Nem-nem são mulheres, pretas ou pardas, pobres e mães

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(O Globo, 18/12/2014) Perfil traçado pela Síntese dos Indicadores mostra que desemprego é de 26% nesse grupo

Os jovens que não estudam nem trabalham — conhecidos como nemnem — moram no Nordeste, estão desempregados, fazem serviços domésticos, são mulheres e mais pobres (44,8% estão em lares com renda per capita de meio mínimo). Esse foi o perfil traçado pelos pesquisadores da Síntese de Indicadores Sociais 2014, divulgado ontem pelo IBGE. Nessa população que soma 9,9 milhões de jovens, 68,8% são mulheres e a maior parte tem entre 18 e 24 anos.

A grande maioria, 62,2%, é preta ou parda, e 26% estão desempregados, taxa acima dos 7,9% na população total de jovens de 15 a 29 anos. Os filhos também estão mais presentes: 57,1% das meninas eram mães.

Filha mais velha de uma prole de três e dependendo do salário mínimo da mãe que trabalha em uma padaria, Maria Luiza da Conceição, de 14 anos, prepara-se para enfrentar uma rotina pesada em casa: teve um bebê prematuro de seis meses e há dois meses vive interna no Instituto de Medicina Integral Fernandes Figueira (Imip), o que permitiu a sobrevivência do recém nascido.

Até o fim de semana, ela deve voltar para casa e já começa a pensar no que vai enfrentar:

— Pratos sujos, roupa para lavar, casa para limpar. Sei que será pesado. Meu companheiro tem 19 manos, é pescador e não ganha muito. Com bebê, a rotina de serviço em casa vai duplicar. Minha mãe prefere que eu fique perto. Há meus irmãos menores para eu ficar de olho — afirma Luiza, que parou de estudar e não sabe quando poderá trabalhar.

Os afazeres domésticos pesam: 89,2% das meninas trabalhavam em casa 28 horas semanais.

— Há dificuldade de conciliar a maternidade e o estudo. Creches e escola em tempo integral vão permitir que as jovens voltem a estudar quando são mães — disse Barbara Coco, do IBGE. Enquanto a mulher cresce como “referência familiar” na pesquisa, seu salário fica cada vez mais distante e desigual perante o do homem. A informação é da Síntese dos Indicadores Sociais, publicado pelo IBGE ontem, que mostra um aumento de três vezes da presença da mulher como figura principal em domicílios de casais sem filhos, de 6,6%, em 2004, para 19,4%, em 2013. Já entre as famílias com filhos, o número aumenta quatro vezes: de 5,1% para 20,3%. Porém, os rendimentos mensais não refletem esse avanço. Nas casas em que o casal possui renda individual, e a mulher foi apontada como referência, os homens ganham mais em 76,3% dos casos. Em 2004, o percentual era de 70,6%.

— Existe a percepção cultural de avanço das mulheres e de suas pautas, mas há um histórico muito negativo de machismo que ainda permeia o meio trabalhista e faz com que essa desigualdade exista — afirma o pesquisador Josué da Silveira, da Universidade Federal de Pernambuco. — Além disso, quanto mais avançam as questões das mulheres, mais cresce um receio que pode estar gerando, indiretamente, um enaltecimento ao salário dos homens.

‘GERAÇÃO CANGURU’ CRESCE

A pesquisa também mostrou que um quarto dos jovens entre 25 e 34 anos ainda mora com os pais. A “geração canguru” brasileira vai de encontro à tendência mundial, que é a saída cada vez mais cedo de casa. A permanência ao lado dos pais não está relacionada com a falta de emprego e renda. Em média, esses jovens têm 10,9 anos de estudo, e a maioria das famílias em que se inserem tem rendimento maior do que dois salários mínimos.

— É uma geração que está presente nas universidades e trabalhando mas não sai das asas dos pais. Os motivos variam de região para região e vai desde uma incerteza com o mercado de trabalho, investimento em suas formações ou até o alto custo em grandes cidades. O problema é não transformar isso em uma cultura permanente — afirma Josué.

Outro dado importante está do outro lado da pirâmide etária. O aumento da população idosa fez com que crescesse o número de pessoas que moram sozinhas em 35%. Destes, 61,7% têm mais de 60 anos. A região Norte é a que teve a maior variação: 40,5%.

Os casais que não têm filhos tiveram um crescimento de 32,9% enquanto aqueles que possuem filhos tiveram uma diminuição de 13,8%. Antônio Freitas, membro da Academia Brasileira de Educação e pró reitor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), alerta para a mudança populacional pela qual o país está passando, e afirma que, no futuro, se não houver maior investimento na educação, os jovens terão menos produtividade, o que pode embaralhar o sistema de aposentadoria brasileiro:

— A pirâmide etária do Brasil está se modificando — disse. — Lá para 2040, teremos muito mais idosos e menos jovens. Se esses jovens não tiverem boa educação, não terão boa produtividade, e o sistema de aposentadoria vai ruir, porque não vai ter dinheiro suficiente para sustentar essa quantidade grande de idosos.

Cássia Almeida e Letícia Lins

Acesse o PDF: Nem-nem são mulheres, pretas ou pardas, pobres e mães (O Globo, 18/12/2014)

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