Entrevista com Carmen Foro: ‘Construímos uma pauta de de prioridades dos territórios para fazermos pressão junto ao governo federal’

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(Patrícia Negrão, da Agência Patrícia Galvão) Leia a entrevista na íntegra:

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Carmen Foro
, secretária de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e secretária nacional de Meio Ambiente da CUT (Central Única dos Trabalhadores)
Brasília /DF
Tel. (61) 2102.2288 –
[email protected]

“Construímos uma pauta de prioridades dos estados para fazermos pressão junto ao governo federal”

“Esta grande mobilização das agricultoras se deve sobretudo à forte organização das mulheres dentro da Contag, ou seja, dentro dos movimentos sindicais rurais de todo o país, e também à nossa articulação com outros movimentos de mulheres rurais e feministas.

Durante a construção da pauta da Marcha das Margaridas, nossa estratégia foi o diálogo permanente com os grupos locais, mobilizando as lideranças nos municípios por meio de atividades de formação e de produção de material informativo. Produzimos, no início deste ano, um caderno de debates com todos os eixos da Marcha, que debatemos no Brasil todo. A partir daí, construímos juntas a agenda de prioridades dos territórios para, só então, fazermos pressão junto ao governo federal.

Além disso, temos a preocupação constante de capacitar e formar lideranças mulheres na Escola Nacional de Formação da Contag. Isso porque nos sindicatos há um processo rotativo e precisamos cada vez mais de agricultoras capacitadas para assumir os cargos até pouco tempo atrás ocupados somente por homens.

É importante também destacar que, quando termina uma Marcha, já começamos a avaliar o desdobramento de cada item negociado. Portanto, amadurecemos nossas propostas e estratégias a cada Marcha.

Neste ano, o centro das nossas proposições é que as mulheres do campo e da floresta sejam protagonistas de um novo processo de desenvolvimento rural que priorize a sustentabilidade do meio ambiente e do ser humano. Nosso lema é: “Desenvolvimento Sustentável com Justiça, Autonomia e Liberdade”.

Construímos uma pauta bastante articulada com sete eixos temáticos de reivindicações: biodiversidade e democratização dos recursos naturais; terra, água e agroecologia; soberania e segurança alimentar e nutricional; autonomia econômica, trabalho, emprego e renda; saúde pública e direitos reprodutivos; educação não-sexista, sexualidade e violência; democracia, poder e participação política.

Não queremos dar destaque para uma ou outra área. Nós não abrimos mão, por exemplo, da discussão sobre segurança alimentar, enfrentamento da violência; produção sustentável e saudável de alimentos; acesso das mulheres à política.

A Lei Maria da Penha, por exemplo, ainda não está sendo implementada nos municípios rurais, porque é uma Lei pensada para cidades com 50 mil habitantes ou mais e 75% das mulheres rurais vivem em locais com população inferior a isso. Temos uma proposta inovadora que é a criação de unidades móveis que cheguem a todos os municípios e ofereçam todos os serviços e orientação para a mulher vítima de violência.

Outra proposta para fortalecer a autonomia e a renda das mulheres é que a União passe a assumir o risco de qualquer crédito que as mulheres rurais vierem a tomar, já que as instituições bancárias criam empecilhos para a mulher rural.

Nos últimos vinte anos, a organização das mulheres agricultoras conseguiu avanços importantes, como direito à aposentadoria, salário maternidade, direito à titulação de terra, entre outros. Mas, durante muitas décadas, o governo brasileiro abandonou completamente a zona rural. Sofremos até hoje com a ausência de direitos básicos como direito à terra, à documentação, à saúde, à educação, à previdência, a transporte. Há uma grande dívida da União com as mulheres rurais.”


 

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