24/02/2014 – Escritora fala sobre feminismo, machismo, racismo e mídia a Sonia Racy

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chimamanda-adichie_460x474lastleletterfirstword(O Estado de S.Paulo) Escritora aclamada pela crítica internacional, a nigeriana pertence ao mundo cult, mas virou hit na internet depois de ter palestra ‘sampleada’ pela cantora Beyoncé.Até poucos meses, a escrito­ra nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie era conheci­da apenas por um público muito específico da literatu­ra. Apesar de ter ganho o Orange Prize por seu segun­do romance, Meio Sol Amare­lo, e colaborar periodicamen­te para a revista The New Yorker, a africana conquistou po­pularidade mundial depois de ter um trecho de sua pa­lestra Todas deveríamos ser fe­ministas “sampleado” por Be­yoncé, em seu último disco. Entretanto, quando indaga­da sobre a cantora, ela se ne­ga a comentar. Mas o fato é que, hoje, o cenário é outro para Chimamanda – bem di­ferente de 2008, quando te­ve passagem discreta pela Flip, em Paraty. Depois do ‘impulso’ da cantora pop, seu último livro, Americanah – a ser publicado no Brasil, no segundo semestre, pela Cia das Letras – saltou da po­sição 861 para 179 nas ven­das na Amazon.

Radicada nos EUA, a escri­tora é militante contra o pre­conceito. O tema, inclusive, foi o fio condutor de uma ou­tra conferência, ministrada por ela em 2009, intitulada O perigo da história única. O vídeo, que se espalhou pela rede, ganhou espaço nos de­bates online sobre estereóti­pos e visões restritas sobre a Africa: “Quis falar sobre co­mo é importante não pensar que sabemos tudo sobre um lugar ou sobre alguém, quan­do, na realidade, apenas sabemos um pouco”. Outro tema pelo qual Chimamanda ganhou fãs – não por meio da literatura, mas pela inter­net – foi o feminismo.

Quando o assunto é dife­rença de gênero, a escritora repete, alto e bom som, al­guns dos conceitos ditos na palestra que conquistou Be­yoncé: “A mensagem da mí­dia, hoje, é ‘como manter um homem’, ‘como encon­trar um homem’. Mesmo que você seja uma super profissional ou tenha uma empresa, não está totalmente satisfeita de verdade até en­contrar um homem. Essa é a mensagem. Com os homens é diferente”, afirma, defen­dendo um tipo de feminis­mo moderno: “Muitas vezes, quando falamos sobre ser fe­minista, as pessoas atribuem estereótipos muito negati­vos a essa palavra. Confun­dem feminismo com mulhe­res que odeiam os homens e acham que todas as relações entre homens e mulheres são opressoras”, afirma.

Ela vai além e também en­tra em questões políticas. Recentemente, declarou pu­blicamente ser contra a lei antigay da Nigéria e, em seu livro Americanah, escreve so­bre a eleição de Obama em 2008: “Acho ele brilhante, um dos melhores presiden­tes que os EUA já tiveram. Entrou no cargo com enor­me quantidade de expectati­vas, que não eram realistas. Então, as pessoas que se di­zem decepcionadas são as que sentiram que ele era Jesus Cristo e que iria transformar água em vinho”.

A seguir, os melhores momen­tos da conversa.

•  Como soube que a Beyoncé usaria uma amostra de sua confe­rência em sua música? Ela en­trou em contato com você?

Não quero falar sobre Beyoncé.

•  Em sua palestra, que a cantora incluiu no disco novo, você fala sobre a criação de mulheres de uma maneira diferente – para que sejam mais independentes. Acredita que já estamos trilhan­do esse caminho?

Gostaria que isso fosse verda­de, mas não é. Em todas as par­tes do mundo as mulheres ain­da são julgadas de forma dife­rente em diversos assuntos. São as mulheres que valorizam mais o casamento, não os ho­mens. São as mulheres que ain­da valorizam o compromisso, não os homens.

•  Isso é algo generalizado?

Sim. A mensagem da mídia, ho­je, é: “Como manter um ho­mem”, “Como encontrar um homem”. E mesmo que você seja uma superprofissional ou tenha uma empresa, não está totalmente satisfeita de verda­de até encontrar um homem. Essa é a mensagem. Com os homens é diferente. Então, as mulheres são criadas para achar que o casamento é mui­to importante. Os homens não. Isso é um problema.

•  Eu lhe retorno a pergunta que você propôs na pa­lestra, quando diz “por que ensina­mos as meninas a quererem se casar e não os homens?”

Bem… não sei. Acho que tem um aspecto um pouco cultural e, se na história da hu­manidade, é história, é cultura e também é religião. Acho que a religião tem um papel impor­tante nesse caso. Mas também acho que podemos desfazer is­so. Não estou tão interessada em perguntar por que fazemos isso, mas em perguntar como podemos mudar isso.

•  Então, qual é o maior desafio para as mulheres hoje?

Há muitos desafios. Na Nigéria, por exemplo, as mulheres se es­condem nas sombras do poder. Mesmo as que têm um cargo al­to fingem quando estão em pú­blico. Elas ainda têm de entrar no jogo de como a sociedade es­pera que elas sejam. Se saem com o marido, têm de ser justas com ele, têm de dizer coisas co­mo “oh, estou tão feliz que meu marido me permite”. Esse tipo de coisa. Seria muito bom se mais mulheres sentissem que não têm de se adequar a todas as expectativas culturais.

•  Sheryl Sandberg, CEO do Facebook, defende que, na medida em que mulheres conquistarem posições de poder, a tendência é a forma de trabalho (horário e método) mudar. Concorda?

As normas no ambiente de tra­balho como são hoje foram fei­tas por homens, sob pressupos­tos de que as mulheres ficavam em casa e tomavam conta das crianças. E agora que as regras dos gêneros estão mudando. Só acho que mais países precisam repensar como podemos estru­turar os horários de trabalho.

•  Acredita que o termo feminis­mo também sofre preconceito?

Sim. Muitas vezes, quando fala­mos sobre ser feminista, as pes­soas atribuem estereótipos nega­tivos. Confundem feminismo com mulheres que odeiam os ho­mens e acham que todas as rela­ções entre homens e mulheres são opressoras. Isso não é femi­nismo, realmente. E um radica­lismo. Entretanto, acho que está mudando. Na década de 1970, as mulheres estavam muito mais dispostas a se rotularem como feministas. Isso mudou nos anos 90 e espero que seja me­lhor nos próximos dez anos, que mais mulheres e homens pen­sem sobre essa palavra.

•  No seu último romance, Ameri­canah, você aborda o tema do cabelo para as mulheres como sendo uma questão não apenas estética, mas política.

O cabelo, muitas vezes, não é apenas cabelo. Certamente, jul­gamos as pessoas com base na aparência. E, para as mulheres, o cabelo tem esse caráter. Ve­ja, por exemplo, a questão da coloração. Algumas escolhem não tingir o cabelo e essa atitu­de é interpretada como se ela estivesse rejeitando ideais con­vencionais de beleza, ou talvez ela “só seja muito orgânica e goste de ioga”. Mas, para as mulheres negras, é diferente.

•  Como?

Nós somos as únicas mulheres no mundo que gastam muito tempo e dinheiro para fazer com que o cabelo tenha uma aparência completamente dife­rente da original. Isso é o resul­tado de muitas coisas, entre elas a colonização e o imperia­lismo. Mas, acima de tudo, a sensação de que você não está no centro das coisas. Então, há essas jovens africanas que cres­cem sem olhar uma foto se­quer de pessoas que se pare­çam com elas. Interiorizamos ideais de que nosso cabelo é, de alguma forma, feio.

•  Não acha que isso está mudan­do no mundo?

Quanto mais mantemos o cabe­lo natural, mais as pessoas leem todos os tipos de significados para isso. Já me disseram, por exemplo, que, por não colocar produtos químicos em meu ca­belo, estou levantando uma bandeira. Na verdade, gosto do meu cabelo do jeito que ele é. E tão convencional a ideia de que você tem de fazer alguma coisa no seu cabelo que, quando você escolhe não fazer, isso acaba se tomando uma bandeira.

•  Sua conferência O perigo da história única teve mais de 5 mi­lhões de visualizações na inter­net. 0 que você quer dizer quan­do fala em “história única”?

Falo sobre uma visão única. Quis falar sobre como é impor­tante não pensar que sabemos tudo sobre um lugar ou sobre al­guém, quando, na realidade, ape­nas sabemos um pouco.

• Acredita que é possível ter uma “história única” sobre nós mesmos?

Isso é bem interessante, na ver­dade. Acredito que podemos ter uma visão única sobre os outros. Em geral, as pessoas têm conhecimento sobre suas próprias complexidades.

•  Em sua palestra, você fala so­bre os estereótipos que as pes­soas têm da Nigéria. Qual era a sua “história única” do Brasil, antes de visitar o País?

Ah… o futebol, não é? Eu sou nigeriana, e o futebol é quase uma religião aqui. Mesmo que você não goste, é muito prová­vel que saiba sobre o assunto. Mas devo dizer que, na verda­de, estou brincando, porque fui ao Brasil duas vezes e sei que é um país muito comple­xo. Acho que uma das “histó­rias únicas”, ou estereótipos sobre o Brasil, é a que fala so­bre como a raça realmente não importa – e há essa mistura in­crível de pessoas. Então, estou muito interessada em como a raça se manifesta no Brasil, porque não acredito nessa ver­são da história.

•  O Brasil tem uma semelhança com a Nigéria, que é o sincretismo religioso, tema que você trata no livro Hibisco Roxo. Chegou a sentir essas semelhanças quando visitou o País?

Sim, com certeza. Lembro- me de estar dirigindo do ae­roporto do Rio de Janeiro para a Flip e pensar em co­mo o Brasil se parece com a Nigéria. Mas as estradas no Brasil são melhores (risos).

•  Você já afirmou que gosta muito de escrever sobre as emoções humanas. Como de­senvolve o tema quando está diante do computador?

Não tenho muita certeza so­bre o quanto de minha escri­ta é inteiramente conscien­te. Mas, em geral, estou mui­to interessada nas pessoas. Gosto de observar e enten­der o que significa ser huma­no. Estou interessada nas emoções humanas, porque acho que elas guiam muito do que fazemos.

•  Em Americanah, um dos personagens acompanha as eleições de Barack Obama. Como uma nigeriana que mo­ra nos Estados Unidos, o que acha do presidente?

Acho ele brilhante, um dos melhores presidentes que os EUA já tiveram. Ele en­trou no cargo com uma enor­me quantidade de expectati­vas, que não eram realistas. Então, as pessoas que se di­zem decepcionadas são aquelas que sentiram que ele era Jesus Cristo e iria transformar água em vinho. Mas ele não é, e acho que tem feito o bastante. E tam­bém o admiro profundamen­te como pensador e escri­tor. Se você ler o primeiro li­vro de Obama, seu livro de memórias, A Origem dos Meus Sonhos… acho que é muito bem escrito, mas tam­bém mostra que tipo de mente e, principalmente, sua imaginação. Creio que pessoas assim deveriam es­tar em cargos públicos.

•  E quanto à primeira-dama?

Adoro Michelle!

•  Quando veio ao Brasil para participar da Flip, você leu uma pequena parte de Autobiography of My Mother, da ro­mancista Jamaica Kincaid, como seu trecho de livro favo­rito. Se fosse escolher agora, qual seria?

Acho que escolheria Michael Ondaatje, porque estou len­do ele novamente. E sempre amei seu trabalho. Amo seus livros. Estou cada vez mais interessada em escrever es­se tipo de coisa, acho que é muito inspirador.

•  Nessa mesma ocasião, você justificou sua escolha dizendo que era um livro poético e sen­sual. É ainda esse tipo de lite­ratura que lhe interessa?

Sou interessada em todos os tipos de literatura. Da mes­ma maneira que adoro ler li­vros poéticos e sensuais, gos­to muito de uma literatura que não tenha nada disso.

•  Já tem alguma ideia para seu próximo livro?

Tenho, sim, mas sou muito supersticiosa. Então, não vou lhe contar.

/MARILIA NEUSTEIN

Acesse o PDF: “As mulheres são criadas para achar que o casamento é mui­to importante”, por Sonia Racy (O Estado de S.Paulo, 24/02/2014)

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