Mulheres, futebol e patriarcado: com que direito excluímos e negamos a participação da mulher como agente principal do futebol?

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(Opera Mundi, 01/03/2016) Em fevereiro, torcedoras do Atlético Mineiro denunciaram que clube objetifica corpos femininos; em janeiro, Messi ganhou a Bola de Ouro pela 5ª vez, Marta realizou a façanha antes. Ele ocupou as manchetes, ela não

Em meados de fevereiro as torcedoras do Atlético Mineiro publicaram um manifesto denunciando a “maneira objetificada e apelativa” que as mulheres foram tratadas no evento de lançamento do novo uniforme do clube. Isso porque enquanto os homens desfilaram com os trajes de jogadores de futebol, as mulheres subiram na passarela com roupas de banho e peças íntimas, expondo o corpo. Para as torcedoras, elas foram tratadas como “peça de enfeite de estádio, encomendadas para agradar o público masculino”.

Em 2015 foi a primeira vez nos últimos 12 anos que Marta não foi indicada ao prêmio de melhor jogadora do mundo (Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Pouco antes, em janeiro, o argentino Leonel Messi ganhou pela quinta vez o prêmio de melhor jogador de futebol do mundo. A notícia correu o mundo e muito se comentou sobre as habilidades únicas do craque. Mas, bem antes dele, Marta Vieira da Silva já havia ganhado o prêmio cinco vezes, quando nenhum outro homem ou mulher o fizera, mas poucos sabem disso. O mundo guardou silêncio, não houve nenhuma celebração.

A jogadora não foi perseguida por jornalistas e paparazzis e ninguém a achou sobrenatural. Quem ainda não viu Marta jogando perdeu uma das maravilhas humanas dos últimos tempos: qualidade, talento, magia e entrega na sua máxima expressão. Uma obra de arte. Marta, com uma bola de futebol nos pés, é a essência de um poema. Porém é mulher e nesta sociedade patriarcal, as mulheres no mundo dos esportes continuam sendo invisíveis ainda mais em práticas como futebol, karatê, judô, taekwondo, triátlon, boxe e atletismo.

Sobre o tema, a Revista Samuel reproduz artigo publicado originalmente pela revista argentina Marcha sobre futebol, misoginia e patriarcado:

Misoginia made in Fifa

A simples cerimônia da Fifa e a Bola de Ouro no futebol feminino é um claro exemplo de quão imperceptível é a mulher no esporte mais famoso do mundo. Nesta última edição, quem ganhou a Bola de Ouro foi a norte-americana Carli Lloyd. Quem assistiu o último Mundial Feminino de Futebol saberá que havia qualidade entre as jogadoras de todos os países participantes para que qualquer uma delas recebesse o prêmio. O reconhecimento à treinadora do ano foi para Jill Ellis. No entanto, o mundo festejou Luis Enrique Suárez e Messi.

Quanto o futebol feminino contribuiu para a igualdade de gênero em nossa sociedade? Quanto ele contribuiu para derrubar preconceitos e estereótipos? E a saúde emocional e física de milhões de meninas, adolescentes e mulheres? Porque o futebol é paixão, adrenalina, entrega e amor. A bola muda os papéis e coloca a mulher como um ser ativo, em igualdade; no entanto, a colocam como objeto sexual, como é o caso das líderes de torcida e tudo o que tem a ver no mundo da divulgação dos esportes: marginalizando a mulher como simples espectadora.

O futebol também violenta as mulheres, como ocorre nos casos de exploração sexual, principalmente quando está em disputa um clássico ou um campeonato internacional, como a Copa do Mundo. O enfoque é sempre o homem. A mulher é vista como entretenimento (em todos os níveis) que deve fornecer prazer sexual para o espectador quando ele sai do estádio e vai em busca do exótico seja para comemorar a vitória ou para minimizar a derrota.

Em junho de 2014 foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o Espaço Futebol para Igualdade no Museu da República (Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Na última década, a Fifa começou a abrir espaços para as mulheres, mas sempre com migalhas. Quanto a Fifa investe no futebol masculino? E no feminino? Qual é o salário de um juiz? E o de uma juíza? E a hospedagem? E os campos? E o recurso humano? E os recursos materiais? Um ponto muito importante e questionável é o campo sintético em que jogaram nesse último Mundial Feminino, incapacitado em sua totalidade para a saúde física e emocional das jogadoras.

A Fifa permitiria realizar um Mundial Masculino em campos sintéticos? Nunca. Porém a Fifa apenas é a ponta do iceberg.

Jogadoras desde criancinhas

Saindo um pouco do esporte de elite, esta realidade de miséria nos faz questionar o que fazemos nós como sociedade para derrubar os estereótipos em relação à mulher e o futebol? Continuamos acreditando que sua participação em esportes de contato deve ser proibida? Ela será menos mulher praticando-os? Em que sentido? É menos mulher alguém que pratique futebol em relação a alguém que faz balé ou nado sincronizado? Que faremos com as milhares de meninas que querem jogar futebol em vez de brincar com bonecas e casinha? Vamos continuar cortando as asas? Continuaremos negando a capacidade de uma mulher para dirigir jogos de homens, como treinadora, médica particular, preparadora física e árbitra? Por que não negamos a capacidade dos homens em jogos de mulheres?

Em países em desenvolvimento, os homens ainda continuam sendo os encarregados de tudo o que tem a ver com o futebol feminino: por acaso ainda não está em tempo de abrir as portas para a participação da mulher? Uma mulher é questionada em sua capacidade se ela se veste de árbitra, porém é aplaudida se entra no campo em um jogo como líder de torcida.

E o que dizer das companheiras sentimentais dos jogadores, que ocupam o papel de musas, modelos, que respiram e vivem por eles, que sonham por eles, que vivem a vida deles e não a sua própria vida… Que existem em torno deles… Uma frustração pessoal porque sempre será a esposa, a noiva, a companheira de fulano. Sempre serão o troféu de exibição.

O que fará o Ministério de Educação com o futebol como meio nas aulas de Educação Física? Que fará como ferramenta de atividades extracurriculares? O que fará o Ministério da Cultura e o de Esportes com essa disciplina esportiva e a participação da mulher? O que fará a televisão mundial e as marcas esportivas e tudo o que rodeia o esporte mais bonito do mundo?

E nós? O que faremos de nossos lugares para que o futebol deixe de ser um tema tabu em relação à participação feminina? Que carências, xingamentos, barreiras uma menina, adolescente ou mulher tem de enfrentar para jogar futebol? Um esporte lindo, que nos enche de alegria, que nos alenta com sua paixão, com seus poemas soltos em cada gol, em cada jogada magistral, em cada campeonato. Esse esporte que consegue nos reunir, que nos faz gritar, pular e brindar, com o qual festejamos a paixão das paixões. Com que direito excluímos e negamos a participação da mulher como agente principal disso tudo?

Comandadas pela atacante Marta, as brasileiras golearam as chilenas por 5 a 0 e se tornaram tetracampeãs do Torneio Internacional de Futebol Feminino em 2013 (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

Ilka Oliva Corado

Acesse no site de origem: Mulheres, futebol e patriarcado: com que direito excluímos e negamos a participação da mulher como agente principal do futebol? (Rádio ONU, 01/03/2016)

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