“O Brasil é um dos países mais racistas do mundo”, afirma Alexandra Loras

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(Istoé, 27/11/2015) Casada com o cônsul geral da França no Brasil, a jornalista francesa fala do preconceito no País e pede reflexão sobre os ataques terroristas em Paris

O olhar estrangeiro de Alexandra Loras enxerga um Brasil que os brasileiros podem ter dificuldade de ver. Com lentes sensíveis, a jornalista francesa de 38 anos, graduada pela Sciense Po, a mais respeitada escola de ciências políticas da França, tem sido uma voz importante nas discussões sobre racismo no País.

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PARIS – ‘Não vamos combater essa ideologia radical com bombas, mas abrindo o diálogo’ (Foto: Reprodução)

Casada com Damien Loras, cônsul geral da França, ela mora em São Paulo há três anos, tem um filho de três anos e conta que viveu aqui suas principais experiências racistas. Sua mãe é francesa e seu pai, imigrante da Gâmbia. De origem judaica e muçulmana, ela nasceu no gueto de Corbeil-Essone, em Paris.

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‘A cara da França não é monocromática, branca. Eu sou a cara da França e a Brigitte Bardot também é’ (Foto: Reprodução)

É a única negra entre cinco irmãos. Alexandra, que trabalhou sete anos como apresentadora na televisão francesa, acredita na importância de falar para mudar. Por isso, fala sobre o Brasil e também propõe reflexões sobre os ataques em Paris e as políticas de exclusão dos imigrantes ao longo da história.

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‘Precisamos honrar o que árabes e muçulmanos fizeram pelo povo francês na história. Eles lutaram pela França nas guerras’ (Foto: Reprodução)

ISTOÉ – O que sentiu quando recebeu a notícia dos atentados em Paris?

ALEXANDRA LORAS – Além do horror e do luto, eu senti que precisamos nos proteger e enxergar que não vamos combater essa ideologia radical com bombas. Hoje precisamos refletir sobre a nossa responsabilidade para mudar esse mundo, abrindo o diálogo. Temos que pensar por que nossos compatriotas franceses, que abraçaram a ideologia radical, escolhem esse lado sombrio da força.  É muito importante haver mediadores pacifistas para um trabalho de construção.  Precisamos resgatar esses jovens que estão se radicalizando.

Os jovens radicais franceses são filhos da exclusão?

ALEXANDRA LORAS – É interessante olhar o trabalho de antropólogos e historiadores. O fato é que a França nunca teve 50 anos sem guerra. Historicamente, é um povo revolucionário. Temos que enxergar que esses jovens radicais foram criados na França e que eles também tem uma alma revolucionária. Mas foram seduzidos por uma ideologia radical e perigosa. Qual é a nossa responsabilidade social de tê-los deixado escolher esse lado?

A sra. acredita que uma política de inclusão poderia ter evitado o que tem acontecido?

ALEXANDRA LORAS – Temos que olhar como Schopenhauer: para viver é necessário olhar para frente. Para compreender nossa cultura e o mundo em que vivemos, é necessário olhar para trás. Precisamos  valorizar o que nos trouxe de bom o mundo muçulmano. Hoje, quando vejo a França livre, lembro que os árabes vieram lutar ao nosso lado na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.  Os árabes e os negros. E eles não tiveram escolha. Eles eram sorteados e tinham que lutar no front contra os alemães. Precisamos honrar o que os árabes e os muçulmanos fizeram para o nosso povo. A história não traz isso nos livros didáticos ou na televisão. Acredito que ficou uma ferida maior nas crianças que são filhos da herança da imigração, que não acharam um lado para se desenvolver. Eu, Alexandra Loras, sou a cara da França. A Brigitte Bardot tambem é. Omar Sy, ator de “Os Intocáveis”, também é. Também o Jamel Debbouze, um artista adorado na França. A cara da França não é monocromática branca. É a diversidade.

A França está pagando o preço da  exclusão dos imigrantes?

ALEXANDRA LORAS – Parte da França não assumiu sua diversidade. Tivemos um prefeito de Paris negro em 1879. Severino de Heredia. Tivemos vários senadores e ministros, deputados árabes e negros desde a Revolução Francesa até hoje. Mas nunca entraram nos livros didáticos. Temos uma diversidade imensa na França que não enxergamos como uma riqueza. E se continuarmos a enxergar isso como uma tragédia, é negar que já estamos numa crise de identidade. A Revolução Francesa cortou a cabeça do rei e ainda sobrevive uma monarquia estrutural que não deixou a diversidade entrar nas discussões da identidade da França atual. Vemos os refugiados da Síria e da Líbia chegando à Europa. Estamos vendo os conflitos nesses países e agora que eles estão chegando, temos uma postura de não aceitar todo mundo. Mas quando aconteceu essa tragédia em Paris, não durou um segundo para enxergarmos o que eles estão enfrentando com esses radicais.

O que é preciso ser feito?

ALEXANDRA LORAS – Precisamos refletir sobre o que aconteceu, e criarmos uma justiça restaurativa, a exemplo do que fez Desmond Tutu no fim do Apartheid. Precisamos ter um diálogo interreligioso. Precisamos ter dinâmicas de convivência e mediadores pacifistas nos conflitos. Precisamos que as mulheres, que são 52% da população mundial, entrem nesse debate. Hoje estamos reequilibrando muitas coisas, e as mulheres precisam ter voz nesse debate.

A sra. teve parentes feridos nos atentados?

ALEXANDRA LORAS – Um amigo estava no restaurante Petit Cambodge, mas não foi ferido. Ele se abaixou, mas uma mulher grávida morreu nos braços dele. Ele viu pessoas baleadas respirando como um peixe for a dágua. É um trauma. Precisamos de terapia, diálogo interreligioso e dinâmicas de convivência. Não é com bombas que venceremos.Temos que nos sentir livres e animados para continuar a vida. Mas a ameaça não acabou. O trabalho urgente nao é só investir milhões em segurança, mas também investir milhões nas escolas. Pensemos nas criancas muçulmanas, católicas, negras e judias.  Como elas vão interagir umas com as outras, precisamos treinar professores na base da escola para não cair no amálgama do generalismo. Devemos contar o que aconteceu, sentir como eles percebem o conflito. precisamos de terapia comunitária.

A sra. começou a sofrer ameaças racistas após o atentado ao jornal Charlie Hebdo. Pode contar?

ALEXANDRA LORAS – São ameaças de uma francesa racista que não me considera francesa por ser negra. Depois dos ataques ao jornal Charlie Hebdo e na semana passada aconteceu. Tenho primos que se chamam Coulibaly, e no Charlie Hebdo havia um terrorista com esse sobrenome. Ela faz ironias com isso.  É uma francesa que reside no Brasil  escreve em português. Nunca respondi.

O Brasil é racista?

ALEXANDRA LORAS – Para mim, o Brasil é um dos países mais racistas do mundo. É importante dizer que o brasileiro não se acha racista, mas o sistema brasileiro é um dos mais racistas. Já viajei para mais de 50 países e morei em oito países. O Brasil é o país onde há mais negros no mundo fora da África. É o segundo país com mais negros depois da Nigéria. E onde estão os negros nos círculos sociais, nas escolas e nos ambientes de trabalho, nos círculos de poder? Há formas de racismo veladas.

Mas quanto tempo a sra. levou para chegar a essa conclusão?

ALEXANDRA LORAS – As maiores experiências racistas que já vivi foram aqui. Meu irmão mora aqui faz 17 anos. Eu vinha para o Brasil de férias. Uma vez fui a Salvador, e para entrar no hotel Convento do Carmo, fui barrada por um negro. Acabei entrando porque falei com sotaque francês. Ele me perguntou aonde eu ia. No aeroporto em São Paulo, sempre tive que abrir a bagagem, mesmo apresentando meu passaporte diplomático. Sempre foi assim. É muito dificil se dar conta disso quando você não é negra. Fui recentemente ao Clube Pinheiros, em São Paulo, com meu filho, que é loiro. Eu estava elegante, com um vestido Pucci. Tinha esquecido minha carteira do clube. Dei meu passaporte diplomático, que é um documento  elegante. Então me perguntam: “Você é acompanhante dele?” Respondi: “Não, sou a mãe”. A moça na portaria insistiu. E voltei a dizer: “Ele é meu filho”. Na cabeça dela, eu não poderia ser sua mãe. A funcionária achou que eu era a babá. Acontece muito.

A sra. dediciu se tornar uma voz da causa negra no País.

ALEXANDRA LORAS – Não decidi. Por ser consulesa da França, as pessoas querem me escutar. Trabalhei sete anos na tevê francesa, muitas vezes tive oportunidade de falar sobre a identidade francesa. Mas meus compatriotas que não me legitimam como francesa porque sou negra. Às vezes perguntam de onde venho. Minha irmã é loira de olhos verdes. seu pai é polonês e ninguém a questiona por ser francesa. Quando digo que meu pai veio da Gambia, as pessoas reagem: “Ah, da Gambia…” Então, de repente, não sou mais francesa.

É dificil para a França ser um país multirracial?

ALEXANDRA LORAS – A França foi o segundo país a ter mais escravos depois do Brasil. Os Estados Unidos estão em sétimo lugar. Só 13% da população dos Estados Unidos é negra. Até 1967, era proibido casamento interracial. Sessenta anos atrás, nos Estados Unidos, não se podia entrar nos mesmos banheiros, nos mesmos restaurantes. Nos últimos 60 anos, com as cotas, isso mudou. Hoje temos Oprah Winfrey, a americana mais rica. E Obama, presidente dos Estados Unidos. Claro que há racismo lá, mas morei três anos nos Estados Unidos e nunca experimentei uma situação de discriminação. A maioria dos meus amigos lá  eram brancos. Como aqui e como na França. Não é por escolha. Talvez pelo ambiente em que vivo. Fui criada por brancos. Meu marido é branco. Convivi pouco com meu pai.  Quando ele morreu, eu tinha 15 anos. Depois, pesquisei para achar minha família na Gambia, aos 21 anos.

Quando soube que moraria no Brasil, qual foi a sua reação?

ALEXANDRA LORAS – Eu estava grávida. E tinha medo de ter meu filho negro, e nos primeiros anos da infância dele, ele sofrer discriminação ou receber influencias subliminares que afetassem sua autoestima. Mas no fim das contas, eu precisava vir para o Brasil. Espiritualmente, o Brasil me fez acordar. É o único país onde se pode vivenciar mais abertamente as religiões. Há dualidade aqui. Sofri experiências de discriminações, mas o Brasil me deu a palavra. Por que tenho que falar? Porque a segregação era legal. O nazismo era legal. O apartheid foi legal. A escravidão foi legal. Pessoas que tiveram que se levantar para mudar as coisas.

A atriz Taís Araújo reagiu às ofensas racistas na internet…

ALEXANDRA LORAS – Como na hashtag, somos todos Taís Araújo. Somos todos Maju. São milhares de mulheres que enfrentam isso. O Brasil me tratou bem no ambiente da moda, em outros ambientes até inacessíveis. Aqui ainda é preciso trocar de óculos e enxergar o que acontece. Vivo no mundo da elite. Tenho privilégios. Mas sinto uma dor pela ligação com o meu DNA. Eu podia ter tido o destino de meus afrodescendentes que não conquistaram espaços. E pela questão da autoestima. Em palestras, sempre lembro da pesquisa com as bonecas:  85% das crianças negras escolhem a boneca branca como a boazinha e a negra como a má e feia. Nesse ponto, a tevê tem um efeito muito negativo. São 4% de negros na tevê brasileira num país que tem 57% da população negra.

O Brasil sabe que é um dos países mais racistas do mundo?

ALEXANDRA LORAS – Não sabe e nem quer escutar isto. O Brasil é o país do otimismo, do samba, do Carnaval, da natureza, dessa felicidade e da informalidade. É uma narrativa no estrangeiro. Na elite, as pessoas nem querem debater sobre isso, porque esse assunto incomoda. Mas, em dois anos de manifestações e tudo o que tem acontecido no País, sinto que o brasileiro é como um jovem adolescente rebelde. Ele hoje quer protestar, escutar e refletir.

Gisele Vitória

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