Doméstica idosa que morreu no Rio cuidava da patroa contagiada pelo coronavírus, por Djamila Ribeiro

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Qual seria o nome dessa senhora? Os empregadores deveriam ser responsabilizados?

(Folha.com, 19/03/2020 – acesse no site de origem)

A morte de uma idosa de 63 anos, com suspeita de coronavírus, no Rio de Janeiro, no dia 17 de março, me entristeceu muito.

Segundo algumas reportagens, a senhora estava cuidando da patroa, cujo teste havia dado positivo para a Covid-19 após fazer uma viagem para a Itália. Em tudo que li, não encontrei o nome dela, sempre se referem a ela como “doméstica”. Fiquei pensando, como já escrevi aqui na coluna, sobre a solidão institucional. Se realmente for confirmado que essa senhora morreu por causa do coronavírus, os empregadores deveriam ser responsabilizados? Confesso que causou revolta isso não ser mencionado.

Quem está infectado precisa ficar em isolamento, mas seria isolamento manter uma idosa, que faz parte do grupo de risco, junto? Qual seria o nome dessa senhora que morreu?

Como estará a família? Se ela ainda trabalhava, é porque deveria sustentar ou contribuir para o sustento da família. Será que ela gostava de ir à praia, à igreja? Tinha netos?

Não é preciso dizer que os mais vulneráveis sempre serão mais atingidos —isso independe de uma pandemia. São questões estruturais. Com o corte de orçamento para políticas na área da saúde, aliado ao despreparo vergonhoso do presidente, a situação se agravou.

Claro que devemos cobrar responsabilidade dos indivíduos, sem dúvida, mas a questão principal, como bem afirmou o jurista Silvio Almeida, é a crise do capitalismo, a precarização do trabalho e de vidas, aliada ao avanço do neoliberalismo. Mas, mesmo nesse cenário, tudo vira disputa. “Fique em casa” foi uma das frases mais faladas na semana. Claro que muitas pessoas não podem ficar em casa, mas as que podem deveriam ficar.

Mas como falar para pessoas do Rio ficarem em casa e lavarem as mãos com a crise da água e algumas comunidades sem abastecimento? Saneamento e saúde são direitos. Porém, com tantas desigualdades, sabemos que se tornam privilégio de alguns. É evidente que a responsabilidade é do governo, mas os indivíduos precisam ter consciência. Parece-me que tudo vira um jogo para ver quem “viraliza” mais.

Li um post sobre uma mulher preocupada por ter de trabalhar de casa, sem escola e babá para o filho. Foi exatamente assim que escreveu. Babá vira uma coisa, um objeto, uma pessoa sem rosto, sem nome. E ainda completou: “É difícil ficar sem babá para ajudar”.

A profissão de cuidadora de crianças ainda traz os resquícios da escravidão; não é vista como profissão. Duvido que a moça em questão diga que ajuda o patrão ou a patroa, ela afirma que trabalha para uma empresa ou para alguém. Ela não vê o trabalho dela como “ajuda” e justamente por isso espera ser valorizada e reconhecida. Mas a babá é alguém que a ajuda com o filho, não uma profissional, alguém que pode ter filhos também, vida, e que está sofrendo com a pandemia. A doméstica, a secretária do lar, quase da família.

Cobram dessas mulheres uma devoção como se fizessem favores a elas. É comum ouvir pessoas dizendo que podem emprestar a empregada caso alguma pessoa da família precise. É tanta violência contida nessa frase. Seres humanos sendo tratados como coisas, objetos. Mais um resquício da época colonial, quando negros eram mercadorias vendidas e negociadas.

Ainda há aquelas que afirmam que suas empregadas escolheram não se isolar para ajudá-las, como se essas mulheres tivessem opção. E, mesmo que elas se oferecessem para ir trabalhar, visto que é um trabalho e não um quebra-galho, não seria dever da empregadora dizer que o correto seria ela ficar em casa? Claro, com seus pagamentos em dia. Se quem pode ficar em casa e tem salário fixo, ganha bem, não entender que também é um direito da empregada doméstica fazer o mesmo, do que adianta tantos textões pedindo empatia?

Voltemos à nossa mulher sem nome que morreu. Eu realmente gostaria de prestar uma homenagem a ela, fazer um obituário. Escrever seu nome e sobrenome. Minha mãe foi empregada doméstica antes de se casar com meu pai, é por isso que essas histórias me tocam tanto.

Para fazer sensacionalismo ou querer me usar de exemplo de “meritocracia”, algumas pessoas dizem: “Djamila foi filha de doméstica”. Minha mãe se chamava Erani Benedita dos Santos, nascida em Piracicaba, filha de José dos Santos e Antônia Bueno dos Santos. Mãe de quatro filhos, foi casada com Joaquim José Ribeiro dos Santos e dona de casa a maior parte da vida. Inteligente, forte. Lutou bravamente para que os filhos pudessem romper o ciclo de exclusão. Era assim que eu queria escrever sobre a idosa de 63 anos que morreu no Rio de Janeiro, se ela não fosse vítima da solidão institucional.

Djamila Ribeiro é mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.
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