Mulheres deixam de trabalhar para cuidar da família e estudar

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(O Globo, 07/09/2014) Após recorde em 2005, participação feminina no mercado cai para 50%, abaixo da média internacional de 60%

As mulheres têm mais autonomia, cada vez menos filhos, são mais escolarizadas que os homens, alçaram voo na política.

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Era de se esperar que fossem ampliar sua presença no mercado de trabalho, mas esta vem diminuindo. Para a economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) Sonia Rocha, que tem se dedicado a investigar o declínio da taxa de desemprego nos últimos anos, a principal explicação é o aumento da renda familiar.

Ela subiu 38% em termos reais na última década e fez com que muitas optassem por cuidar dos filhos e estudar, deixando de lado o trabalho.

A participação das mulheres no mercado de trabalho cresceu entre 1992 e 2005, quando alcançou o auge: 52,9% das brasileiras acima de 10 anos de idade ativa estavam trabalhando ou em busca de emprego naquele ano. A partir de então, a presença feminina passou a cair até os atuais 50,1%, bem inferiores à média internacional, em torno de 60%. Já a parcela dos homens passou de 76,6% em 1992 para 70,3% em 2012.

– A falta de progresso na inserção das mulheres no mercado de trabalho é indesejável. Hoje elas têm mais chance de se inserir que no passado – diz Sonia.

Segundo a economista, a opção de homens e mulheres por não trabalhar nem procurar emprego tem sido determinante para a redução das taxas de desemprego desde 2009. Hoje a taxa está entre as mais baixas da série – 4,9% em abril para as seis regiões -, e a eventual volta das mulheres ao mercado poderia exercer uma importante pressão para o indicador subir.

Apesar de melhor, o mercado não se mostrou suficientemente atraente para reter pessoas como a médica carioca Claudia Santos. Ela estava no auge da carreira como gerente do serviço de saúde de uma grande empresa de petróleo, quando, há cinco anos, decidiu sair. Colecionou ao longo da carreira especializações, mas a rotina de trabalho, que chegava a 12 horas por dia, pesou. Ela se sentia culpada por não acompanhar de perto o crescimento das duas filhas. A folga no orçamento doméstico, que surgiu com o bom momento da empresa de equipamentos hospitalares do marido, foi a deixa.

– Agora uso meu tempo para cuidar do meu marido e dos meus pais, que já são idosos. Sem falar na casa e nas minhas filhas.

Gosto muito de viajar, e tenho lido bastante, sempre buscando aprender mais – afirma Claudia.

Números

50,1% PARCELA DE MULHERES NO MERCADO como ocupadas ou à procura de emprego

38% DE AUMENTO DA RENDA FAMILIAR influenciou a saída das mulheres do mercado

A pedagoga Paula Janaína da Silva também esteve fora do mercado por duas vezes nos últimos dez anos, com o objetivo de estudar.

Em 1995, quando a mãe morreu, sem recursos, teve de se tornar empregada doméstica para sobreviver. Tinha 18 anos, ensino médio completo e a vontade de continuar estudando. Em 2004, conseguiu entrar na universidade, com a ajuda das cotas. Dois anos depois, obteve uma bolsa: largou o trabalho de doméstica. Voltou ao mercado ajudando empreendedores a abrirem seus negócios. Mudou-se para Brasília, onde conheceu o marido e fez um mestrado.

Voltou para o Rio, mas está de malas prontas para retornar ao Distrito Federal, onde vai prestar concurso público e esperar pelo nascimento do segundo bebê.

– Lembro que uma amiga doméstica me disse uma vez, chorando, que a patroa tinha reclamado porque ela não sabia a diferença de uma taça de vinho e uma de água. Eu disse “sua patroa tem o direito de cobrar, vá fazer um curso de garçom”. Ela foi e hoje presta serviços – diz.

Para a economista da UFF Hildete Pereira de Melo, o movimento de saída de mulheres do mercado é localizado no Nordeste, onde a renda é mais baixa.

– Existe um aumento do rendimento das famílias também em função das transferências, e ocorre uma escolha racional pelo não trabalho. No caso das mulheres, existe um trabalho invisível com os afazeres domésticos – afirma Hildete.

MELHORA NÃO RETIROU DESIGUALDADES

E o mercado de trabalho continua desigual para as mulheres. Outro estudo da pesquisadora Lena Lavinas, da UFRJ, apresentado no Colóquio França-Brasil, mostra que, no mercado formal, apesar das melhorias dos últimos anos, as desigualdades salariais entre homens e mulheres permanecem ou até se acentuam.

Em 2001, as mulheres ganhavam em média 87% da remuneração masculina por hora e agora recebem 86,6%.

Segundo Lena, períodos de crescimento econômico não favorecem o trabalho feminino: privilegiam o masculino. Quando a economia desacelera, as mulheres têm mais destaque, talvez por conta do rendimento mais baixo, que barateia os custos para as empresas.

– A formalidade é boa para as mulheres, mas existe uma dimensão estrutural, relacionada à discriminação, e essa não mudou.

Clarice Spitz

Colaborou João Laborne

 

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