Especialistas apontam necessidade de ações junto aos jovens para prevenir violência contra as mulheres

1959
0
Compartilhar:
image_pdfPDF

(Géssica Brandino e Tainah Fernandes/Agência Patrícia Galvão, 21/05/2015) Ações educativas nas comunidades e escolas, reação à proliferação de atos violentos nas mídias sociais, na propaganda e na internet e desconstrução de estereótipos de gênero que ditam padrões de feminilidade e masculinidade são caminhos apontados por especialistas no 1º Seminário Internacional Cultura da Violência contra as Mulheres, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Vladimir Herzog em São Paulo, no eixo de debate sobre juventude e a cultura de violência contra as mulheres, nesta quarta-feira (20/05).

A palestra que abriu os trabalhos desse eixo coube a Marai Larasi, ativista em mídia, juventude, gênero e violência há 20 anos e diretora executiva da Imkaan, organização não-governamental feminista negra sediada no Reino Unido.

[easyrotator]erc_13_1432911564[/easyrotator]

Leia mais:
Presidente da CIDH chama atenção para a invisibilidade da violência institucional (Agência Patrícia Galvão, 25/05/2015)
O papel da mídia na superação da cultura de violência contra as mulheres (Agência Patrícia Galvão, 22/05/2015)
A importância de valorizar os diferentes marcadores para enfrentar a violência sexista (Agência Patrícia Galvão, 21/05/2015)

“A violência contra as mulheres tem causa na violência de gênero. E para muitas mulheres e meninas a violência é a norma”, disse a ativista inglesa, que foi educada na Jamaica.

Marai Larasi ressaltou também a intersecção entre violência de gênero, racismo, discriminação de pessoas com deficiência e homofobia.  A ativista lembrou como essa cultura de violência carrega em si o impacto da colonização de povos inteiros sobre o comportamento dos homens, ao colocar a agressividade como algo aceitável e necessário.

Estereótipos de gênero

No Painel “Elementos para uma Cultura de Não-Violência contra as Mulheres entre Jovens”, a antropóloga Maria Luiza Heilborn, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora do CLAM (Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos) do Instituto de Medicina Social da UERJ, explicou que o comportamento violento de vários homens é sustentado pelo conceito de masculinidade hegemônica, calcado no controle e exercício da força sobre a mulher. “O homem tem que ser machão, viril. Aquele que age de forma diferente, não tem o comportamento esperado pelos outros, é feminilizado e diminuído”.

Ao mesmo tempo, também existe uma pressão social contra as mulheres. “As meninas são incitadas a se hipersexualizarem para chegarem a uma feminilidade hegemônica”, aponta a antropóloga.

DSC07090Professor da Universidade de Brown (EUA) e pesquisador sobre masculinidades do Colégio de México, o painelista Matthew Gutmann elencou exemplos de modelos sociais que permitem a perpetuação dessa masculinidade hegemônica, como o argumento de que os homens são animais e portanto são agressivos por natureza e o senso comum, reforçado pelo discurso midiático, de que o homem deve ter o maior número possível de relacionamentos. “Devemos entender que não se trata de uma ‘questão biológica’, do instinto animal, que faz com que os homens se comportem desta maneira”, salienta o professor.

Heilborn lembrou que um dos ritos que reafirmam essa concepção de masculinidade é a iniciação sexual, fato que é amplamente divulgado pelo rapaz, e por vezes também seus familiares, entre todos os conhecidos para provar a masculinidade e a superioridade sobre o feminino. “Essa ideia de controlar é o que constitui o cerne da questão da violência no Brasil. A necessidade de exercer esse controle moral e sexual sobre a vida da mulher e da menina é o que leva o jovem a divulgar fotos íntimas da ex-companheira ou colega, ou difamá-la nas redes sociais porque ela quis terminar o relacionamento ou não quis iniciar um”.

Novas formas de perpetuação da violência

A divulgação de imagens pelas redes sociais é uma das novas formas de violência para a qual a sociedade precisa estar atenta, aponta Marai Larasi. “É fundamental entender o inimigo que, com a tecnologia, hoje é um pouco diferente”.

Para a ativista é fundamental pensar no espaço virtual como um novo espaço de violência, como a rua ou a casa, e no que pode ser feito para proteger as meninas e adolescentes que sofrem agressões por meio da internet. “Não educamos as pessoas a se comportarem no ambiente virtual. Temos uma área cinzenta e precisamos conversar sobre isso”. Ela falou também sobre o fato de a rede virtual facilitar a desumanização do outro. “É preciso desumanizar a pessoa para agredi-la e a internet permite que se faça isso de diferentes formas”.

A antropóloga e pesquisadora Maria Luiza Heilborn lembrou que o sexismo também está presente na publicidade brasileira, especialmente nas propagandas de cervejas e automóveis, que vendem, respectivamente, os corpos de mulheres e a ideia de agressividade dos homens no trânsito como exemplos de virilidade.

No Reino Unido, Marai conta que são frequentes mensagens propagadas com o intuito de destruir a noção de consentimento, dizendo aos homens que eles têm o direito de violentar mulheres, além de promover o consumo de pornografia, como o caso de um game no qual os jogadores podem roubar, agredir e assassinar prostitutas, e músicas que incentivam o estupro e a objetificação das mulheres, como Blurred Lines, de Pharrell Williams, e Drinking from the Bottle, de Calvin Harris.

Reflexo da cultura de violência

No último ano, uma série de denúncias de estupros, abusos sexuais e trotes violentos contra mulheres, negros e homossexuais na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo levantou a urgência de um amplo debate sobre violência de gênero, racismo, machismo e homofobia para desconstruir uma prática institucionalizada.

“A USP costumava abafar casos de estupro e violência. Hoje esses casos são de conhecimento público porque as vítimas têm mais voz para denunciar, mais apoio, apesar de algumas ainda preferirem não levar o caso à justiça por conta da culpabilização e da vergonha”, relatou a antropóloga da Universidade de São Paulo Heloísa Buarque de Almeida, que integra a rede de apoio às alunas e alunos vítimas de violência sexual e de gênero nos campi da instituição, que recebeu o nome de “Quem cala consente?”.

“Houve uma mudança de sensibilidade geracional, uma mudança de linguagem na abordagem desses casos”, afirma a professora, lembrando que a cultura do trote presente na Universidade reflete os padrões reproduzidos na sociedade brasileira, o que aponta a urgência de modelos educativos, campanhas e debates sobre o que significa a noção de consentimento.

“Muitos abusos acontecem com meninas embriagadas e que não têm como reagir. E muitos problemas aparecem pela dificuldade dos rapazes de entender a noção de consentimento. Pela masculinidade generalizada eles se sentem no direito de abusar das meninas e várias delas se viam como culpadas”, destaca Heloísa.

Boas práticas e contracultura

Para reverter o cenário da violência, Marai Larasi falou sobre projetos de formação para que mulheres jovens possam lutar pelos próprios direitos e espalhar informações para outros jovens, uma estratégia que tem se mostrado efetiva. E alertou também para a necessidade de pensar sempre nos diferentes tipos de lares e contextos em que essas jovens vivem, para traçar diversas formas de comunicação que respeitem as múltiplas realidades sociais.

“É fundamental pensarmos em prevenção nas comunidades e escolas. Os pais devem pensar em como falar com os filhos sobre questões de desigualdade de gênero. É preciso que todos dentro da escola pensem no que é essa violência”, ressalta. “Violência contra mulheres e meninas não é algo inevitável. Temos que parar de agir como se fosse um comportamento normal da sociedade”, finaliza.

Compartilhar: