Como mulher e jornalista, a gente quer flor, chocolate e nenhum feminicídio o ano todo

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O que nós mulheres jornalistas sonhamos é parar de começar o dia de trabalho tendo de noticiar feminicídios

(Campo Grande News, 08/03/2020 – acesse no site de origem)

Domingo, primeiro de março de 2020, o começo do mês dedicado às mulheres, transformado ao longo dos anos em época de ‘gritar’, pois falar já se fala todo dia, contra a violência de gênero. Chego ao Campo Grande News, parece ser um dia calmo, com notícias corriqueiras de fim de semana. Não era. Logo sabemos de duas mortes no Jardim Noroeste.

Mais um pouco e somos informados de se tratar de duplo homicídio, um deles feminícidio. O perpetuador? Agente da lei, que usa uniforme e arma da guarda civil municipal e está foragido.

O plantão é feminino. O assunto toma conta do dia, não apenas como tarefa profissional. Todas nós sentimos. Todas nós lamentamos. Todas comentamos, relembramos casos já noticiados, seus personagens, os aspectos comuns. Eles sempre existem. Há o sentimento de possessão, ciúmes patológico, a não aceitação de que acabou o relacionamento, o descontrole. A atitude extrema. A mulher morta.

Passam os dias, a caçada continua, e nós, jornalistas, divididas entre o acompanhamento frio que o ofício exige e o sentimento de tristeza. Na verdade, de revolta e desânimo. Isso não para. Pode ser com qualquer uma de nós.

Falamos, nas nossas conversas, de como se proteger. Sugiro que puxar a ficha dos ‘crushes’ na justiça é um método. Se tiver algo relacionado a comportamento agressivo, fuja. A colega rebate: mas nem sempre tem. Desalento bate. Não há muito como se precaver. A convicção, porém é de não tolerar o primeiro movimento agressivo. Muitas não fazem isso e têm fim trágico.

Enquanto debatemos e trabalhamos, o feminicida segue por aí. Sabemos que será preso. Mas ainda não foi. Como não ? Teve ajuda, certamente.

O Dia 8 de Março se aproxima. ‘Esse’ cara solto é um tapa na cara dos esforços contra crimes assim.

Na sexta-feira (7), termina essa agonia pelo menos. Acuado pelas forças policiais, ele se entrega. Para mim, e acredito que para outras jornalistas, uma espécie de alívio.

Está preso, será indiciado por duas mortes, vai a julgamento e pagará pelo crime nas justiça dos homens.

Mas Maxelline está morta, aos 28 anos, recém aprovada em seleção para atuar como professora em escola pública.

Também está morta Isis, a primeira vítima de feminicidio em Mato Grosso do Sul desde a criação dessa tipificação específica, em 2015. Tinha 21 anos.

Igualmente, se foram as duas Mayaras, vítimas de casos rumorosos ocorridos em 2017.

Uma foi assassinada a tesouradas e a família ainda viu o assassino dar entrevista, em meio à fuga, e tentar desqualificar a vítima chamando-a de puta. A outra foi cruelmente abatida em um motel. Musicista, teve dupla vitimização: perdeu a vida e virou alvo de espécie de campanha de linchamento moral pós-morte.

Os quatro feminicidas estão presos.

Mas, sem medo do lugar comum, não há o que celebrar. Era o mínimo.

O que nós mulheres jornalistas sonhamos é parar de começar o dia de trabalho tendo de fazer esse tipo de cobertura desgastante. Cada fato desse atinge diretamente o coração de todas. Desejamos poder, no 8 de Março, não falar de violência, não alertar sobre o machismo, presente em homens e mulheres, que constrói relações baseadas em abusos e, de atitude em atitude, leva às pequenas violências e até a morte.

Quem dera um dia possamos aceitar as flores e os chocolates, lembrar de nossos trabalhos e da nossa sociedade como espaço de respeito às mulheres, sorrir e abraçar quem amamos. Porque, decididamente, não queremos, mais, viver o luto dos feminicídios.

Por Marta Ferreira

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