Profissionais de diferentes áreas relatam que abordagens iniciadas como oportunidades de trabalho evoluíram para assédio e perseguições. À Marie Claire, especialistas explicam quais são os direitos das vítimas
Assim como muitos profissionais de recursos humanos, Luana Siqueira usa o LinkedIn todos os dias. Por ser mentora de carreira, ela aceita dezenas de novas conexões na plataforma e costuma atender clientes que a procuram por ali. Em uma dessas abordagens, porém, o que começou como contato profissional acabou se transformando em assédio.
O homem a procurou para pedir uma simulação de entrevista de emprego, serviço oferecido por Luana. Depois de aceitar a proposta, pediu que a conversa continuasse pelo WhatsApp. Foi então que o tom mudou.
“Ele perguntou onde seria nossa reunião, se estaríamos só nós dois. Respondi que seria online e comecei a estranhar as perguntas. Então ele disse que achava que era ‘putaria’” relata, em entrevista à Marie Claire.
A profissional questionou se era isso que o homem buscava no LinkedIn, e ouviu que “sim”. “Falei que ele estava na plataforma errada e que eu também era a pessoa errada.” Luana bloqueou o contato no WhatsApp e no LinkedIn e registrou uma denúncia na plataforma, mas não recebeu retorno.
Essa não foi a primeira vez que ela passou por isso.
Já fiquei mais de um ano sem atender homens por medo de ser assediada novamente. Também já aconteceu de começarem uma conversa aparentemente profissional e, depois de um simples ‘bom dia’, tentarem transformar aquilo em convite para um encontro.”
A experiência se repete entre mulheres de diferentes áreas. Professora de inglês, Luciana D’Agosto afirma ter sido assediada duas vezes após apenas aceitar pedidos de conexão.
No primeiro caso, um executivo brasileiro perguntou se ela dava aulas particulares em casa porque “se sentia sozinho” e elogiou seu sorriso. Em outra ocasião, um estrangeiro disse que havia se apaixonado por ela e que viajaria ao Brasil apenas para conhecê-la.
Nos dois episódios eu apenas aceitei o convite de conexão. Não mandei mensagem nem dei qualquer abertura. Os dois foram denunciados e bloqueados, mas vejo muitos relatos semelhantes”, diz.
‘Conduta incompatível com o ambiente profissional’
Nem sempre as abordagens são explícitas. Às vezes, aparecem em mensagens aparentemente banais, mas deslocadas do contexto. Foi o que aconteceu com a jornalista Maria Clara Galeano. Depois de publicar uma conquista profissional, a conclusão de uma certificação, ela recebeu de um desconhecido um GIF com uma flor.
Para Maria Clara, a mensagem poderia parecer inofensiva isoladamente, mas chamava atenção justamente por não ter qualquer relação com a publicação nem partir de alguém com quem ela tivesse vínculo de trabalho.
Não foi uma cantada nem uma situação grave, mas reforça a ideia de que alguns homens se sentem no direito de entrar em qualquer espaço e mandar mensagens para mulheres, mesmo quando aquilo não tem absolutamente nenhuma relação com o contexto profissional.”
Para a advogada Mariana Covre, especialista em prevenção ao assédio no ambiente corporativo, a ausência de mecanismos específicos para denúncias dentro do LinkedIn é uma lacuna da plataforma.
Segundo ela, o ambiente é essencialmente profissional, o que torna esse tipo de abordagem ainda mais inadequada. “Não é um espaço para interações afetivas ou pessoais. Se a plataforma oferece mensagens privadas, também precisa oferecer mecanismos eficazes para lidar com o que acontece dentro delas.”