Pesquisadora americana avalia que discriminação da mulher no trabalho durará séculos

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(Época, 08/02/2015) A pesquisadora americana acha que as mulheres são discriminadas no trabalho – e essa situação perdurará pelos próximos 300 anos

O interesse da advogada e historiadora Joan Williams pelo tema mulher e trabalho surgiu no primeiro dia de aula na Faculdade de Direito da Universidade Harvard, em 1974. Não havia outras mulheres na classe. “Muitas se inscrevem, mas elas não são qualificadas o suficiente”, disse o reitor. “Nos anos em que passei em grandes escritórios de advocacia, constatei que podíamos ser eficientes, mas nunca seríamos ‘qualificadas o suficiente'”, diz Joan, que se tornou uma estudiosa do assunto. Ela fundou o Centro de Trabalho, Vida e Direitos na Universidade Hastings e escreveu nove livros. No mais recente, What works for women atwork (O que funciona para mulheres no trabalho), Joan disseca padrões de comportamento que descobriu em mais de 30 anos de pesquisa.

ÉPOCA – Em sua pesquisa, a senhora identificou padrões de comportamento no ambiente de trabalho que dificultam a ascensão profissional das mulheres. Como chegou a essas conclusões?

Joan Williams – Mergulhamos em 35 anos de estudos sociológicos e de psicologia social sobre as relações de mulheres e de homens, separadamente, com o ambiente de trabalho. Rastreamos problemas, resultados e padrões de ascensão e de estagnação de carreira. Depois, montamos um grupo com 127 executivas de empresas da lista das 500 maiores da (revista americana) Fortune, com quem trabalhamos por mais de três anos. O objetivo foi confrontar padrões da pesquisa com o que ocorre hoje e saber como elas agem para contorná-los.

ÉPOCA – Há dois anos, a escritora Hannah Rosin escreveu o livro The end ofman ( O fim do homem), um sucesso de vendas. Ela defende que as mulheres serão mais valorizadas e ganharão mais que os homens em poucos anos. O que a senhora acha dessa tese?

Joan – The end of man é um livro tolo, que se baseou em pesquisas com trabalhadores braçais para tirar conclusões gerais. O mais perto da realidade que a tese de Hannah chegou foi identificar que, nos próximos anos, o papel do homem e da mulher entre trabalhadores braçais mudará. Isso ocorrerá por uma questão simples: essa classe tende a desaparecer em países desenvolvidos. Não é uma questão de gênero.

ÉPOCA – Todas as executivas do grupo de trabalho enfrentaram os preconceitos identificados na pesquisa?

Joan – Para ser exata, 96% delas passaram por pelo menos três dos quatro padrões que identificamos, muitas vezes. É curioso como algumas atitudes ocorrem com frequência para todas elas. A “ideia roubada” ou “síndrome da lagar-ta-borboleta” foi uma delas. Ocorre quando uma mulher faz uma sugestão que é posta de lado, ignorada, como se faz com uma lagarta no caminho. Então, um colega homem percebe o potencial daquela ideia, a traz à tona novamente e é tratado como… Einstein. A mesma ideia que é ignorada na voz de uma mulher é supervalorizada na boca de um homem.

ÉPOCA – Quais são os quatro padrões?

Joan – O primeiro chamamos de “Prove Novamente!” Trata-se do fato de as mulheres terem de fazer muito mais que os homens para ser vistas da mesma forma. Homens podem ser promovidos pelo potencial que mostram em algumas situações, enquanto mulheres só são promovidas pelo desempenho comprovado em muitos trabalhos. O segundo é o “Corda Bamba”. Há uma série de comportamentos tidos como masculinos. E outros femininos. A mulher, ao contrário do homem, tem de se preocupar para não ser identificada demais com nenhum deles, sob o risco de ser estereotipada como mandona (ou bruxa, em casos extremos) ou como mulherzinha (ou chorona, em casos extremos). Ela deve fugir desses estereótipos porque eles terão impacto negativo em sua ascensão profissional.

ÉPOCA – Quais são os outros dois padrões de preconceito que a senhora identificou?

Joan – Outro deles foi o “Muro da Maternidade”. É discriminação pós-parto, que vem da ideia de que essas profissionais se tornarão menos produtivas e menos comprometidas com a chegada dos filhos. Uma pesquisa feita com milhares de profissionais dos Estados Unidos mostra que as chances de uma mulher com filhos ser contratada é 79% menor do que a de uma mulher com o mesmo currículo e sem filhos. Na mesma situação, as chances de um aumento é 50% menor. Num grupo de grandes corporações globais, as diferenças em relação à remuneração são gritantes.

Mulheres com filhos ganham, em média, US$ 11 mil a menos por ano que mulheres, no mesmo cargo, com o mesmo tempo de empresa e sem filhos. Por fim, temos o “Cabo de Guerra”. Analisamos os comportamentos que levaram à famosa ideia de que as mulheres são mais competitivas em relação a seus pares femininos do que os homens em relação a outros homens.

A verdade é mais complexa. Mulheres que sofreram muita discriminação no início de sua carreira tendem a se afastar de outras mulheres no ambiente do trabalho. E uma tentativa inconsciente de não fazer parte daquele grupo inferior. E a dinâmica de competição feminina ocorre em organizações em que há poucas, ou não há, mulheres nos cargos de comando. A ideia que esses ambientes transmitem é que são raras as oportunidades para elas crescerem. É natural que isso incentive o comportamento do tipo: “Se só há espaço para uma mulher, que seja eu”.

ÉPOCA – Sheryl Sandberg, diretora do Facebook, no livro Faça acontecer, defende que a mulher ouse, cobre e chame responsabilidades para si, como os homens. Isso não funciona para todas as mulheres?

Joan – Esse comportamento não funciona para a grande maioria das mulheres. As que agem como homens são malvistas. Estudos comprovaram que as mesmas atitudes encaradas como atos naturais e positivos de liderança em homens são avaliadas como ações exageradas e negativas em mulheres. As profissionais são criticadas por não negociar salários. No entanto, se o fazem, são vistas com antipatia, como arrogantes. Esse tratamento só muda se a mulher revelar alguma razão altruísta para o pedido de aumento, como tratar o pai doente. Um homem não precisa de nenhum pretexto para querer ganhar mais. Está no direito dele pedir.

ÉPOCA – Como é possível combater esses padrões?

Joan – Não há como combatê-los. Seu chefe pode ser o cara mais legal do mundo, alguém que nutre uma admiração profunda pelas figuras femininas de sua vida, e, ainda assim, ele dará mais chances de ascender aos homens do que a você. O que se pode fazer é um gerenciamento de danos.

ÉPOCA – Como se faz isso?

Joan – O primeiro passo é perceber quando a discriminação ocorre e atuar de forma consciente. Lembrar que não é culpa sua ajuda a lidar com tudo isso de forma mais leve. Para evitar que algum estereótipo grude em sua imagem, é importante se policiar. Quando tomar uma atitude masculina, como cobrar alguém, faça de forma suave. Nós, mulheres, não podemos nos dar ao luxo de simplesmente ficar bravas, ainda que tenhamos razão para isso. Policie-se também para não parecer generosa demais, emotiva demais, protetora demais. Imagine que você está numa corda bamba e mantenha-se atenta.No caso da maternidade, uma estratégia que se mostrou eficiente entre as mães executivas foi conversar com o chefe sobre as metas para o próximo ano. É um jeito de mostrar que você está comprometida.

ÉPOCA – Tenho um casal de filhos. Tento educá-los para que se enxerguem como iguais em potencial e direitos. Meu filho de 9 anos tende a ser um homem mais justo com as mulheres no trabalho? Minha filha de 7 anos tem mais chance de não enfrentar preconceitos? Joan – Não, para as duas perguntas.

ÉPOCA – Então a educação não tem impacto na prevenção do preconceito?

Joan – A educação que você dá em casa para seu filho faz diferença. Ele não verá a mulher dele ou a irmã como alguém inferior. Terá amigas mulheres que valorizará tanto quanto aos homens. No ambiente de trabalho, no entanto, a supremacia masculina é uma cultura tão forte que é assimilada de forma automática e inconsciente. E por isso que muitos homens não assumem que exista discriminação com as mulheres. Eles não se enxergam participando disso. Mas participam. Em qualquer empresa com metas mensuráveis, é evidente que as mulheres precisam fazer mais do que os homens para ser vistas da mesma forma. Hoje, a maioria das mulheres ganha menos que seus colegas que estão no mesmo cargo. Observe isso em seu trabalho.

ÉPOCA – Há algum tipo de cálculo possível para saber quanto tempo levará para ocorrer uma mudança real de mentalidade?

Joan – Na verdade, existe. Trabalhamos com um modelo matemático baseado em mudanças sociais importantes que já ocorreram e temos um número: em 370 anos, as mulheres podem vir a ser vistas em pé de igualdade com os homens. Nem sua filha nem suas netas viverão isso.

Flávia Yuri Oshima

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