E quem se importa com a dor da mãe preta? Pelo direito de nomear as nossas dores em primeira pessoa, por Lívia Sant’Anna Vaz

Manifestações do Dia da Mulher na região central da capital paulista – Crédito Rovena Rosa – Agência Brasil

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

09 de agosto, 2022 Por Migalhas

(Lívia Sant’Anna Vaz/Migalhas) As vivências do racismo são como feridas abertas que não cicatrizam. De tanto doer, chegamos até a “esquecer” que elas estão lá, latentes, em carne viva.

Certa feita, uma pesquisadora da área da educação e relações raciais me perguntou de inopino, no início de uma entrevista: “qual a sua experiência mais violenta de racismo?”.

Embora engasgada, a resposta saltou da minha boca sem que eu pudesse dosar as palavras: “eu apanhei!”. Os traumas (coloniais)1 daquela lembrança “quase esquecida” latejaram no meu corpo e meus olhos quiseram transbordar. Engoli o choro como, muitas vezes, minha menina engoliu. Permanecemos alguns segundos em silêncio, enquanto eu ouvia aquela voz: “neguinha aguenta, neguinha aguenta!”, era o que dizia um dos meus agressores enquanto me batia. Eu ainda não tinha nem oito anos de idade, quando “gritaram-me negra”,2 mais uma vez!

A pesquisadora interrompeu a entrevista. Nunca mais nos encontramos, mas, depois daquele dia, uma pergunta passou a rondar meus pensamentos por alguns poucos pares de anos, até hoje. Por que eu não contei aos meus pais essa e outras tantas experiências de racismo que sofri na infância?

Há alguns dias, foi exaustivamente noticiada e festejada a reação de Giovana Ewbank, mulher branca, diante de ataques racistas cometidos contra seus filhos, duas crianças negras. Giovana reagiu como toda mãe deveria ter o direito de reagir. Mas mães pretas não têm! Quando Taís Araújo, mulher negra, revelou publicamente que a cor do seu filho fazia com que as pessoas mudassem de calçada, sua fala foi invalidada, deslegitimada. Ela teve sua dor de mãe preta negada e ainda sentiu na pele, ela própria, mais uma vez, o racismo. Sim, Tais foi taxada de vitimista e sofreu ofensas racistas por quebrar o silêncio acerca do racismo contra crianças negras, por proteger o seu filho.

Os dois episódios, tratados de maneira tão diferentes, demonstram que não há toga, jaleco ou qualquer roupa de grife que seja capaz de nos proteger do racismo, de “revestir” a nossa pele preta para imunizá-la. Nosso corpo é um alvo sempre disposto e exposto!

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