Exposição e livro difundem legado de Lélia Gonzalez

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(Luciana Araújo/Agência Patrícia Galvão, 17/07/2015) O Centro Cultural Banco do Brasil na capital paulista foi palco no último dia 15 do lançamento da 13ª edição do Projeto Memória, desenvolvido pela Fundação educacional da empresa. Esta foi a segunda vez que o projeto homenageia uma mulher, sendo a primeira negra. Lélia Gonzalez: o feminismo negro no palco da história resgata e difunde o legado de uma figura extraordinária, que foi uma pioneira da organização feminista e internacional das mulheres negras no século 20.

No tributo realizado na última quarta-feira, o público – bastante diverso em termos políticos, geracional e racial – confirmava a importância da filósofa, historiadora, geógrafa e militante. Foi necessário abrir, além do cinema do CCBB, para onde estava programado o evento, o auditório do local, e uma grande fila ainda se formou durante as duas horas da homenagem aguardando autorização para visitar a exposição preparada em homenagem a Lélia.

Produzida em vinte réplicas, a mostra itinerante percorrerá as capitais brasileiras e poderá ser também levada a outros espaços, em parceria com organizações da sociedade civil e do movimento negro. O projeto conta ainda com duas caixas biográficas. Uma delas traz um documentário em DVD e o livro escrito por outro ícone do feminismo negro brasileiro, a historiadora Sueli Carneiro, fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. A outra guarda dois almanaques históricos impressos contando a vida e obra de Lélia.

Todo o material pode ser baixado aqui.

O projeto foi realizado em parceria com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh), a Fundação Banco do Brasil, o Geledés – Instituto da Mulher Negra e a Comissão de Igualdade Racial da OAB-SP, com apoio do Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras no Estado de São Paulo. O evento foi aberto pela presidente do Geledés, a advogada Maria Sylvia Oliveira.

A exposição ficou em exibição no CCBB apenas no dia 15, mas será remontada na cidade de São Paulo, ainda sem data marcada.

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Sueli Carneiro fala sobre o legado de Lélia. (Crédito das imagens: Luciana Araújo)

Em sua fala durante a homenagem, Sueli Carneiro destacou a expressão e força do pensamento de Lélia Gonzalez para a luta antirracista no Brasil e no mundo, o estabelecimento das bases que estruturam o movimento de mulheres negras contemporâneo e a introdução das formas de ação política e concepção do feminismo negro. Ideias que confrontaram o próprio movimento negro, a cujos militantes Lélia apontava a contradição de reproduzirem as práticas sexistas da sociedade que impõe uma masculinidade agressiva, mesmo tendo uma avançada consciência em relação às questões de raça e classe.

Sueli também mencionou o papel singular de Lélia, “ao introduzir em todas as dimensões da temática da mulher a questão das mulheres negras como uma condição existencial agravada, do ponto de vista das relações de gênero, pelo racismo, e que também seria determinante para a posição de classe das mulheres negras na sociedade brasileira”, contrariando o mito da democracia racial.

O legado da noção de pertencimento e percepção social

“O compromisso das mulheres negras com a transformação social era visto por Lélia como prioritário, pois como ‘amefricanas’, como ela dizia, sabemos bem o quanto trazemos em nós a marca da opressão econômica e da subordinação racial e sexual”, lembrou Sueli. Para acrescentar ainda que, “assim, Lélia ensinou mulheres negras e brancas, homens e a sociedade em geral a perceberem os efeitos deletérios do patriarcalismo associado ao racismo, e como isso se consubstancia nas formas agravadas de marginalização social das mulheres negras”.

“Desde Lélia Gonzalez, compreende-se que ser mulher negra é ocupar um lugar na sociedade brasileira marcado por múltiplas injunções que se potencializam para sua difícil inserção social. Embora ela nos aponte que esse lugar peculiar pode gestar uma ótica original capaz de apreender ângulos, nuances e especificidades da sociedade que apenas o pertencimento a um determinado gênero, a uma racialidade e a uma classe social permite”, disse a filósofa.

Schuma Schumaher, coordenadora da Redeh e do Projeto Memória Lélia Gonzalez, iniciou sua fala ressaltando que “Lélia mostrou para nós o tamanho do nosso racismo, que fingíamos não ver e cometíamos a cada minuto”. E falou sobre a contribuição dela para o feminismo no Brasil como um todo, negro e não negro.

Albertina Costa, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, abordou a necessidade de reconhecimento “à sua enorme contribuição para a luta por direitos das mulheres brasileiras”. E ressaltou a participação de Lélia no Conselho Editorial do jornal Mulherio. “Se ser feminista naquela época já era um empreendimento complicado. É possível imaginar os obstáculos que Lélia enfrentou por ser uma militante dos movimentos negro e feminista, quando esses dois pareciam incompatíveis entre si. Entre as personalidades que integravam o Comitê de Redação do ‘Mulherio’, foi a que mais escreveu. Talvez porque tivesse muitas causas a defender, talvez por temperamento ou pressa de divulgar tantas ideias novas. Sua presença tornou o feminismo do jornal menos monocromático, e teve forte impacto sobre as linhas de pesquisa acerca das relações raciais e de gênero que vieram a ser desenvolvidas mais tarde na instituição”.

Hélio Santos, presidente do Conselho do Fundo Baobá para a Equidade Racial e coordenador do Instituto Brasileiro da Diversidade, também participou do tributo. Ele afirmou que Lélia “marcou a diferença entre intelectual negro e negro intelectual, sempre pensando o Brasil a partir da questão racial”.

Uma vida a serviço da transformação social profunda

Com a voz embargada, o economista Rubens Rufino falou sobre suas lembranças da mãe. “Lembro do carinho que ela me fazia no rosto”. “Eu sempre fui grande e ela me chamava de filhote”. “Sempre com um sorriso no rosto, inclusive nos momentos mais difíceis, como em 1993, com o diabetes, quando ficou muito fraca, não conseguia dirigir, nem abrir o portão da garagem. E eu nunca a vi reclamando”.

Mas Rufino lembrou também do fato de Lélia “levar a militância para o dia a dia, no ônibus, no metrô, no trabalho, no Maracanã, seja lá onde for”, e de como essa atitude fez pessoas que conviveram com ela enxergarem as injustiças sociais e reverem suas próprias práticas.

O filho mencionou ainda a interseccionalidade no pensamento e ação de Lélia. “Ela levantou a bandeira do racismo, do sexismo, dos gays e lésbicas, como se falava na época, de todos aqueles que na sua época falavam que eram ‘minorias’, e que a gente vê que não são minorias”.

E destacou a emoção e orgulho que sente ao ver a inserção de jovens na luta contra o racismo. “Era essa a vontade dela”.

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Uma trajetória de companheirismo, solidariedade e religiosidade

A alegria, companheirismo e religiosidade de Lélia também foram lembradas pelos amigos que participaram do tributo. Começando por Milton Barbosa, também fundador do Movimento Negro Unificado (MNU). “Lélia está aqui em nosso meio e vai se divertir com a gente hoje. Porque a cultura africana faz as revoluções e transformações com divertimento”.

Arquiteta, ativista negra e professora da Universidade Federal de Ouro Preto, Dulce Pereira se emocionou ao falar sobre a última conversa com Lélia, na noite de sua morte. E afirmou que “o feminismo negro, que Lélia organizou e estruturou, é extraordinariamente necessário hoje. Não só é contemporâneo como pensamento, mas como necessidade, em um momento de extraordinário feminicídio negro, de um racismo que elimina cotidianamente um número extraordinariamente elevado de jovens negros. Lélia nos deu a compreensão e a possibilidade de desfrutar de nossa beleza, que não sabíamos, do nosso direito absoluto ao corpo, da nossa possibilidade de ser e do nosso direito de ser”, afirmou.

“E Lélia nos ensinou religiosidade. Imaginem quantos de nós vínhamos de uma formação rígida, que negávamos e tínhamos vergonha das nossas religiões ancestrais. Mas Lélia facilitou esse encontro, nos conduziu ao encontro com nossos orixás”, lembrou.

Dulce também lembrou como Lélia influenciou outras referências da luta em defesa dos direitos das mulheres, como Graça Machel, Piedad Córdoba e Ruth Escobar. De como Lélia lidava com conflitos ideológicos de forma aberta. E como foi solidária às mulheres da Ilha de Granada, quando da tomada pelos Estados Unidos e assassinato de Maurice Bishop, apesar de discordar do alinhamento político do líder à União Soviética em plena década de 1980.

Testemunho compartilhado por outra ativista e amiga, Lenny Blue de Oliveira, que lembrou o embate havido no 2º Congresso da Mulher Paulista, em 1980, devido à ausência das mulheres negras nas mesas de deliberação.

Amefricanismo

Dulce também ressaltou a compreensão de uma nova relação entre mulheres e dentro do feminismo como parte da construção de um projeto de mudança social. “Foi Lélia Gonzalez quem construiu, principalmente a partir da atuação na Nicarágua e em El Salvador, um espaço para pensar o que hoje as mulheres latino-americanas chamam do ‘Bem Viver’. Principalmente porque ela soube garantir o espaço para que mulheres negras e indígenas se encontrassem, naquilo que ela chamava de os amefricanos. Sem que nos diluíssemos ou caíssemos na balela da hierarquia entre nós e da divisão que se tentava fazer entre mulheres indígenas e negras. Além disso, ela entendia a divisão no feminismo brasileiro, daquilo que chamávamos de ‘elas’ e ‘nós’, e dizia: ‘quem terá que construir a superação do ‘elas’ e ‘nós’ somos nós, mulheres negras. Temos que ser capazes de nos colocar no universo político brasileiro, organizadas e articuladas, de tal forma que consigamos construir entre nós a solidariedade entre mulheres, para que tenhamos condições de romper com o ‘elas’ e ‘nós’ e construir um projeto feminista efetivamente transformador no Brasil”.

O coordenador do Observatório de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de São Paulo, Rafael Pinto, destacou o papel de Lélia no estabelecimento e restabelecimento de contatos internacionais que possibilitaram a construção de redes de solidariedade negra que persiste até hoje. “Naquele período, durante a ditadura, éramos poucos, um período extremamente difícil, e quem efetivamente deu início a esse processo de organização negra foi a Lélia”.

 

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