Quem contará os estupros na Copa do Mundo? Por Jarid Arraes

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(Revista Fórum, 16/06/2014) No último dia 14, diversos portais noticiaram um caso de estupro envolvendo um chileno e uma brasileira. O chileno de 32 anos conheceu uma brasileira de 22 em uma boate em Cuiabá, onde ofereceu carona ao sair da festa acreditando que o sexo estava garantido. No entanto, a moça rejeitou as investidas do homem e resistiu fisicamente para impedir o ato. Ainda dentro do carro, a jovem teve sua roupa rasgada e foi agredida fisicamente, e só foi socorrida porque alguns passantes ouviram seus gritos e surpreenderam o chileno sem roupas.

Houve, no entanto, uma verdadeira confusão a respeito da informação divulgada. Em alguns sites há a afirmação de que houve penetração; em outros, o caso parece algo vago e sem gravidade alguma. Em algumas publicações, há até mesmo o uso repetido de eufemismos, afirmando que o chileno somente “manifestou vontade de fazer sexo”. De acordo com esse último noticiante, dá até para pensar que o homem pediu com educação e vocabulário rebuscado. No fim das contas, ninguém sabe em quem confiar e nem entende qual é a informação correta. A brasileira foi estuprada? Como isso aconteceu? E o exame de corpo de delito? O desfecho, não obstante, é direto ao ponto: o chileno foi liberado.

Há uma série de problemas nesse caso: o óbvio despreparo dos jornalistas brasileiros – que tratam a ocorrência com tanto descaso que se contradizem em notas feitas em poucas horas de distância -, os eufemismos e as insinuações de que a brasileira bebeu demais ou se “acovardou” por ter “desistido” do sexo são apenas alguns deles. Em uma matéria, inclusive, é dito que a moça resolveu não prestar queixa porque o chileno estava bêbado. A não ser que isso seja um fato devidamente apurado, a redação do jornal merece um escracho. E se for algo verídico, é motivo de lamentação. De uma forma ou de outra, fica evidente a falta de compromisso dos jornalistas para escrever algo responsável, que conte um fato coerente com a realidade.

Infelizmente, isso não é nenhuma surpresa para o movimento feminista: sabemos que estupros e tentativas de estupro são expostos sem qualquer cuidado ético. Cultura misógina é assim e o álcool vira justificativa para a violência sexual. Se a mulher bebeu, ela é uma irresponsável que não se cuidou, mas se o homem bebeu, ele não sabia o que estava fazendo e por isso o crime pode ser tratado com leviandade. Pouco se discute o fato de que os homens são socialmente ensinados e recompensados por beberem com o objetivo de “pegar” mulheres – sendo isso, inclusive, algo exaustivamente sugerido pelas propagandas de cerveja. Dessa forma, um homem que bebe e se torna um inconveniente que insiste, agarra o braço da mulher e fala coisas vulgares não é nada além do considerado normal por nossa cultura. E, pelo visto, não é exclusividade de brasileiros.

Ao contrário do que é constantemente sugerido, as mulheres podem sim desistir de fazer sexo e devem ter o desejo respeitado prontamente. A ideia de “ou dá ou desce” é coação e “conseguir” sexo através de uma ameaça como essa não se chama de conquista, mas sim de estupro. E o que torna o problema ainda maior é que a maioria das mulheres está amedrontada, desinformada, constrangida e alienada demais para denunciar quando esse tipo de crime acontece. Os casos que envolvem violência sexual dificilmente são registrados e isso não será diferente durante a Copa. Dá até pra imaginar quantos turistas de outros países e homens do nosso país não estão neste exato momento forçando avanços sexuais contra mulheres brasileiras e outras estrangeiras; quantas crianças estão sendo estupradas agora, vítimas de uma realidade de exploração sexual que muitos portais de notícia chamam desavergonhadamente de “prostituição infantil”. Caso fossem contados, os números seriam assustadores.

A triste realidade é que a população depende dos jornais brasileiros para ter acesso a informações verídicas e bem apuradas, mas os portais não estão entregando notícias com esse padrão de qualidade. Jornais do Brasil: exponham a realidade de violência sexual que a Copa do Mundo proporciona. Durante um evento tão impactante, onde tantos olhos estão voltados para o nosso país, há outras coisas mais importantes além de contar gols.

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