Futebol, sangue, suor e machismo, por Mariliz Pereira Jorge

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(Folha de S. Paulo, 13/06/2015) Todo mundo sabe que está tendo Copa América. Mas talvez você não tenha se dado conta de que a Copa do Mundo feminina de futebol começou há uma semana no Canadá. Quase não se fala nisso. Ninguém. Nem o público nem a imprensa.

A própria Folha vem ignorando solenemente a competição. Abro o jornal, nada. Entro no site, nada. Me pergunto se a imprensa ignora por falta de interesse do público ou se o público acaba não se interessando em razão da cobertura pífia.

Leia mais: Por que as conquistas históricas do futebol feminino não saem na mídia? (Brasil de Fato, 13/06/2015)

Ouvi de um jornalista esportivo que futebol feminino é chato. Chato para mim é marmanjo chorar em campo e perder de lavada em casa. Chato e vergonhoso. Enfim, tive que apelar aos sites gringos para saber alguma coisa.

Não se fala de outra coisa. Os jogos estão sendo disputados em grama sintética. Isso nunca aconteceu quando os homens estão em campo.

No Canadá fica evidente o porquê. Gramado sintético é feito de borracha e plástico, que muda a característica do jogo e afeta o desempenho das jogadoras. Para pior, claro. Ninguém estaria reclamando se houvesse algum benefício.

Tem mais: durante o uso, a temperatura desse material sobe. O que explica porque fazia 50°C no campo enquanto a temperatura em Edmonton, onde China e Canadá jogavam no sábado passado, era de 24ºC. Não se trata apenas de desconforto. Significa que a saúde das atletas está sendo colocada em risco.

Segundo uma pesquisa da Universidade de Nevada, nos EUA, praticar esportes num calorão desse é totalmente fora de recomendação.

Há outros problemas. Na grama natural, o jogador que leva um tombo ou escorregão, levanta, limpa o short e volta para a partida. No piso sintético, o material pode arrancar a pele do atleta, causar assaduras e queimaduras.

A Fifa, que já chegou a sugerir que as atletas usassem shortinhos curtos e justos, está tendo que ver as jogadoras apelarem para meiões e bermudas de lycra embaixo do uniforme como proteção.

No final do ano, cerca de 60 atletas, entre elas a brasileira Marta, cinco vezes a melhor do mundo, entraram na Justiça do Canadá contra a Fifa e a Federação Canadense de Futebol pelo direito de jogar em gramados naturais. Senadores americanos intervieram pelas atletas, que acabaram desistindo do processo.

Por aqui, nenhum pio da CBF sobre os gramados canadenses, nenhum esforço para que o Mundial tenha mais visibilidade. Futebol de mulher, não é mesmo? No começo do ano, Marco Polo Del Nero encheu a boca para contar que, pela primeira vez na história do futebol nacional, as atletas da seleção feminina tinham salários fixos de R$ 9.000.

Como diria meu pai, dinheiro de pinga. Ainda mais se compararmos com os dirigentes da CBF, que recebem salários milionários e não estão suando sangue pra representar seu país numa competição. Ainda mais se compararmos com os valores que envolvem a equipe masculina. Aquela que protagonizou o maior vexame do futebol brasileiro.

A seleção das garotas só vai virar notícia se começar a ganhar e chegar à final no dia 5 de julho, em Vancouver –onde eu gostaria de estar. Mesmo no futebol feminino, são os homens os donos da bola, tanto os que escolhem um gramado de merda quanto os que pautam as notícias, ou a falta delas.

Se isso tudo não é machismo, gostaria de saber o que é.

Acesse o PDF: Futebol, sangue, suor e machismo, por Mariliz Pereira Jorge (Folha de S. Paulo, 13/06/2015)

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