valor dado à causa, pelas custas processuais, e entre 5% e 15%, desse mesmo montante, pelos honorários do advogado da outra parte. Por outro lado, também foi estabelecido um valor referencial para o pagamento da indenização às vítimas, que pode ir do teto do benefício do INSS, que é de R$ 5,6 mil, até 50 vezes esse valor, cerca de R$ 280 mil, conforme a gravidade do assédio.

CAMPANHAS ENCORAJAM DENÚNCIAS

O crescimento de ações judiciais no Brasil nos últimos anos reflete, mais do que um maior encorajamento para denunciar, os esclarecimentos sobre o que é assédio, trazidos à tona por campanhas como Me Too, Meu Primeiro Assédio e Não é Não.

— A tendência é que as denúncias aumentem ainda mais este ano, devido ao tema estar sendo tratado no mundo jurídico e pela mídia. A população está começando a compreender o conceito e perceber que não é algo a ser tolerado e sim denunciado — avalia Sofia Vilela de Moraes e Silva, vice-coordenadora nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT), onde as denúncias sobre o tema dobraram nos últimos 5 anos. Foram 340 em 2017.

Daiane Costa

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