A pastora e o feminismo de butique, por Mariliz Pereira Jorge

Ato contra Feminicídio

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

06 de maio, 2026 Folha de S. Paulo Por Mariliz Pereira Jorge

  • Helena Raquel resolveu o debate: ‘Machão que prega e soca a mulher em casa existe e nós sabemos’
  • Perfil de quem mais apanha e morre é de negra, pobre e periférica, aquele que muitas vezes o feminismo branco ignora

Em mais de dez anos escrevendo sobre todas as questões femininas, levei uma rasteira da realidade. Enquanto eu e minhas coleguinhas de uma bolha muito privilegiada gastamos o latim em podcasts e reuniõezinhas fechadas, patrocinadas por marcas de sabonete, e discutimos empoderamento como se fosse um acessório de luxo da marca “white feminism”, a pastora Helena Raquel resolveu o debate com três minutos de honestidade brutal.

O palco não era um auditório climatizado em Pinheiros, mas o 41º Gideões Missionários da Última Hora, em Camboriú (SC) —o epicentro do conservadorismo evangélico popular. Falar ali, para uma centena de milhares de presentes e outros milhões online, que “quem agride mata” e que “pedófilo não é ungido”, é uma revolução. A pastora meteu o pé na porta do púlpito e avisou: “Machão que prega e soca a mulher em casa existe e nós sabemos”.

Helena Raquel chegou onde Maria da Penha sozinha não alcança. Ela fala para a mulher que não lê bell hooks, mas que ouve o pastor toda semana. E os números mostram que o alvo dela é certeiro. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram violência doméstica —uma taxa muito maior que a das católicas.

O perfil de quem mais apanha e morre é o da negra, pobre, periférica ou do interior, aquele que o feminismo branco ignora na maioria das vezes em seus discursos ensimesmados. Para a escritora Koa Beck, um movimento que virou uma estratégia de aperfeiçoamento individual. Eu diria “vaidades individuais”.

Estamos todas muito ocupadas discutindo uma rotina mais produtiva ou o medo de andar de Uber Black para enxergar a mulher do culto, sem renda própria e presa a dogmas que a elite acha “atrasados”.

Algo novo aconteceu, e veio de onde o feminismo dos Jardins nem esperava. A direita sempre negligenciou o tema, tratando o feminicídio como histeria feminista. Abriu um vácuo, ocupado pela esquerda, que transformou a proteção à mulher em bandeira ideológica. Coube a uma crente lembrar o óbvio: violência contra a mulher não tem partido.

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