Mulher corre mais risco de ser morta em casa do que na rua, por Cláudia Collucci

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Crescem mortes por violência doméstica; orçamento de políticas de proteção é reduzido

(Folha de S.Paulo, 23/07/2019 – acesse no site de origem)

“Para cada mulher vítima de morte violenta, morrem 11 homens pelo mesmo motivo. Se existe violência por motivo de gênero é contra os homens, não contra mulheres.”

O comentário de um leitor em reportagem publicada nesta segunda (22) na Folha sobre o aumento de risco da mortalidade de mulheres expostas à violência revela o quanto é difícil para uma parcela da sociedade aceitar o fato de que a violência de gênero existe e está matando cada vez mais mulheres.

Segundo Fátima Marinho, coordenadora do estudo feito com bases de dados do Ministério da Saúde, uma mulher que não seja vítima de violência doméstica tem chance de morrer igual a 1. Uma mulher vítima de violência tem 8 vezes a chance dessa mulher, ou seja, um risco de 900%, significando que vai viver pouco. Em média, as mulheres vivem 78,5 anos no Brasil.

A mulher vítima de violência vai morrer jovem, por violência ou por doenças em consequência da violência, conforme mostra o estudo.

É verdade que os homicídios atingem mais os homens, como aponta o leitor. Porém, eles estão associados à violência das ruas. A violência contra a mulher é de rotina e, majoritariamente doméstica. Muitas vezes, inicia na infância, com a violência sexual dentro da casa. Uma tortura contínua, um não viver, como lembra Marinho.

Os dados do Atlas da Violência de 2018 não deixam dúvida: houve um aumento de 17,1% no número de mulheres mortas dentro de suas casas entre 2012 e 2017. No mesmo período, os assassinatos em locais públicos caíram 3,3%. Entre os crimes ocorridos dentro do lar, houve um aumento de 29,8% daqueles cometidos por armas de fogo. Ou seja, para as mulheres, o lar atualmente representa mais perigo que as ruas.

Isso porque a gente está tratando apenas da ponta do iceberg, as mortes. Todo rastro de violência que existe até se chegar a um cadáver permanece sob o manto da subnotificação.

As mulheres temem denunciarem casos de violência. Temem virar motivo de chacota nas delegacias de polícia, temem ser perseguidas pelos seus algozes. E têm razão para isso.

Por isso, a notificação dos casos de violência envolvendo mulheres adultas que passam pelo sistema de saúde só é feita com a autorização da vítima. Para crianças e adolescentes, a notificação é obrigatória. Mas mesmo assim o risco de morte de mulheres e crianças permanece se não houver ação rápida.

“Houve uma menina de 11 anos torturada e morta depois da denúncia de violência sexual. O pai, que a prostituía em um ponto de caminhoneiros, fugiu depois de matá-la”, relata a médica.

Tudo é muito triste e grave. Mais grave ainda porque estamos diante de redução de orçamentos para políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres.

Entre 2014 e 2016, a dotação orçamentária da Política para as Mulheres teve redução de 40%, segundo dados do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). Em 2017, essa verba sofreu nova redução da ordem de 52%. Quando orçamentos públicos são cortados de causas essenciais e o próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL) banaliza a
violência contra a mulher, tratando a coisa como mimimi e propondo que as mulheres andem armadas como forma de proteção, como fez em vídeo de 2017, a sensação de desamparo de ser mulher neste país fica ainda maior.

Cláudia Collucci é jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.

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