30/10 a 15/11/09 – O caso Geisy Arruda/Uniban: sociedade reage e dá aula de cidadania na mídia

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Diante da violência e intolerância de um grupo de estudantes e de uma universidade, a sociedade reagiu com rapidez, em especial por meio da mídia, obrigando a Uniban a recuar da decisão de expulsar a aluna e a refletir sobre seu papel educativo.

Segundo a Folha Online, a informação sobre o episódio de violência ocorrido em 22/10/09 com a estudante foi publicada primeiramente no blog Boteco Sujo, do jornalista Fausto Salvadori. Apenas em 30/10/09 os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo publicaram reportagens intituladas, respectivamente, “Taleban na faculdade” e “Aluna é vítima de assédio em massa”.

A matéria do Estadão informava:

“Uma estudante do 1º ano de Turismo do período noturno do câmpus ABC da Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban), em São Bernardo do Campo, foi xingada e acuada por um grupo expressivo de estudantes no prédio onde estuda por causa do comprimento do vestido que usava. O fato ocorreu no dia 22 e ganhou repercussão nesta semana pelo YouTube, onde foram publicados vídeos que registraram o episódio. O conteúdo foi retirado a pedido da universidade.”


Procurados pela reportagem, especialistas em educação reagiram explicando que o “linchamento moral” sofrido pela estudante reflete dois problemas sociais: “O primeiro é o machismo que justifica a agressão contra a mulher por uma suposta falha. O outro é a invasão da violência nas instituições de ensino”:

Vera Vieira, coordenadora executiva da ONG Rede Mulher de Educação
“Nada justifica a reação exagerada.Isso retrata violência de gênero, culpar a mulher pela agressão.”

Charles Martins, assessor de educação da ONG Plan Brasil, que estuda a violência nas escolas
“O episódio pode mostrar a bagagem que estes alunos trazem da fase escolar.”

A partir da divulgação da notícia, vários jornalistas e representantes de diversos setores da sociedade manifestaram seu repúdio à intolerância mostrada não apenas pelo grupo de estudantes, mas especialmente pela instituição de ensino, que não soube lidar com o episódio e aproveitar a oportunidade para dar uma lição sobre respeito à diversidade e enfrentamento da violência de gênero.

A seguir, algumas matérias – informativas e opinativas – publicadas pela imprensa sobre caso Geisy Arruda/Uniban (com links para as matérias em pdf):

Os ‘carolas’ do ABC – José de Souza Martins (O Estado de S.Paulo – 15/11/09)
Proletariado rebelde dos anos dourados de Vila Euclides não teve herdeiros capazes de lidar com um minivestido na faculdade

Tesão e direitos humanos – Renato Janine Ribeiro (Folha de S.Paulo – 15/11/09)
Ex-diretor da Capes, filósofo diz que opinião pública e mídia ignoraram a questão central no caso da aluna da Uniban: a esfera do desejo. “O que atraiu a sociedade para o caso foi seu lado sexual. (…) O sexo é chamariz, mas não é estudado. Já a educação é uma grande (outra) questão, mas também não é aprofundada.”

Aulas de intolerância e covardia (IstoÉ – 13/11/09)
Ao longo de oito páginas de reportagem de capa assinada por Solange Azevedo e Rodrigo Cardoso, a IstoÉ ouve Geisy, o representante da universidade e especialistas em diversas áreas, como educação, Direito e gênero. E conclui:
“Ao expulsar Geisy Arruda, a Uniban execrou publicamente a aluna e endossou a violência na universidade. Quando revogou a decisão, mostrou que está mais interessada em defender os seus cofres do que em cumprir a missão de educar.”

Honra ao demérito – Dora Kramer (O Estado de S.Paulo – 10/11/09)
“Entre punir a turba de 700 agressores ou castigar a aluna agredida, a Universidade Bandeirante fez a escolha que lhe pareceu financeiramente mais vantajosa. Numa visão pragmática, optou pela maioria: antes a baixa de uma mensalidade que o risco de um déficit de receita mais pesado.”

A expulsão da vítima – editorial (O Estado de S.Paulo – 10/11/09)
“A expulsão da estudante Geisy Villa Nova Arruda, pela direção da Universidade Bandeirante (Uniban), é mais um triste episódio de uma sucessão de equívocos que começou com a boçalidade dos estudantes que a hostilizaram moralmente por usar vestido curto numa aula do curso de turismo, e que se desdobra agora numa iniciativa de duvidosa legalidade, do ponto técnico-jurídico, e absolutamente desastrosa, em termos de política educacional.”

Uniban volta atrás na expulsão de aluna por minissaia (Jornal Nacional – 09/11/09)
“O reitor da Universidade Bandeirante, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, cancelou, nesta segunda, a decisão de expulsar a aluna do minivestido. A decisão de revogar a expulsão da estudante Geisy Arruda foi tomada no início da noite e não muda o andamento do inquérito policial aberto na delegacia da mulher de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.”

Movimento de mulheres marca ato na Uniban (O Estado de S.Paulo – 09/11/09)
“Entidades ligadas ao movimento de mulheres prometem realizar hoje um ato contra o tumulto e a expulsão da estudante Geisy Arruda pela Universidade Bandeirante (Uniban). No texto da convocação, marcada para as 18 horas em frente ao câmpus da Uniban de São Bernardo, onde ocorreu o episódio, o Movimento Feminista, Sindical e Estudantil diz que a vítima foi transformada em ré e os agressores ficaram impunes.”

Governo e OAB se manifestam contra expulsão de aluna (O Estado de S.Paulo – 09/11/09)
Além do MEC, “a Secretaria Especial das Mulheres enviou hoje um pedido para que o Ministério Público Federal investigue, por crime contra os Direitos Humanos, a expulsão da estudante Geisy Arruda da Universidade Bandeirante (Uniban). Senadores, partidos e a Ordem dos Advogados do Brasil também se manifestaram”.

MEC diz que ‘quer saber se aluna teve direito à ampla defesa’ (Portal G1 – 08/11/09)
“‘Uma universidade tem uma obrigação educacional que precisa estar presente em todos os momentos. É um local não apenas de convivência, mas de formação de valores’, afirmou a secretária de Ensino Superior do MEC, Maria Paula Dallari. ‘O MEC tem o dever de pedir explicações. Seria a mesma coisa em um caso de racismo.’”

Secretaria de Políticas para as Mulheres cobra explicação sobre expulsão de universitária (Agência Brasil – 08/11/09)
A ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) “condenou a decisão de expulsar a universitária e disse que a atitude da escola demonstra “absoluta intolerância e discriminação”. “Isso é um absurdo. A estudante passou de vítima a ré.”

Uniban expulsa aluna vítima de violência (O Estado de S.Paulo – 08/11/09)
“‘Como término da sindicância e da apuração dos fatos, a universidade decidiu desligar Geisy de seu quatro de estudantes por entender que ela foi responsável, que provocou a situação com sua atitude’, afirmou ao Estado o assessor jurídico da Uniban, Décio Lencioni Machado. ‘Nunca tinha acontecido isso e outras meninas usam vestidos e saias curtas. Ocorreu com ela por causa de sua atitude em querer aparecer, desfilar na rampa, tirar fotos e passar pelas salas’, justifica.”

Culpar a vítima: essa foi a estratégia – Hélio Schwartsman (Folha de S.Paulo – 08/11/09)
“Se uma garota foi estuprada, ela, de alguma forma, provocou o estuprador, seja por utilizar roupas insinuantes, seja por meio de atitudes libidinosas. Afinal, nada acontece ‘de graça’.
A psicologia explica tal atitude como um autoengano que visa a nos manter em posição de controle: se eu não me comportar “mal” como a “vítima”, não estou sujeito ao mesmo risco. Tal operação mental nos permite persistir na crença de que o mundo é um lugar justo. Não é, como a Uniban acaba de demonstrar exemplarmente.”

Entre os muros da escola (Valor Econômico – 06/11/09)
Procurados pela reportagem, especialistas consideram que o episódio reflete “o obscurantismo da universidade que reproduz padrões patriarcais, machistas, retrógrados e preconceituosos” e citam Hannah Arendt: “Quando o pensamento torna-se supérfluo, abre-se o caminho para a banalidade do mal.”

A turba da Uniban – Contardo Calligaris (Folha de S.Paulo – 05/11/09)
“Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.”

UNE classifica como ‘violência sexista’ hostilização à aluna na Uniban (Portal G1 – 04/11/09)
“Nós, mulheres estudantes brasileiras, organizadas na luta pelo fim do machismo, racismo e homofobia, denunciamos a violência sexista ocorrida contra a aluna da Uniban, nos solidarizamos com as mulheres vitimizadas por esses crimes e queremos punição a todos os agressores envolvidos nesse episódio e em outros tantos que acontecem e não repercutem na mídia.”

Aluna é vítima de assédio em massa (O Estado de S.Paulo – 30/10/09)
“Uma estudante do 1º ano de Turismo do período noturno do câmpus ABC da Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban), em São Bernardo do Campo, foi xingada e acuada por um grupo expressivo de estudantes no prédio onde estuda por causa do comprimento do vestido que usava. O fato ocorreu no dia 22 e ganhou repercussão nesta semana pelo YouTube, onde foram publicados vídeos que registraram o episódio. O conteúdo foi retirado a pedido da universidade.”

Taleban na faculdade (Folha de S.Paulo – 30/10/09)
“Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22).”

Indicação de fontes: 

Eleonora Menicucci – socióloga e professora da Unifesp
Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp
São Paulo/SP
11 5572-0609, r. 261 / 9196-9413
[email protected]
Fala sobre: violência de gênero; serviços de violência sexual e aborto legal

Lia Zanotta – socióloga e pesquisadora do Depto. de Antropologia do ICH/UnB
Agende – Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento
Brasília/DF
61 3273-3551 / 8111-7823
[email protected]
Fala sobre: violência de gênero; direitos humanos

Valéria Pandjiarjian – advogada
Cladem (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher)
São Paulo/SP
11 5083-6320 / 9908-6743
[email protected]
Fala sobre: direitos das mulheres; violência doméstica

Wania Pasinato – socióloga e pesquisadora do NEV/USP
Núcleo de Estudos da Violência da USP
São Paulo/SP
11 9263-8365
[email protected]
Fala sobre: violência de gênero; pesquisas sobre violência 

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