Estupro e machismo nem sempre caminham lado a lado, dizem especialistas

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Sim, ele (o machismo) realmente mata como está no cartaz da foto aí em cima. Mata mas não necessariamente estupra. Quem estupra é doente, perverso e está pouco se lixando se a mulher veste minissaia, calça jeans ou burca. Aliás, se lixar, ou num português mais comedido, sentir empatia, é uma das características mais marcantes nas pessoas que cometem esse tipo de crime. O justo combate ao machismo não alcança essa violência, fruto muito mais de um transtorno de personalidade do que de uma educação em que um gênero se sobrepõe ao outro.

(NE10, 29/09/2016 – acesse no site de origem)

“Quando a gente fala em estupro está falando de um doente, de uma pessoa que tem uma perversidade, sente prazer em causar dor à sua vítima. É um sociopata ou psicopata. Ele não sente culpa, não sente remorso. Pelo contrário, sente até prazer na dominação”, explica o psiquiatra Samuel Abath. É claro que existem outras formas de manifestação, que inclusive serão abordadas mais à frente, mas no perfil clássico do estuprador que ele desenha, a relação sexual, inclusive fica em segundo plano. “Ele não sente prazer na penetração, mas na dor e no medo que causa”.

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Estuprada aos 11 anos pergunta: como a vítima pode ser culpada?, por Giorgia Cavicchioli (Ponte, 28/09/2016)

Já o psiquiatra forense José Brasileiro Dourado toca no assunto da roupa. Além dos aspectos descritos por Samuel, o outro ‘atrativo’ para o estuprador é a condição de vulnerabilidade em que ele encontra uma possível vítima no momento. “Ele tem todo discernimento do que está fazendo, isso quando tratamos do estuprador psicopata.

Mas como não há qualquer respeito pela vítima ele pula essa barreira do afeto”, aponta. Soma-­se a isso a aversão que os criminosos sexuais são recebidos nas unidades prisionais. Muitos, inclusive, têm que ficar isolados “E isso não tem a ver com roupa. Não entendo que machismo e estupro caminhem juntos. Quando o estuprador vai para o presídio ele sofre bastante, embora seja um ambiente exclusivamente masculino”, lembra.

Abath também aborda a forma com que os meios de comunicação tratam do tema. Para ele, o bombardeio de informações sobre o tema deveria ser questionado. E faz uma comparação ao que acontece com os suicídios. O ato de tirar a própria vida não tem a mesma repercussão. “Entende-­se que essas notícias sendo veiculadas de forma repetitiva pode estimular outros a fazerm a mesma coisa. E não existe uma cultura do suicídio. Mas qualquer caso de estupro na Turquia, Arábia Saudita, Índia ou interior de Pernambuco sai no jornal. A mídia precisa repensar o papel dela”, pontua.

Ele lembra também que não se pode analisar esse tipo de crime de uma forma isolada, mas dentro de um contexto de (in)segurança pública, que é algo onde a cultura machista também se insere, já que vem dela as diversas agressões ­ físicas ­ às mulheres. Coloque nessa relação a falta de estrutura do estado para tratar da violência urbana tanto preventivamente quanto no acolhimento às vítimas.

“A sociedade precisa entender a violência sexual como parte de um contexto maior. Preocupa como as escolas estão educando para o futuro, o SUS que não tem um suporte avançado As vítimas de estupro. Muitas passam horas para fazer um depoimento, são humilhadas no exame sexológico. Quantos delegados não foram substituídos em casos de estupro?”. Samuel põe a Justiça na conta, que permite a uma pessoa sair da prisão depois de cumpridos seis anos de uma pena de 30. Essa permissividade cria uma aura de impunidade e a bola de neve está formada. A violência ­ em diversas manifestações ­ aumenta e a sociedade não tem a quem recorrer. “O estupro está num contexto em que a violência está cada vez mais próxima do nosso dia a dia. Houve um estupro aqui no Recife em plena luz do dia. A violência está crescendo por falta de uma política apropriada”.

MANIFESTAÇÕES

Embora o perfil tradicional do estuprador esteja atrelado aos desvios psicopáticos e sociopáticos, existem outras formas de alguém cometer esse crime sem que apresente tais transtornos. O primeiro deles é o uso de drogas, que, em muitos casos torna-­se um agravante na hora de um julgamento. Da mesma forma acontece com o uso de medicamentos para tratar a disfunção erétil. O popular Viagra. “Muitos agressores precisam estar sob estímulo de algum entorpecente ou até usar alguma substância como a sildenafila (o princípio ativo do Viagra). Isso é pouco falado, mas no início o Viagra era liberado apenas sob retenção de receita. Hoje não mais e isso precisa ser repensado”, diz.

José Brasileiro aponta outro tipo de perfil do criminoso como não sendo uma pessoa portadora de uma personalidade psicopática. Esquizofrênicos ou pessoas com retardo mental cometem esse crime por não terem o discernimento de controlar os impulsos sexuais. “Para essas pessoas falta a compreensão do que está fazendo. Ele quer apenas satisfazer o impulso naquele momento. O estuprador psicopata não, ele não tem interferência nessa capacidade. Sabe que aquilo é um crime”.

O segundo tipo avaliado por Brasileiro é o do homem que estupra diante de uma situação específica em que determinados traços como egoísmo e narcisismo afloram com muita força. “Em determinado momento ele fica mais exacerbado e é movido pelo desejo.” Mas é sempre bom lembrar que isso não serve como atenuante. É estupro do mesmo jeito.

Wladmir Paulino

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