Novembro. Atenção para não cometer excessos ao divulgar a consciência negra, por Mônica Aguiar 

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O mês da Consciência Negra no Brasil é o mês que marca e destaca ações da luta dos negros contra o racismo, discriminação e preconceitos racial.

(Blog Mulher Negra, 16/11/2019 – acesse no site de origem)

Muitas divulgações estão colocando o mês e Dia da Consciência Negra como data de comemoração, mas de fato não é verdade.

Este mês e data apontam uma série de reflexões sobre a péssima situação socioeconômica do povo negro na sociedade brasileira.

Afinal, mesmo após a tão comemorada libertação da escravidão, a maioria da população negra e principalmente as mulheres negras continuam obrigadas a conviver com a vulnerabilidade social, sem acesso aos direitos fundamentais garantidos recentemente pela Constituição do Brasil.

O mito da democracia racial que se tornou uma postura ideológica, que se mantém cada dia mais viva, condenando cotidianamente o povo negro a exclusão, violência e desigualdades.

No Brasil a população negra representa 54% da população (dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Pnad, divulgados pelo IBGE). No grupo dos 10% mais pobres, os negros representam 75% das pessoas, mas entre o 1% mais rico, somam apenas 17,8% dos integrantes.

Em apenas cinco anos os números de pessoas negras na pobreza e extrema pobreza dobraram no Brasil. Este dados estão no relatório organizado pela ONG ActionAid, com base em informações da Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao meu ver, matérias e chamadas que buscam falar do mês da consciência negra de forma comemorativa demonstram uma grande falta de conhecimento, traduzem a não aplicabilidade da Lei 10.639 nas escolas, a falta de acesso a informações corretas e falta de interesse em buscar informações corretas quando o assunto em pauta é a população negra.

Chavões, frases postas e mal copiadas, sem sentido, palavras pejorativas, conteúdo criminalizador. Falta muito conteúdo em jornais, revistas, nas redes sociais de grandes acessos e circulações.

Então é preciso parar de falar nesta data tão importante? Não.

É preciso buscar o conhecimento correto. Dar voz a quem tem conhecimento. Visibilizar atores que lutam historicamente pelo combate a o racismo, pois detêm conhecimento técnico, científico e político, seja através da academia ou da oralidade.

É preciso fomentar agendas que tenham conteúdos que mexam com as estruturas do Estado.

Pautas que coloquem o reconhecimento do povo negro deste país como cidadãos e não meros figurantes. Que falem da cidadania, que retratem as desigualdades e coloquem a importância do acesso às riquezas, que dialoguem com a sociedade sobre a prática do racismo, mas também sobre a naturalização deste crime e a falta de cumprimento das leis, tratados e convenções que o Brasil foi obrigado a assinar.

Que falem das reparações.

Diminuir a importância do mês da Consciência Negra e folclorizar o dia 20 de novembro são práticas racistas.

A luta do movimento negro pelo reconhecimento por parte do Estado do dia 20 de novembro vem se arrastando por dezenas de anos. E ainda assim, mesmo com alguns avanços ou arranjos sociais e estruturais, existem muitas prioridades para garantia da igualdade entre negros e não negros no Brasil.

As desigualdades raciais estão aí demostradas em cada ser humano negro que morre nas mãos das polícias, nos rostos de quem não tem moradia, nas mãos de quem trabalha sol a sol, na pele negra de quem não tem saúde pública e específica, de quem usa transporte público, não tem saneamento, não tem emprego ou estar no subemprego. As desigualdades raciais estão verbalizadas nas palavras e falta de vontade política dos governantes independentemente do partido.

Não as enxerga de forma correta quem não quer, pois não mudaram desde a escravidão, apenas se dão em outros formatos. O crescimento da população negra na pobreza e extrema pobreza no Brasil nos últimos 5 anos demostra a falta de responsabilidade do Estado e dos governantes do Brasil que negam a debater o porquê somente os negros estão nesta situação.

Mas como uma população que contribui tanto com o crescimento econômico pode ainda não conseguir acessar bens e serviços?

Por que negros e negras independentemente da formação recebem o pior salário no Brasil?

Os esforços para a construção social, o desenvolvimento da identidade em pessoas negras, combater o genocídio e a criminalização de jovens negros, oportunidades, igualdade salarial, reconhecimento das especificidades, acesso ao poder e à política, acesso às políticas públicas e ao pleno exercício da cidadania ainda são pautas vigentes e estão colocadas desde a pós escravidão pelo movimento negro e de mulheres negras.

Mônica Aguiar é uma blogueira negra feminista, residente em Belo Horizonte/MG, que desde 2010 mantém o Blog Mulher Negra, com “notícias do Brasil e do mundo diariamente. Educação, ciências e tecnologia, cultura, arte, cinema, literaturas, economia, política, dentre outros. Construindo a visibilidade das mulheres negras em fatos reais no mundo”. 

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