A feminista Vanina Escales conversou com a Gênero e Número sobre como o movimento feminista do país se articula para resistir ao governo de Javier Milei.
Em 23 de janeiro, no Fórum Econômico de Davos, o presidente argentino Javier Milei (LLA) delimitou em seu discurso adversários bem claros: feministas, pessoas LGBTQIA+, migrantes, ambientalistas e outros coletivos que ele classificou como parte de uma “hegemonia woke” em nível global.
A virulência com que atacou os protagonistas das principais lutas políticas da Argentina nas últimas décadas mobilizou a sociedade, que marchou para mostrar seu descontentamento a partir da convocação feita por coletivos feministas e LGBTQIA+, que foram capazes de organizar um protesto multitudinário em pouco mais de uma semana.
Dois meses depois, a tensão social vem crescendo no país, com grandes protestos que levaram às ruas torcidas organizadas em aliança com aposentados, feministas no 8 de março e organizações de direitos humanos em 24 de março, data que lembra o aniversário do último golpe de Estado que instaurou uma ditadura entre 1976 e 1983.
Para entender como o movimento feminista argentino se articula nesse emaranhado de resistência à extrema direita, a Gênero e Número conversou com Vanina Escales, uma das idealizadoras do movimento Ni Una Menos, que surgiu em 2015 e mobilizou a sociedade contra feminicídios, e diretora de Comunicação e Mobilização e de Defesa da Democracia do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS).
Leia os principais trechos da entrevista.
Temos visto nos Estados Unidos a articulação entre as big techs e o governo de Donald Trump no ataque aos direitos de pessoas LGBTQIA+ e mulheres cis. Ainda assim, alguns setores de esquerda ou progressistas insistem que a luta pela ampliação desses direitos é secundária, que são pautas “de costume” ou que não interessam para a reação à extrema direita. Como você avalia essa postura?
Vanina Escales________Quero começar apontando que existe uma diferença entre setores de esquerda e de direita que criticam o feminismo. Na esquerda, em organizações do campo popular e democrático, existe uma falta de compreensão do que é o feminismo e um desprezo por ele, porque o consideram uma distração.
A extrema direita não despreza o feminismo, apesar de fazer um uso instrumental de nossas lutas para criar um inimigo público. Javier Milei, na Argentina, Donald Trump, nos Estados Unidos e Nayib Bukele, em El Salvador, entendem o que é o feminismo e o atacam porque é uma força política com capacidade de enfrentá-los.
O feminismo é um movimento de emancipação atravessado pelo anticapitalismo e com um projeto de igualdade radical. É uma força política com capacidade de mobilização global que propõe alternativas à concentração de capital, à plutocracia, ao extrativismo dos nossos recursos naturais. Os feminismos têm uma resposta para todas essas ações que arrasam nossas vidas. A extrema direita entende isso perfeitamente.
Por que a esquerda é incapaz de ver o feminismo dessa forma?
Vanina Escales________As feministas não estão fora dos partidos, nem dos sindicatos, nem dos movimentos sociais, nós somos parte deles. Mas alguns desses espaços ainda não se democratizaram o suficiente a ponto de dar lugar a críticas que podem potencializar os debates e torná-los mais horizontais.
Não é fácil disciplinar as feministas. Estamos acostumadas à horizontalidade, temos disposição para debater tudo, e isso torna difícil a incorporação do feminismo a organizações com lógicas mais verticalistas.
Nós temos uma lógica profundamente democrática, no sentido de igualitária e participativa. Todas as vozes são importantes, abrimos espaço para escutar o que todas têm a dizer. Essa é uma contribuição do feminismo à cultura política e também é o que provoca resistência.
Não podemos fazer de conta que não vemos que o discurso de ódio da extrema direita está direcionado às mulheres, às feministas, às pessoas trans, às lésbicas. Então seria bom que houvesse sensibilidade das organizações políticas para acolher as contribuições das feministas.
Nas últimas duas décadas, a Argentina foi uma referência na América Latina em avanços de direitos humanos, sexuais e reprodutivos, da população LGBTQIA+. Muitas se surpreenderam quando viram que Javier Milei foi eleito presidente dois anos depois da legalização do aborto. Isso foi uma reação às conquistas de movimentos feministas?
Vanina Escales________A vitória de Milei não é uma reação ao feminismo. Parte de seus eleitores defende uma agenda reacionária, mas não acho que isso tenha sido determinante. De fato, dentro do A Liberdade Avança [LLA, na sigla em espanhol, partido do presidente argentino] há jovens autenticamente liberais que estão a favor do aborto legal, ainda que se oponham ao financiamento desse serviço de saúde pelo Estado.
A eleição de Milei tem relação com a economia, com a angústia e a incerteza que dominaram os últimos anos do governo de Alberto Fernández, com a inflação, com o mal-estar da dupla moral da quarentena, quando estávamos trancados em casa durante a pandemia e o presidente festejando um aniversário. Tudo isso incentivou uma espécie de desejo de transformação.
NOTA: Em julho de 2020, quando estava em vigor na Argentina um decreto presidencial que determinava uma quarentena rígida, a então primeira-dama Fabíola Yañez festejou seu aniversário na residência presidencial. Um ano depois, fotos da festa foram vazadas à imprensa e era possível ver os convidados sem máscara. Naquele momento, estavam proibidos eventos em espaços públicos ou privados com mais de dez pessoas, caso da festa de aniversário de Yañez.
Quando Milei fala de uma “casta” na política, bom, eu acho que, sim, podemos identificar líderes de partidos que têm práticas de casta, de panelinha, de vanguarda. E as pessoas também identificam isso e se cansam. Não acho que seja uma rejeição à política, porque muitos jovens se tornaram militantes com o Milei. Não é verdade que seja uma abordagem individualista, muitos estão organizados em práticas políticas coletivas. Podemos não concordar, mas não é antipolítica.
O discurso antifeminista pode ser parte de uma estratégia para se alinhar à extrema direita internacional?
Vanina Escales________Milei aparece como candidato quando já havia um mapa ideológico desenhado. Há mais de 10 anos, vozes de extrema direita vêm ganhando projeção em vários países do mundo, com discursos antifeministas, contrários aos direitos sexuais e reprodutivos, de ataque à população LGBTQIA+.
Essas redes já vinham trabalhando juntas, em sintonia, como espaços de formação de jovens ideólogos que levantam as bandeiras dos velhos discursos de ultradireita e colocam uma roupagem 2.0, com um desempenho invejável nas redes sociais. E aí aparece um candidato com um carisma especial que se conecta perfeitamente com algo que já vinha fermentando.
O feminismo argentino conseguiu massificar a luta pela legalização do aborto. O que fez isso mudar? Parece que há uma mobilização menor agora.
Vanina Escales________Existem muitas formas de participação, não apenas a mobilização nas ruas. O governo de Milei é ameaçador, tem práticas que não são democráticas. O espaço cívico e as condições para protestos e manifestações estão reduzidos na Argentina, as marchas são reprimidas.
Por um lado, existe uma asfixia e uma criminalização do protesto. Por outro, as condições materiais de existência não são favoráveis.
“Vemos uma redução da participação nas assembleias feministas, porque a situação econômica é tão grave, que muitas estão procurando trabalho ou complementando a renda com dois ou três trabalhos precários para colocar comida em casa.”
É preciso valorizar outras formas de atuação política, como o ativismo nas redes, no ambiente de trabalho, com outras formas de manter o debate político até que haja melhores condições. A politização não diminuiu, o que mudou foram as condições de expressá-la.
As regras para a moderação de conteúdo misógino e LGBTfóbico nas redes sociais hoje também prejudica a mobilização feminista nesses espaços, não?
Vanina Escales________Com certeza. O espaço público digital, as redes sociais, são ambientes de debate violentos, onde feministas e jornalistas mulheres acabam se autocensurando para não receber ataques, que têm impactos concretos na sua saúde. As jornalistas mulheres, feministas ou não, recebem muito mais ataques que os jornalistas homens nas redes sociais. Mas eu não acho que a solução seja sair das redes, porque senão o espaço digital fica ainda mais reduzido.
Além disso, em um sistema democrático, o espaço em que acontecem as discussões políticas não pode ser controlado somente por poucos bilionários que determinam quais posições políticas serão privilegiadas diante de outras.
Você mencionou que o feminismo é uma força global. Vou fazer então aquela pergunta que fazem quando querem provocar: onde estão as feministas numa hora dessas?
Vanina Escales________Os fatos históricos não se organizam com antecedência. Algo como a greve geral feminista de 2018, que seja capaz de mudar o percurso das coisas, não se planeja tanto. Acontece. Nos organizamos e, quando há condições materiais, quando há possibilidade de que nos escutem…
Como eu disse, não é que haja menos politização ou debate político, muito pelo contrário, estamos falando o tempo todo da realidade que nos rodeia, atentas para identificar as condições para uma grande mobilização, para dar uma resposta mais contundente e transmitir uma mensagem.
Estamos fazendo um trabalho de sensibilização cotidiana para alterar o consenso de que a única coisa que importa é a economia, para mostrar que outras coisas têm mais valor, como a interdependência, a solidariedade, a empatia, a capacidade de ajudar alguém que está passando por um momento difícil.
Precisamos defender esses valores, voltar a falar de por que o feminismo é um movimento emancipatório, que defende a equidade. Fazer micropolítica e, em algum momento, para o qual estaremos atentas, dizer “somos muitas e não queremos mais isso”.
Foi possível observar algo disso na marcha de 1° de fevereiro, depois do discurso de Milei no Fórum de Davos.
Vanina Escales________O discurso de Milei em Davos fez com que parte de sua base de apoio de partidos de direita, como o PRO (Proposta Republicana, do ex-presidente Mauricio Macri), se diferenciassem da postura do atual presidente. Estabeleceram rapidamente diferenças entre o apoio ao plano econômico e os ataques aos grupos oprimidos. Essa não é uma agenda popular na Argentina, e boa parte do setor que apoia o plano econômico não está disposta a sacrificar seu capital político para defender uma agenda conservadora.
Passaram nove dias entre o discurso de Davos e uma marcha multitudinária, que calculamos ter levado 1,5 milhão de pessoas às ruas em várias cidades do mundo. Uma marcha convocada por movimentos feministas e LGBTQIA+, que rapidamente ganhou adesão de sindicatos, movimentos de aposentados, trabalhadores da educação e da saúde, migrantes, organizações de direitos humanos.
Esse espaço transversal conseguiu dar uma resposta contundente ao discurso de Milei, que interpelou setores da política institucional que parecem não ter ideia do que fazer neste momento, que não têm iniciativa, capacidade de mobilizar. Foram os coletivos feministas e LGBTQIA+ que mostraram onde está a imaginação política e a disposição para desafiar esse governo. A mensagem dessa marcha foi que os poderes da ultradireita não são totais, que existe uma cidadania organizada contra o autoritarismo e disposta a colocar um limite.
O Ni Una Menos também soube fazer isso.
Vanina Escales________O Ni Una Menos surgiu em um momento em que era possível organizar um movimento que respondesse a essa indignação social e à identificação com a dor das famílias das vítimas, com o sofrimento dessas jovens. Também teve muito trabalho, né? As jornalistas feministas levaram o assunto aos veículos de grande circulação, ao horário nobre da TV.
Teve trabalho e teve também algo de sorte, porque nem sempre as causas justas recebem a devida atenção. E acho que, por essa sintonia, foi um movimento impactante para a organizaçao feminista.