Chacina de Campinas: O maior feminicídio em massa da história recente do Brasil

2008
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Os tiros de Sidnei queriam silenciar mulheres que ousaram ter voz. O assassinato de três gerações de uma mesma família engatilhado pelo ódio ao sexo feminino é um sinal de que ainda hoje vivemos sob o manto de uma sociedade machista

(Metrópoles/DF, 08/01/2017 – acesse no site de origem)

Maria da Penha não viveu para ver o maior feminicídio em massa da história recente do Brasil. Tampouco imaginou ter sua filha, irmã e sobrinhas como personagens desse enredo marcado pelo ódio às mulheres. Ela carregava um nome simbólico, era homônima daquela que se tornou um marco da luta pelo fim da violência doméstica no Brasil e virou sinônimo de lei.

Maria da Penha Filier era a mãe de Isamara Filier, 41 anos, assassinada pelo ex-marido, o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, 46 anos, na noite de réveillon. Ele pulou o muro da casa onde a família celebrava o ano-novo e invadiu a festa atirando. Matou o próprio filho, João Victor Filier de Araújo, 8 anos, e outras 10 pessoas – 9 mulheres no total – que compartilhavam laços de sangue.

A ex-sogra de Sidnei faleceu 10 meses antes da chacina de Campinas. Também estava na lista dos que seriam vitimados por ele, que planejava o massacre havia muito tempo. Precisou morrer primeiro para escapar.

Sidnei registrou sua raiva pelas mulheres da família Filier em uma carta e em áudios. Referia-se às vítimas como “vadias” e “vagabundas”. Dedicou trechos especialmente odiosos à Maria da Penha, a ex-sogra, a quem chamava de “vadia da Penha”. O assassino escreveu que gostaria de ser enterrado de cabeça para baixo para “ir pro inferno buscar a velha vadia.”

Querendo atingir a ex-mulher, ele matou mais de uma dezena de pessoas. Em termos quantitativos, é um crime sem precedentes.
LOURDES MARIA BANDEIRA, socióloga, professora da UnB e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.

(…)

NO BRASIL, SER MULHER É FATAL

O caso recente de feminicídio em Campinas choca pelo número de vítimas simultâneas. A cultura machista, implacável, não dá trégua um dia sequer. A cada hora e meia uma mulher morre pelas mãos de um homem no Brasil. É o que mostram levantamentos da organização Agência Patrícia Galvão, uma das maiores referências no país sobre pesquisa e políticas do universo feminino, incluindo empoderamento, violência doméstica e feminicídio. A taxa coloca o país como o 5º com maior índice de assassinatos de mulheres no mundo.

Para especialistas, todos os casos de feminicídio partem de uma mesma condição: a misoginia, ou o ódio às mulheres tendo como única justificativa a questão de gênero. Mesmo quando a relação entre vítima e assassino não é amorosa. Como em Campinas. Sidnei não só matou a ex-mulher, como estendeu o crime a várias outras familiares dela, com quem não tinha qualquer tipo de relacionamento afetivo. Ali, ao que tudo indica, a motivação não era ciúmes, desejo, amor ou uma paixão não correspondida. Era um ódio incontrolável. O ódio de ela exercer seu poder de escolha e de lutar por suas convicções e direitos na Justiça.

A misoginia não necessariamente é sinônimo de feminicídio, mas fundamenta a atitude.É importante abstrair um pouco a relação do casal, que indica algo violento e representa um quadro específico, e pensar em algo mais amplo, na categoria do ódio.
JACQUELINE PITANGUY, coordenadora da ONG Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia)

No caso de Isamara e Sidnei, o ódio do assassino teve como gatilho a independência da ex-mulher e o recomeço de uma vida sem ele. A “perda” de uma relação amorosa e a exclusão da vida familiar foram, nesse caso, o combustível que alimentou a raiva do criminoso.

Clique aqui para acessar na íntegra essa reportagem especial: Metrópoles/DF, 08/01/2017

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