Abrigo de SP para homens recebe primeiras hóspedes da ala para gays e travestis

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(Folha de S. Paulo, 23/11/2014) Vanessa, Samantha e Giovanna dividem casa com até 900 homens. Às vezes, enquanto assistem a sessões de “King Kong 2” e “Os Mercenários” na sala de TV, ouvem um “fiu-fiu”. Fora os gracejos no banheiro compartilhado ou no refeitório (onde são servidos arroz, feijão, peixe frito, acelga e tomate, mais suco de uva e gelatina).

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Algumas cantadas são inofensivas, do tipo “janta comigo? O marmitex vem daqui a pouco!”, reproduz Vanessa Tomaz, 36. Chato mesmo é o “barulho” de “bebuns” que “causam” à noite ou a “porquice” no recinto. Mas nada muito grave, não. “Menino é menino, né?”

E meninas, apesar de terem “sexo masculino” no RG, são meninas no Centro Zaki Narchi. Vizinho ao desativado Carandiru, na zona norte paulistana, o abrigo municipal para moradores de rua (só homens) inaugurou em outubro um pioneiro espaço LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros).

Homossexuais, travestis e transexuais têm quartos exclusivos nos três galpões do complexo. Na semana passada, cerca de 30 tinham vaga.

Antes de pisar no “Zaki 1”, onde ficam os recém-chegados, Vanessa acampou três dias numa praça da zona norte, entre travestis que faziam programa. O teto anterior era um hospital: ficou em coma por um ano e nove meses, após a primeira sessão de radioterapia que trataria 16 tumores no intestino.

Descendente de índios, a esguia Vanessa é do Ceará. Veio a São Paulo atrás de um programa do Hospital das Clínicas para mudança de sexo.

Uma tia lhe comprou os primeiros hormônios para inibir o desenvolvimento de pelos e pomo de adão. Tinha sete anos. O câncer, segundo médicos, foi efeito colateral de sucessivos medicamentos. Descobriu-se também soropositiva. Sem desespero. “Agora é doença crônica.”

Formada em pedagogia, Vanessa faz planos: sair do abrigo e chegar a 75 kg (está com 62 kg), mínimo recomendado para a operação que fará dela mulher “de vez”, diz, segurando seu pingente “da sorte” (um ás de aspadas).

Atualmente, está em fase de testes como auxiliar de limpeza. Ganha R$ 55 por dia.

PULANDO DE FASE

A curto prazo, a meta de Vanessa é ir para o “Zaki 2”. Lá residem os que já têm pelo menos emprego informal e fazem cursos de qualificação profissional. Caso de Giovanna Baby, 37, que veio de Minas fugida de uma família de 11 irmãos que não entendiam “um homem que nasceu no corpo errado”.

Há dois meses na cidade, penou para arranjar trabalho. Via um cartaz de “admite-se auxiliar doméstica”, candidatava-se e recebia “olhares de cima a baixo”. Palpita que desagradava ao chegar com escova progressiva, olhos coloridos com até três sombras (rosa, marrom e branca) e unhas com esmalte rosa cintilante chamado Vitória.

“Falavam que a vaga já estava preenchida. Mas uma semana depois a placa continuava lá”, diz. Hoje é “auxiliar de serviços gerais” de uma família do ramo automobilístico, que a presenteou com móveis para o quarto que pretende alugar por até R$ 400 com uma amiga.

O “Zaki 3”, onde Samantha, 42, mora, é considerado a “porta de saída” do abrigo -reúne abrigados em vias de se autossustentar (leia-se ter um emprego e um lar).

Samantha gosta de cozinhar para bandos. Diz que se sentiria “deprimida” numa casa só sua, já que viveu dos 6 aos 18 anos num orfanato, tirada de um lar violento.

Aos 20, pagou R$ 500 para colocar três litros de silicone. De camisão vermelho, diz que hoje opta pela discrição. “Cozinheira não pode chamar atenção”, diz ela, que trabalha entregando panfletos.

A privacidade não é lá essas coisas, mas a ex-moradora da praça da Sé que pagava R$ 30 por dia à cafetina para se prostituir, acha que a vida melhorou. “Pobre é o diabo. A gente é necessitado.”

Anna Virginia Balloussier

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