Movimento avança em meio à onda de casos de violência de gênero no país, com recorde de feminicídios.
Às 8h22 de 23 de maio, um homem aproveitou a saída de um morador para invadir o prédio e o apartamento de Jéssica Soares, em Barueri (SP). Durante 13 minutos, a nutricionista lutou contra o desconhecido, que tentava agarrá-la e tirar suas roupas. Ele acabou preso, e ela passou a alertar outras mulheres de como técnicas aprendidas em aulas de defesa pessoal foram vitais para evitar algo mais grave.
— Escolhi não deixar que essa dor fosse em vão e transformar esse momento em força para proteger outras mulheres — destacou Jéssica no convite para um aulão gratuito em Fortaleza.
Como a nutricionista, várias mulheres já vinham buscando lições de Krav Maga, jiu-jítsu, muay thai, entre outras atividades, para se sentirem mais seguras e preparadas ante situações do tipo. Segundo instrutoras e alunas, o movimento avançou do ano passado para cá, em meio à onda de casos de violência de gênero no país. Em 2025, houve recorde de feminicídios (salto de 14,5% em cinco anos) e um estupro a cada seis minutos, fora as agressões.
Desde que foi abusada na adolescência, Andreza Marques queria aprender defesa pessoal. Há três meses, aos 36 anos, viu nas redes sociais um projeto 100% feminino da Academy JJ com a Secretaria de Estado do Desporto e Lazer do Amazonas. Iniciou os treinos, que combinam rodas de conversa e orientações de como se portar em caso de ataque.
— A vantagem é saber como proceder, melhorar relacionamentos. Fui competir para me desafiar e preparar a mente para o combate real — diz a enfermeira, que saiu campeã neste mês da Copa América Jiu-Jítsu.
Técnicas de fuga
A instrutora Noemi Quadros, de 19 anos, detalha que o foco das aulas não é o enfrentamento na força bruta, mas sim, a identificação de riscos e o ensino de técnicas de fuga. E também o incentivo mútuo e a troca de histórias de superação, como a dela, que viu o irmão ser morto há quatro anos:
— Até hoje sofro, mas tento processar o luto e conseguir ajudar as outras. A gente não luta contra um homem, a gente luta para se defender se ele te segura, te puxa para um carro ou fica por cima te enforcando.
Noemi e a professora Waleska Castro rodam o interior do Amazonas para atender à crescente e variada demanda, de senhoras evangélicas que podem lidar com situações de risco em igrejas a jovens alunas, em escolas.
Entre as modalidades, uma das mais procuradas é o krav maga, defesa pessoal gestada no Exército israelense que se espalhou pelo mundo. Hoje, três em cada dez praticantes da Federação Sul-Americana são mulheres. Uma delas é Isabela Zeni, que começou a treinar em Caçador (SC) após sofrer um assalto, em 2023.
— Saber se defender deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade — relata ela, de 34 anos.
O Krav Maga prevê técnicas para todo tipo de agressão, armada ou não. Os movimentos buscam atingir partes sensíveis do corpo do agressor, como nariz, garganta e genitália, para driblar a desigualdade de tamanhos e forças e evitar lesões. Fabiana Soares, de Niterói (RJ), aderiu às aulas há 17 anos. Com 1,56m de altura, precisou aplicar lições duas vezes, na rua e no ônibus.
— Na primeira, dei um golpe de cotovelo na boca dele. Em outra, no ônibus, uma pessoa puxou minha bolsa e falou “perdeu”. Mordi o pescoço. Consigo notar de onde vem a ameaça.
Louise Nobre, de Fortaleza, e Letícia Lucca, de São Paulo, reforçaram os treinos após ouvirem notícias de violência e relatos de amigas, com posições de ataque e defesa e simulações de situações reais. A cearense de 32 anos conta que parou de agir por impulso.
— É um “superpoder” de enxergar situações antes de chegarem a nível mais grave. Não nos torna invencíveis, mas preparadas.
Já Letícia, de 37 anos, aprendeu a evitar ser encurralada num elevador — onde outra mulher, Juliana Garcia, levou 61 socos do então namorado, em Natal, em 2025 — e a reagir quando homens pegam seu braço numa festa.
— Me sinto empoderada e, de quebra, gasto calorias.
A professora Julia Veloso se matriculou no muay thai para descontar o estresse do trabalho. Conforme o corpo mudava, e a autoestima melhorava, virou também “jiujiteira”, como a irmã — desde setembro, perdeu 10 quilos.
— Falam que, na luta, as meninas ficam masculinas. Pelo contrário. Encontrei a minha feminilidade. Comecei a me amar. Já fui ameaçada por pais de alunos e só sabia chorar. Hoje fico segura para manter o mesmo tom.
Na Flexa Jiu-Jítsu, em Niterói, onde Julia treina, já na primeira aula as alunas precisam fugir, como conseguirem, de uma cena simulada de agressão. A lição é não revidar e nunca reagir a ataques armados, mas se afastar do agressor e pedir ajuda. A professora de educação física Mariana Serrão disse que, no começo, estranhou lutar com homens. Logo se acostumou e percebeu a importância dessa troca.
— Depois que você vem para o jiu-jítsu, seu ego muda. Todo mundo é igual, se ajuda. Estou aqui com cílios e cabelos feitos. Se fiquei mais bruta, só cabe a mim.
Política de estado
Yvone Duarte, mulher mais graduada do mundo na prática introduzida pela família Gracie no Brasil, ressalta que a luta exercita o autocontrole e a dosagem da força, na hora necessária. A psicóloga se preocupa com o boom do mercado:
— A gente não pode vender o medo nem jogar mais uma responsabilidade para a mulher. A defesa pessoal tem que ser mais um dispositivo numa rede de proteção, uma política de Estado, com educação, policiamento, tecnologia e mais. Se tudo falhar, é último recurso.
Há dez anos, a faixa coral mantém um projeto social na Universidade de Brasília (UnB) e faz oficinas pelo país. Nas aulas, debate maternidade, casamento, trabalho, preconceito estrutural e ensina técnicas contra estrangulamento e ataques a faca. Mas sempre as adapta à realidade das alunas, sejam funcionárias da ONU que se deslocam até áreas remotas ou em conflito, sejam indígenas que precisam reagir a roubos de canoas ou abusos de maridos bêbados.
— Para adolescentes, indico não ficarem no celular na rua para ver se alguém está seguindo. Em comunidade quilombola, expliquei como reagir a abordagens por trás. Uma filha olhou para a mãe: “Se a gente soubesse disso, não teria sofrido aquilo”. As duas haviam sido abusadas. É duro lembrar.